Usam de pautas “morais” para ganhar engajamento... e votos
Sou do tempo em que educação se adquiria em casa, ensino na escola e religião nas igrejas. Agora, pelo que parece, está tudo misturado, causando uma confusão danada nas pessoas. Professores, que se preparam para ensinar as lições de Português, Matemática, Geografia, História, são cobrados pela falta de educação dos filhos dos outros, enquanto pais e mães omissos os questionam (os professores) pelos atos e ações indevidos das crianças. A educação dos filhos não acontece, porque os pais estão mais preocupados em acessar as redes sociais e manifestar suas “opiniões”, e, enquanto isso, formam-se gerações despreparadas nas duas frentes: falta educação e aprendizado escolar. Por outro lado, pastores, padres e outras lideranças religiosas estão mais preocupados em promover debates político-ideológicos, e aí políticos, que deveriam tratar de ações políticas, passam a querer determinar regras de comportamento social, de encaminhamento de ações comportamentais e até religiosas. É comum assistir, atualmente, a lideranças religiosas se manifestando em relação ao voto, indicando em quem os fiéis devem votar, enquanto políticos com mandatos defendem propostas de comportamento moral e religioso para as famílias. E a internet é a ferramenta mais usada, tanto pelos políticos quanto pelos religiosos, para fazer as defesas de suas ideias. Porém os políticos vão além e também usam da prerrogativa que têm de propor e aprovar leis que determinem como deve ser o comportamento da sociedade em relação a costumes morais e até religiosos.
Assim, deixam de lado suas funções, que deveriam ser a de fiscalizar a aplicação do dinheiro público (nos casos de parlamentares), de propor projetos de adequação e melhora de políticas públicas, para se imiscuir em assuntos que deveriam ser reservados à formação ético-moral das famílias, e até mesmo tentam definir quais devem ser os comportamentos religiosos das pessoas. Quando se elege um deputado, ou um vereador, por exemplo, pensa-se que foi escolhido um representante da sociedade como um todo, mas aí defrontamos com representantes de “bancadas”, que, apesar de receberem salários bancados pelo geral da sociedade, atuam apenas em defesa daquilo que acham ser o melhor para seus grupos, baseando-se em preceitos reduzidos de representatividade.
Um exemplo disso foi uma proposta que foi aprovada na Câmara de Belo Horizonte, nesta semana – em primeira votação –, proibindo a presença de crianças em eventos culturais, carnavalescos e artísticos. A “preocupação” dos quatro edis que propuseram a proibição é de “proteger menores de idade de exposição a conteúdos considerados “impróprios”, incluindo “gesto, músicas, danças ou encenações de caráter sexual” (eles não devem ter lido o ECA e a legislação brasileira pertinente). Engraçado que esse tipo de político é useiro e vezeiro em destinar verbas para contratações de artistas que cantam músicas como “Cachaceiro” ou “Não paro de Beber”, do Eduardo Costa e do Gustavo Lima, respectivamente, sem nenhuma preocupação. Basta dar uma conferida nas letras das canções citadas para ver que o que importa para esses políticos, na verdade, não é a preocupação com as crianças, mas a oportunidade de criar polêmica e usarem isso para conquistar votos. E, como os quatro são de um mesmo partido e grupo ideológico, que tem por prática as pautas “morais”, a proposta deve alcançar outras câmaras municipais e, quem sabe, até assembleias e a Câmara Federal. Afinal, geram engajamento, que é o que eles realmente buscam, e votos, é claro.
Parlamentar deveria se preocupar em fiscalizar a aplicação do dinheiro público e propor medidas que ampliem o alcance de políticas públicas que levem à melhora da qualidade de vida da população. Mas é mais fácil ficar por aí, debatendo “pautas morais”, bancando os defensores da moral e bons costumes (apesar de que está cheio deste pessoal envolvido em casos de assédios e abusos sexuais, por exemplo). E, do outro lado, líderes religiosos se aproveitam de que têm um público cativo e vão desvirtuando o sentido da religiosidade, aproveitando para se eleger ou eleger seus apadrinhados, garantindo-lhes direitos que não deveriam usufruir, mas que conseguem, porque falam com as massas.
* Jornalista profissional, especialista em comunicação pública e membro da Academia Itaunense de Letras – AILE, sendo titular da cadeira 26.



