Cultura complexa e um “pacote” pesado pra carregar

Cultura  complexa  e um “pacote” pesado pra  carregar

Confesso-me surpreso com a entrevista do nosso secretário de Cultura, Márcio Gonçalves Pinto, o nosso Marcinho Hakuna, que está sendo publicada nesta edição nas páginas 13 e 14. O Marcinho, de forma tranquila, destrinchou as nossas perguntas com tranquilidade e não atropelou ou deixou de dar vazão aos problemas do nosso setor cultural, que há anos esbarra em burocracia, desleixo, falta de vontade e, o pior, visão distorcida dos nossos administradores, que na, maioria das vezes, estão preocupados com ações popularescas e esquecem que a cultura engrandece o homem, seja ele catedrático ou um simples mortal que vê na simbologia de cânticos e/ou tradições seculares uma cultura pura, cultuada pelos nossos ancestrais. 

Quando afirmou que fiquei surpreso é porque ele respondeu a todas as perguntas feitas, em que procuramos abordar todas as áreas da cultura itaunense, algumas emperradas por anos por causa de negligência e outras apenas deixadas de lado por falta de interesse ou por não ser interessante politicamente falando. Mas o importante é que há, nesse curto período de 12 meses, uma busca para acertar, para fazer com que a engrenagem cultural, sempre entrelaçada, tenha uma rotatividade que possa mexer com todos os meios e movimentos culturais, misturando folclore, teatro, música, literatura, pintura e os movimentos culturais populares, de rua, importantíssimos e ricos.

Está certo o Marcinho quando afirma que Itaúna é uma cidade onde a cultura se confunde com a cidade e seus movimentos desde o início do século passado, quando de sua emancipação. Sempre tivemos movimentos culturais de altíssimo nível e que envolviam a comunidade num todo, independentemente de os protagonistas eram intelectuais ou não. A mistura de cultura nos palcos do Cine Rex, com peças teatrais bem montadas e dirigidas por itaunenses e com atores também itaunenses. Nossos cantores no palco e nos estúdios da Rádio Clube, passando pela música popular brasileira ou pelo sertanejo de raiz e/ou ainda os sarais literários nas tardes dos domingos das décadas de 40, 50, 60 do século passado, nas escadarias da velha Matriz. E ainda não podemos esquecer a festança dos crioulos no Alto do Rosário, que desciam até a praça principal e adentravam a Matriz antiga, numa mistura de fervor e arte popular trazida da África. Depois desse apogeu nas citadas décadas, entramos numa era de modernidade, a partir de 1970, e a música popular e as músicas eruditas e clássicas, além do teatro moderno, chamaram a atenção de todas as classes com o conceito de pluralidade social, que permitiu mais acesso a todos os tipos de arte a todo cidadão, independentemente de classe social. E, mais uma vez, Itaúna deu um show de pluralidade, com um carnaval de rua de alto nível e centrado em retratar a cultura popular através das escolas de samba como Zulu, Castores e Pães, que, com enredos bem-elaborados, contaram histórias através de alegorias, fantasias, samba-enredo e muito samba nos pés, subindo a Rua Silva Jardim. Os negros, com fervor e alegria, aprimoraram suas fardas e multiplicaram as guardas que cantam em honra à Nossa Senhora do Rosário, lá no alto do morro, numa igreja maravilhosa, que é patrimônio histórico tombado. 

E esse pouco que estou lembrando precisa ser bem cuidado, além do que foi citado na entrevista do secretário de Cultura. Temos um acervo histórico inarrável na Fundação Maria de Castro, que, em minha opinião, já deveria estar à disposição da população para consultas e sob a responsabilidade do Poder Público. Eu disse responsabilidade. Uma palavra difícil, mas que precisa ser dita e honrada. Temos nossos teatros, que precisam de cuidado diário, para que nossos artistas tenham onde se apresentar. Temos nossa igrejinha lá no Bonfim, que foi restaurada, ou melhor, reconstruída depois de um incêndio criminoso. É preciso cuidado de verdade. E se temos uma biblioteca pública, que por anos ficou com os livros amontoados até em banheiro, ela precisa estar apta a ser frequentada, com o enriquecimento do seu acervo constantemente. É bom lembrar que estamos na era digital. E falamos, lá na entrevista, do Museu Francisco Manoel Franco, que, desde a sua fundação, sempre funcionou pelas metades e nunca se mostrou inteiro para a população, seu acervo ficou encostado embaixo de escadas no poliesportivo e peças foram deterioradas. Criou-se uma comissão para avaliar o acervo e selecioná-lo, que desta vez ele cumpra a sua função de guardar a história para que as gerações futuras possam relembrar e/ou entender o porquê de termos chegado até aqui. 

Enfim, cultura é a soma do nosso cotidiano, da nossa arte pura e/ou estruturada, contada por meio da história de um povo, de uma comunidade, também através do talento de cada um, e não importa se esse um é catedrático em alguma coisa, importa, sim, se é culto, que vem de cultura, de sabedoria, seja ela através dos livros ou por meio dos contos populares. O que é necessário é ter a sabedoria de preservar e o talento para transformar, isso basta para que tenhamos uma sociedade sábia e apta a conviver com o passado, o presente e o futuro, afinal, ninguém fica para semente. Mais dia ou menos dia, seremos apenas lembranças e isso por si só é história.