O primeiro ano

Foto: Reprodução Google Imagens
Scott Turow, associado a este livro, um retrato vivo de sua formação no ramo do direito, não traz à memória de ninguém o escritor que se tornou a sensação mundial no que hoje chamamos de romance de tribunais.
O livro aqui abordado é o primeiro livro escrito por este que é hoje, sem sombra de dúvidas, o autor da prateleira de cima dos romances ambientados no judiciário, porém, neste caso, o que temos em mãos é um livro que vai falar de como se faz um advogado. Escrito a partir de sua experiência pessoal como aluno primeiranista no curso da faculdade de direito de Harvard.
Aborda com simplicidade e honestidade as agruras de se submeter ao primeiro ano da mais aclamada faculdade de direito americana, concorrendo com outros principiantes, que certamente foram os melhores em seus colégios, ou seja, com a nata dos estudantes estadunidenses.
Mostra o clima entre alunos e professores, o stress causado pelo desejo de sobressair e o vale da decepção, quando não se alcança o almejado.
Aqui, você não verá o brilhante autor de ACIMA DE QUALQUER SUSPEITA, mas encontrará um relato sincero do drama de cursar Direito em alto nível. A obra permitirá avaliar o modo de se ensinar direito de forma diversa da que temos aqui em nosso país.
As aulas seguem o método socrático, em que o professor mantém um ensino aberto com a proposição de um tema previamente anunciado e para o qual os alunos devem estar preparados, porque, no desenrolar da aula expositiva, o aluno será submetido a perguntas até exaurir as possibilidades de argumentação.
Citando o próprio autor, que assim se expressa quanto ao método: “...o socratismo é, de certa forma, uma tentativa de conduzir uma discussão coletiva com toda uma turma de 140 alunos”.
Perini é professor de contratos e o terror da faculdade, sua fama extrapola os muros, sendo amado por poucos e odiado pela maioria. Ao iniciar o curso, sempre adverte seus alunos que: “Espero que estejam muito bem-preparados, todos os dias. Quero ser absolutamente claro nesse ponto. Nunca ouvi a palavra ‘passo’. Não sei o que significa ‘despreparado’”.
Caso, porém, haja problemas pessoais, o aluno deverá procurar a secretária duas horas antes das aulas, na sala 281, e entregar-lhe o comunicado por escrito.
Recomendou ainda que os alunos deverão adquirir o livro “Selected Cases in the Law of Contracts”, pois “estudaremos o livro causa por causa. Estudaremos o direito das obrigações, os contratos, transações comerciais, o direito de promessas e emendou dizendo que será o curso mais difícil que farão durante todo ano”.
A pasta de reponsabilidade civil ficou a cargo de Zechmam, que estava de volta a HLS (HARVARD) após ausência de quase doze anos, já havia sido professor em Harvard, mas se transferira para uma escola inglesa. Iniciou fazendo breves comentários introdutórios dizendo que o curso passaria pelo estudo de teoria jurídica e doutrina legal. Diferentemente de Perini, era um homem de modos suaves, impoluto e formal, bem ao modo britânico.
Para surpresa de todos, na sexta-feira, os alunos se depararam com o a cereja do bolo, Nick Morris, professor de processo civil, o único que se apresentou para os alunos. Bastante extrovertido, era nota dissonante no elenco de professores, não tinha aquele formalismo ou pedantismo dos demais, também era mais jovem, vestia-se como os alunos, normalmente envergada um jeans, falava em tom coloquial, “esse negócio”, “sabem como é”, tinha apenas 31 anos e era mais jovem, que dois ou três daquela turma.
O subtítulo da obra é “Como se faz um advogado”, é mais próprio para o tema do livro, devendo, é claro, ter em mente que nos Estados Unidos da América, mesmo assim, é um livro indicado para alunos de direito de qualquer nacionalidade, porque as dúvidas, os receios, até os ataques de nervos, tanto lá como aqui, podem fazer parte, em algum momento, da vida estudantil, principalmente se o curso for de direito.
Scott Turow formou-se em direito, advoga nos Estados Unidos, porém vive mais da escrita. É um autor que deve ser lido, tem contribuições magníficas no chamado romance de tribunais, com livros como Acima de Qualquer Suspeita, Ônus da Prova, Ofensas Pessoais, isso para citar alguns.
Sintam-se bem-vindos ao banco dos réus.



