A cada janeiro, uma alma nova

A cada janeiro, uma alma nova

Todo dia primeiro de janeiro é uma parábola de nascimento. Não me refiro ao nascimento do ano, pois este é apenas uma ficção do calendário, mas ao nascimento de uma alma nova em cada pessoa que se permite espantar novamente diante do mundo.

Em um de seus mais belos ensaios, Chesterton não escreveu sobre o Ano Novo como quem escreve sobre fogos de artifício ou metas de academia. Ele escreveu como quem intuiu que, sob a bruma das promessas falhadas e das ceias apressadas, ainda pode haver um milagre: o milagre de recomeçar. Não com outra vida, mas com outros olhos. Pois a vida já está aí, espalhada nas mesmas ruas, nas mesmas pessoas, nas mesmas manhãs. O que se renova, se houver renovação, é o espanto.

O ano não muda porque o número muda. Muda se a alma muda. Muda se houver, como queria Chesterton, uma disposição infantil de olhar para o mundo como se fosse a primeira vez. E não é curioso que, na noite de Réveillon, homens crescidos se abracem com olhos marejados, como se algo de fato tivesse sido deixado para trás? Como se o que estivesse começando fosse mais do que um turno de relógio? Talvez porque, mesmo sem saber, sintam que há algo sagrado nesse instante.

O tempo não passa por nós. Somos nós que passamos pelo tempo. Somos nós que atravessamos os dias, como peregrinos atravessam desertos, com sede de sentido. E é por isso que o Ano Novo importa. Não por superstição ou formalidade, mas porque marca o ponto exato onde tantos se perguntam: o que estou fazendo com os dias que me foram dados?

Nas culturas antigas, o início do ano era celebrado como o retorno de uma ordem ao caos. Havia um reinício simbólico do mundo. Mircea Eliade, em seus estudos sobre o sagrado, mostrou como muitas tradições entendiam o tempo circularmente. Como um retorno ao início, ao tempo mítico, onde tudo ainda pode ser recriado. Diferente de uma mera linha contínua. De certo modo, o Réveillon ainda conserva um traço disso. Jogamos flores ao mar, usamos branco, nos despedimos dos mortos, dançamos diante do invisível. Não há nada de racional nisso. E ainda assim, parece ser exatamente o que precisamos.

Naquela meia-noite, quando os relógios se encontram no zero, o mundo suspende um pouco seu cinismo. Os que duvidam de tudo ainda assim fazem um brinde. Os que já se feriram demais ainda assim dizem “feliz ano novo”. É bonito que o homem moderno, tão descrente de milagres, insista em fabricar um, ao menos uma vez por ano: a esperança.

Chesterton via nas resoluções de Ano Novo algo mais nobre do que o clichê sugere. Para ele, prometer mudar era, em si, um ato de fé. Era uma declaração, muitas vezes silenciosa, de que ainda acreditamos em nossa capacidade de ser melhores. Mesmo sabendo que fracassamos todos os anos, seguimos prometendo. E isso nos humaniza mais do que o sucesso. Pois o homem que promete já começou a se mover. E se mover, nesse mundo apático, já é uma forma de nascer.

O Ano Novo é, por isso, um rito de passagem. E, como todo rito verdadeiro, carrega uma ferida e uma promessa. A ferida do que não foi, a promessa do que pode ser. Talvez por isso muitos se sintam melancólicos na virada. Há um luto embutido na festa. Um ano a menos, um ciclo encerrado, uma parte de nós que ficou pelo caminho. Mas também há ali, à meia-noite, uma fresta. Um intervalo breve entre o que fomos e o que poderemos ser. Uma alma, quem sabe, ainda em formação.

O espanto do primeiro de janeiro é que ele não exige nada, apenas que se esteja vivo. Que se esteja disposto a ver de novo. Que se respire fundo. Que se perdoe. Que se tente. Mesmo que pouco, mesmo que devagar. Mesmo que ninguém veja.

Não me comovo com listas de metas. Comovo-me com quem escreve, em silêncio, na alma: “desta vez, tentarei ser novo”. Não se trata de um produto novo, mas de algo criança. Como quem reaprende a caminhar, a conversar, a agradecer.

O mundo continuará o mesmo. Aquele que se torna novo diante do mundo já terá feito o suficiente. Ele verá beleza onde antes havia rotina. Ele verá milagre onde antes havia costume. E isso é tudo o que se pode pedir de um bom começo.

Feliz Ano Novo. Ou melhor: feliz alma nova.