MOLECAGEM? - “CPI do Compadrio” termina em... deixa pra lá!

Kaio, que era acusado, presidiu a CPI e Tõezinho, outro apontado nas denúncias, deu voto de minerva para arquivar denúncias

MOLECAGEM? - “CPI do Compadrio”  termina em... deixa pra lá!
Fotos: Reprodução YouTube/CMI
MOLECAGEM? - “CPI do Compadrio”  termina em... deixa pra lá!

Entre os anos de 1950 e 1961, o escritor, romancista e jornalista Nelson Rodrigues escreveu uma coluna para o jornal “Última Hora”, tratando de casos de adultério, sob o título “A Vida como ela é”. Tornou-se livro, o compêndio com os melhores textos, das quase duas mil histórias escritas pelo romancista. Chama a atenção nesses textos os absurdos vividos pelas personagens, que causam exclamações aos leitores e a observação de que “só mesmo de uma mente brilhante pode surgir uma história como esta...”. Mas, do outro lado da vida, na realidade, não são mentes brilhantes que escrevem as histórias, apesar do absurdo que elas contêm. Imagine, pois, a situação em que uma denúncia contra três pessoas é apresentada e duas delas ficam responsáveis pela apuração e decisão final sobre o encaminhamento a ser dado. Parece enredo de telenovela, mas isso aconteceu em situação real, em Itaúna, envolvendo o mundo político.

O vereador Guilherme Rocha apresentou uma denúncia de que o chefe de Comunicação da Câmara, André Messias, seria o dono de uma página (de fofocas) no Instagram denominada “O Itaunense”. E que essa página estaria sendo usada para benefício do seu amigo-padrinho, Kaio Guimarães, e, ainda, do presidente da Câmara, Antônio de Miranda. Tal página estaria, ainda, sendo usada para denegrir opositores aos dois edis citados. A mesma denúncia já tinha sido apresentada, no início do ano, pelos vereadores Alexandre Campos e Lacimar Cesário, contra Kaio, diretamente, e o presidente da Câmara, Tõezinho, interferiu para “abafar” o caso, conforme informações repassadas à época.

Só que, desta feita, Guilherme Rocha não aceitou “panos quentes” e entrou com o pedido de CPI. Tõezinho, presidente da Câmara, tentou conduzir os passos da citada CPI, mas foi questionado e teve de reconhecer impedimentos, e acabou repassando a tarefa para o vice-presidente, Gustavo Barbosa. Mas, antes disso, havia até indicado os membros para a CPI: Kaio (um dos acusados), Israel (do mesmo partido de Tõezinho), Márcia (secretária da Mesa), Giordane e o denunciante, Guilherme Rocha, que, por determinação legal, deveria compor a comissão. Com o afastamento de Tõezinho, Gustavo manteve quatro dos indicados – inclusive, um dos acusados, o Kaio Guimarães – trocando apenas o nome de Israel pelo de Leonardo Lopes. Como afirmado nos bastidores, estava dada a receita da pizza.

Kaio escolhido presidente da comissão

Reunidos os membros da CPI e com maioria absoluta de “pizzaiolos”, exatamente o amigo e padrinho do André Messias – principal acusado –, vereador Kaio Guimarães, foi escolhido presidente da comissão. Esperou-se comportamento ético do citado vereador, que, inclusive, é pastor evangélico, mas esse comportamento não veio e ele assumiu a presidência com a ânsia de levar logo a “pizza ao forno”. Começou por propor que as reuniões da CPI não fossem gravadas em vídeo... E, em 17 dias corridos, chegou à reunião decisiva pelo arquivamento da denúncia, com encontro marcado para as 7h da manhã de uma segunda-feira (12 de janeiro) em que a edilidade, inclusive, estava de recesso. “Vai gostar de trabalhar assim lá no púlpito que se viu...”, expressaram alguns fieis observadores.

Ante tamanha pressa e a decisão de não aceitar a apresentação de provas, devido ao “atraso de horas” em um prazo sugerido e não definido, foi acertado que a CPI seria arquivada. Mas aí nove vereadores assinaram pedido de contestação do relatório final apresentado e foi pedida uma reunião extraordinária, que, a princípio, foi protelada. Quando se sabia que um edil dentre os nove que assinaram o questionamento não estaria na cidade, devido a compromisso inadiável, marcou-se a reunião para a terça-feira, 27. Não sem antes ocorrerem, conforme denúncias de bastidores, promessas de apoio à eleição da próxima Mesa, conseguindo, assim, demover o voto de mais um dos nove.

O vereador que não estava presente, Humberto Rodrigues, o Beto do Bandinho, porém, protocolou pedido, no dia 26, com requerimento formal pedindo participação e voto de forma remota na sessão extraordinária. O presidente não respondeu ao pedido, sabe-se lá por quê, mas realizou a reunião. Na votação, com o voto do Kaio, que é um dos acusados, deu empate, sete a sete, porque o Dalminho, que havia assinado o requerimento contestando o relatório, mudou de ideia e resolveu ser favorável a ele. Nos corredores, comentam que tudo se deve a um apoio futuro pela disputa da presidência da Casa. Será?

E, com o empate de sete a sete, restou a outro acusado nas denúncias da CPI, o presidente da Mesa, Antônio de Miranda, o Tõezinho, dar o voto de minerva, optando pelo arquivamento das denúncias. Assim, o enredo foi concluído: os denunciados apuraram e decidiram pelo arquivamento. E ponto final.

Mas parece que não é ponto final...

Foi impetrado mandado de segurança contra a decisão, ainda na tarde da sexta-feira, 30, pedindo a anulação das decisões e a retomada da CPI. Claro, sem as presenças do vereador Kaio Guimarães, que é o “padrinho” – a indicação do nome para o cargo foi dele – do André Messias, e é um dos acusados nas denúncias; do presidente Antônio de Miranda, outro que é denunciado no caso; e dos edis Márcia Cristina e Gustavo Barbosa, respectivamente, secretária e vice-presidente da Mesa da Câmara, por intervenções deles no andamento das apurações. 

Um observador da situação comentou à reportagem que “os pizzaiolos desta pizza foram muito rápidos e o prato foi servido cru. Assim, não passa na garganta e a pizza precisa voltar para o forno”. Assim, caminha a credibilidade política em Itaúna.