Eu não a conhecia
Eu não a conhecia.
Não sei quem é sua família, quais eram seus pensamentos sobre a vida, o que gostava de fazer, que filmes assistia.
Eu não a conhecia. Não sei qual era o trajeto naquela tarde, muito menos seus sonhos e anseios para o fim daquele mesmo dia.
Assim como não conhecia Catarina, Josiane, Paula, Janete, Ana — e tantas outras mulheres de nomes comuns, vidas comuns, histórias interrompidas. Mulheres que, pela obra do acaso, nasceram mulheres e, por isso, acabaram mortas.
Por qual motivo? Pelo simples fato de serem mulheres.
E por quem? Por um homem.
Não é impressão. Não é sensação. Os dados confirmam o que nós já sentimos no corpo.
Em 2025, o Brasil registrou recorde de feminicídios: quatro mulheres assassinadas por dia. Quatro mulheres a cada dia. 1.470 vidas interrompidas.
No mesmo ano, o país registrou mais de 83 mil casos de estupro e estupro de vulnerável, segundo dados do Ministério da Justiça. São, em média, 227 vítimas por dia ao longo de todo o ano, o que equivale a um caso de estupro a cada seis minutos no Brasil.
Há um gênero que mata.
E há um gênero que morre.
O autor do feminicídio é, na maioria das vezes, um homem. Se são 1.470 vítimas, quantos homens são? O monstro não é uma figura excepcional. O monstro é um homem comum. Justamente por isso, é tão perigoso.
Eu não a conhecia. Mas sei que, logo pela manhã, ela abriu o jornal e viu mais uma manchete de feminicídio. Talvez tenha pensado: quem será a próxima? Mal sabia que seria ela.
Ainda assim, saiu de casa. Com medo. Com atenção redobrada. Porque ser mulher é estar atenta em todos os ambientes, o tempo todo. Ela não sabia que seria a próxima, mas sabia que seriam muitas outras também.
E que, como sempre, seria mais um caso a entrar para a estatística. Mais uma história trágica. Nunca o último.
Eu não a conhecia, mas sinto como se fosse eu. Como se fosse minha irmã, minha mãe, minha tia, minha amiga. Eu sinto e me engasgo. É revoltante. É apavorante.
Quantas mais de nós seremos?
O que ainda precisamos fazer?
Quantas de nós se foram enquanto você lia este texto?
Há justiça para casos assim?
Quantas mais vamos enterrar?
A cada dia, a cada hora, um novo caso é registrado. A sociedade se assusta, ou finge surpresa. Quer os detalhes sórdidos, consome a dor espetacularizada, transforma vidas em manchetes descartáveis.
Mas não é um filme. Não é apenas um post no Instagram. É a realidade. É você, sou eu, é ela. Porque, quando uma mulher morre, todas nós morremos um pouco. Não são casos isolados.
Você já reparou como as mulheres “aparecem mortas”, mas raramente se diz quem as matou? Não é a roupa. Não é o lugar. Não é o horário. Não é um “surto”, nem “ciúmes”, nem “raiva momentânea”.
É estrutura.
Quantos homens continuam autorizados a matar?
O feminicídio não é um acaso nem um fenômeno da natureza. É uma ação com autor e responsabilidade. Precisamos parar de tratar a violência masculina como um agente invisível e começar a responsabilizar quem, de fato, decide interromper a vida de uma mulher.
Mais uma vez, ser mulher significa estar em alerta. Sair para trabalhar sem a certeza de que se voltará com vida. São histórias, rotinas, sonhos interrompidos. Que ela e tantas outras não sejam esquecidas.
Homens, parem de nos matar.
Este não é um artigo interessante. Não é um texto para ser aplaudido. É um desabafo, uma revolta, um pedido.
Ontem foi sexta-feira, 13. Mas não é preciso nenhum filme de terror para entrar no clima. Ser mulher no Brasil já é, por si só, o próprio pesadelo.
Por Brígida Gonçalves
Jornalista pela Universidade Estadual de Minas Gerais (UEMG)



