A entrevista
Não sei por que, mas dia desses, de repente, me vi na porta do cemitério central de Itaúna. Já era noite e o portão principal do cemitério, que dá para a rua Bonfim, curiosamente estava aberto, totalmente escancarado. Olhei ressabiado para o silêncio no seu interior, bem como para a rua que lhe dá acesso, e não vi uma viva alma. Encorajado, fui entrando, entrando e, com certa curiosidade, passei a observar as placas com nomes e datas fixadas nas lápides das pessoas ali sepultadas. Instantaneamente, me veio a lembrança de vários amigos e conhecidos que ali passaram a residir. Não sei por que cargas d´água, entre as várias lembranças que me vieram à mente, uma delas era de um folião que se vestia de mulher para brincar no carnaval de rua durante o dia no final da década de 60, e que fazia o maior sucesso, o Miss Itaúna. Era um sapateiro que morava na Rua Gonçalves da Guia, próximo à atual Praça João Nogueira, mais conhecida por Praça do Capeta, conhecido como Almir Cabeludo, que, nos dias dos festejos do momo, vestia um maiô, um vestido de chita ou uma tanga com um bustiê, colocava uma saliente coroa de latão dourada na cabeça e uma faixa atravessada no peito, onde se lia: “Miss Itaúna”. Eh, Miss Itaúna! Você marcou muito a minha juventude e eu nunca tive a oportunidade de conversar com você, pensei alto. Em meio àquele ambiente escuro e silencioso, estava me preparando para me retirar quando um “psiu, psiu, psiu, psiu...” se destacou na escuridão. Encostado em um anjo de mármore que ornamentava um dos jazigos, vislumbrei aquela figura por demais conhecida, trajando a sua mais famosa fantasia: um maiô estampado, coroa e tudo mais que tinha direito. Atravessada no peito, podia se ver uma bela faixa bordada com lantejoulas douradas, onde se lia: “Miss Itaúna”.
“E aí, Sérgio Tarefa, está querendo bater um papo comigo?”, interrogou sorridente! Ainda um pouco assustado e custando a acreditar naquela visão, vi ali uma oportunidade única de esclarecer algumas dúvidas que eu tinha sobre aquele personagem que tantas alegrias proporcionou aos foliões do carnaval de Itaúna. Ainda um pouco trêmulo pelo susto, iniciei a conversa questionando os motivos pelos quais ele havia escolhido aquele tipo de fantasia, saindo vestido de mulher em plena luz do dia, frente aos fortes preconceitos daquela época.
- É muita coragem, Almir Cabeludo! - questionei.
- Tarefa, apesar de parecer uma pessoa séria, eu sempre fui muito bem-humorado e brincalhão e adorava o carnaval. No final da década de 60, resolvi sair desfilando, mas a minha esposa, não sei por qual motivo, queimou a minha fantasia dias antes do início dos festejos do momo e eu tive de recorrer a uma vizinha que morava próximo à minha pequena sapataria na Praça do Capeta: a Iara, filha do Ivolino sapateiro, irmã do Iraci que trabalhou na Caixa Econômica, foi ela que me emprestou um vestido e eu saí em plena luz do dia, com o sol rachando, vestido de mulher, e fiz o maior sucesso. A partir daí, passei a desfilar todos os anos, nos dias de carnaval, trajando fantasias variadas com um maiô, um vestido de chita ou uma tanga com um bustiê, mas sempre com a faixa de “Miss Itaúna” no peito.
- Por quais lugares você desfilava na cidade?
Eu saía da minha casa próxima à praça do capeta, descia para a Lagoinha, Praça da Matriz, Silva Jardim e retornava pra Praça do Capeta, sempre acompanhado por um grande cortejo de crianças, adolescentes e até alguns marmanjos, na maior algazarra, que durava de quatro a cinco horas. Vez ou outra, eu entrava em um dos diversos bares da Praça da Matriz, como o Bar Azul, do Neném Drumond, Bar Rodoviária ou Buraco do Tatú, para beber uma água, pois eu nunca fui de tomar bebida alcóolica.
- Qual a origem do apelido de Almir Cabeludo?
Meses antes do carnaval, eu sempre deixava o meu cabelo crescer, para dar um certo tchan no personagem da minha fantasia, e o pessoal passou a me chamar assim, né? Sabe quem me arrumava para o desfile? Era a Sussuca, filha da Dona Sinuca, que era cabelereira e morava na Rua Agripino Lima, próximo à minha casa
- Aí onde você está atualmente, como são as coisas, tem carnaval?
Ah se tem! Temos até um bloco em que a maioria dos foliões é formada por itaunenses e que está sempre ganhando os primeiros lugares. Na bateria temos o Cidico Bufão, Banana, Jair Negão, Braguinha, Jair da Zirica, Dora, Helí Caroço, Mário Coqueiro, João da Cuíca, Taquinho da Viola, Pimenta. Comandando as alas ou como destaques, o Xandoca, Vandão, Camêlo, Ricardo Pinta, Xico Preto, Adelino Quadros, Pedro Dornas, Argemiro, Dario Barbeiro, Maria Araújo, Hélida Beghini, Mampu, Prosa, Hélcio Poita, Tadeu Nolasco, Sebastião Santana, Clésia Araújo, Maurino da Barragem, João Coisa Boa, Léo dos Garcias, Paquinha, Ramé, Márcio Timbuca, Celinho, Ricardo Pão Veio, Clauto Dentista, Bicudo, Domingos Rêda, Luizinho Diniz, Expedito Lima, Bob, Marcelo Mineirinho. De mestre-sala, o Sérgio Lacel, Walmir Falcão, o Adelininho e outros mais... Recentemente, recebemos quatro grandes reforços, o Mestre Carlos Geovani, o Roberson Bolão, o Vandão dos Cuecões e o Marcinho Dentista. Puxando o samba, a inigualável Dunga, que você conheceu bem, né?! Devemos ganhar novamente este ano. Ah, vamos copiar a ideia do Marcinho Hakuna e fazer um esquenta antes do carnaval com todos os blocos daqui. Nós assistimos a festa na Praça da Matriz sobre uma grande nuvem, bem em cima da Casa das Roupas do Murango, e achamos que a ideia da Secretaria de Cultura foi ótima.
Empolgado, estava me preparando para fazer mais uma pergunta, quando o barulho de triririririririririrmm, triririririririmmm do despertador me acordou. Nossa!!! Eu estava era sonhando... Fechei rapidamente os olhos e me enrosquei novamente no velho edredom, tentando voltar novamente ao meu entrevistado, mas ele já havia partido, só ficando aquele gostinho de quero mais.
Quanta saudade...
Sérgio Tarefa.



