João Dornas Filho e os Gonçalves da Guia

João Dornas Filho e os Gonçalves da Guia
Rafael Corradi Nogueira

Entre as muitas figuras que moldaram a memória de Itaúna, João Dornas Filho ocupa lugar singular. Não apenas escreveu sobre a cidade, como também a transformou em campo de pesquisa e reflexão histórica. Seu trabalho, publicado pela primeira vez em 1934, conferiu-lhe o título de heródoto itaunense, e mesmo hoje, tantos anos depois, sua obra continua sendo referência incontornável. Segundo o historiador Guaracy de Castro Nogueira, Dornas tinha plena consciência das limitações de sua época. Confessava não dispor de todos os meios necessários, mas afirmava a convicção de que cabia a ele recolher o que se podia recolher, registrar o que fosse possível, com a serenidade de quem sabia que a posteridade completaria os espaços em branco. Seu livro, intitulado simplesmente Itaúna, é uma síntese de esforço e devoção. Nas páginas, a história aparece organizada como um patrimônio coletivo, em que cada dado, cada lembrança, cada nome é guardado como parte de um mesmo edifício da memória.

A ligação de Dornas Filho com os arquivos e registros foi mais que técnica, foi vivencial. Para ele, a história não era um enfeite para o presente, mas um fio que unia gerações e explicava a permanência da comunidade. Afirmava que recolhera dados esquecidos em bibliotecas, nos arquivos da tradição, coordenando-os para que os anos não malbaratassem ou destruíssem. Esse gesto de humildade e zelo é o que marca sua trajetória como historiador. Dornas não buscava glória pessoal, mas a preservação de uma verdade que pertencia a todos. Na sua pena, a cidade não ganhava apenas contornos geográficos, mas densidade histórica. Era a vida de famílias, fazendas, ruas e igrejas que se entrelaçava, compondo a tessitura de um destino comum.

Entre os muitos episódios que registrou, destacou-se a figura de Antônio Gonçalves da Guia e seus descendentes. Dornas identificou nele um dos primeiros povoados de Sant’Ana do São João Acima. Os documentos que utilizou, cuidadosamente levantados pela pesquisa do Dr. Guaracy Nogueira, como a carta de sesmaria datada de 1801, confirmavam que Gonçalves da Guia havia recebido terras devolutas à margem do São João. Essa posse foi o início da fixação de sua família, que se tornaria uma das mais expressivas do lugar. Os registros mostram que, já no final do século XVIII, Antônio Gonçalves se consolidava como lavrador estabelecido, vizinho do sargento-mor Gabriel da Silva Pereira e de Manoel Pinto de Madureira, todos pioneiros na ocupação do sertão itaunense.

O trabalho de Dornas é importante por revelar que não se tratava de homens isolados, mas de famílias inteiras que vieram de Portugal para dar continuidade à vida em terras brasileiras. Antônio Gonçalves Lourenço, casado com Maria Francisca, natural da freguesia de São João Batista, em Vila do Conde, trouxe seus filhos e filhas, que se casaram e se estabeleceram em Sant’Ana. A genealogia dos Gonçalves da Guia rapidamente se entrelaçou com outros troncos familiares, como os Fernandes Braga, os Soares, os Cardoso e os Nogueira, todos nomes que se perpetuariam nas fazendas e nas capelas da região. A descendência foi vasta, e muitos de seus herdeiros se tornaram proprietários de terras, mantenedores de oratórios, pais de futuras gerações de políticos e sacerdotes.

É revelador observar que, mesmo no ato de partilhar bens, a presença da religiosidade era constante, seja na forma de doações para celebrações, seja no cuidado em assegurar que os herdeiros preservassem oratórios e imagens de devoção. 

O ramo da família que se firmou em Itaúna atravessou o século XIX com força e tradição. João Gonçalves da Guia, um dos descendentes diretos, casou-se em 1816 e deixou vasto número de filhos, entre eles padres e lavradores, que continuaram a obra iniciada pelo antepassado. Francisco José da Guia, outro descendente, tornou-se proprietário de terras na Aplicação do Morro de Mateus Leme. O entrelaçamento de casamentos ampliou as ligações da família, reforçando o papel dos Gonçalves da Guia como eixo de sustentação da sociedade local.

Ao longo do tempo, outras famílias se agregaram a esse tronco, como os Pereira da Silva, os Fernandes Braga e os Herculano Pereira. Estes últimos, descendentes de Manoel Pereira da Silva, o Moço, e de Herculana Petronília, neta de Antônio Gonçalves, criaram uma tradição que se perpetuou no culto religioso, no zelo pelas capelas e na vida política da cidade. O apelido Herculano, repetido entre gerações, tornou-se um emblema de continuidade. Muitos dos que hoje habitam Itaúna reconhecem nessa herança um testemunho de identidade.

Assim, a obra de Dornas Filho, combinada com a documentação genealógica e com a tradição oral, permite compreender que a história de Itaúna não se explica sem os Gonçalves da Guia. Eles representam o esforço de adaptação, o peso das responsabilidades familiares e a permanência da fé como elemento central da vida cotidiana. A cidade que conhecemos nasceu dessas raízes, que atravessaram o oceano e encontraram nas margens do São João o terreno fértil para florescer. E como escreveu o próprio Dornas, citando os clássicos, “a verdade é o que resiste ao tempo”.