As candidaturas e a falta de projetos
Há alguns anos, há mais de uma década, década e meia, eu era bastante ativo na vida político-partidária e acabara de realizar curso de marketing político em São Paulo, ministrado pelo Instituto Manhanelli. Também completara trabalho intensivo na área da comunicação política, no Sul de Minas, quando participei de atos de organização de campanhas de um deputado federal e de um deputado estadual, além de inúmeras campanhas municipais. Então um amigo meu me pediu para ajudar na campanha de um companheiro dele que seria candidato a deputado, com expectativas de conquistar votos em Itaúna e região. Feito isso, fui até o tal candidato e conversei com ele sobre o que eu poderia fazer, qual o trabalho poderia exercer naquela campanha, mas precisava que ele me falasse de um projeto, uma proposta que seja, que pudesse ser trabalhada em Itaúna e na região. Expliquei que o questionamento era para que montasse um discurso, um argumento a ser levado até os eleitores a que teria acesso. E aí ele começou a me contar sobre a vida dele, o que ele gostava de fazer etc. e tal. Insisti em uma proposta, um projeto, uma “bandeira” a ser defendida. Ele mudou um pouco a conversa e disse que era amigo de fulano, tinha muito acesso a beltrano, era próximo dos artistas tais e tais, do jogador de futebol tal e que contava com acesso junto ao movimento religioso e musical, jovem, da região.
Disse pra ele, mais uma vez que, sim, todo este relacionamento era muito importante, mas que, para eu sair às ruas, pedir votos para ele, falar com o eleitor que ele era uma boa opção de voto, eu precisava saber o que ele poderia fazer para melhorar a vida dos cidadãos-eleitores. Cheguei a exemplificar: “Olha, você tem algum projeto, alguma proposta que possa ser apresentada, por exemplo, aos jovens?”, um público que ele citara várias vezes que era “muito próximo”. Até sugeri: “Alguma coisa, por exemplo, em relação ao primeiro emprego, ao acesso ao ensino universitário, um fomento à preparação para o ingresso no curso superior?”. Mas eis que ele me repetiu as suas amizades, os seus relacionamentos com pessoas importantes e mais do mesmo, citando que queria “valorizar a educação e a saúde”. Juro que foi isso mesmo que ele disse: “valorizar a educação e a saúde”! O cara seria candidato (e foi, inclusive, se elegeu em uma oportunidade) a deputado, mas não conseguiu me apresentar sequer uma proposta fática, um projeto exequível. Ficamos ali, mais de uma hora de conversa, ele falando se suas amizades e eu tentando conseguir dele sequer um projeto, o mais simples que fosse. Poderia ser até uma coisa específica, que não é função de deputado, mas que muitos (ou a maioria) fazem, que é conseguir verba para determinado setor. Na época candidato, o cidadão não conseguiu sequer me dizer assim: “Olha, eu vou trabalhar para conseguir verbas para ajudar o hospital de Itaúna!”. Não, não tinha proposta, como sei que ainda não tem, apesar de se manter ativo na política. Saí da sala, não sem antes deixar para ele um pedido: “Olha, levanta aí com seu pessoal uma proposta que seja, um pequeno projeto, para Itaúna e região, para que eu possa ir até o eleitor pedir votos para você”. Espero até hoje esta resposta. E ela nunca virá, por ele não ter projeto ou por não ter coragem de me confirmar que o que ele queria e continua querendo é tão somente se dar bem na vida.
Por que estou contando isso aqui? Ora, porque este ano, como todos vocês sabem, é ano eleitoral. Em outubro, se não me engano, no dia 4, vamos eleger 77 deputados estaduais e 53 deputados federais por Minas Gerais, além de dois senadores, um governador de Estado e um presidente da República. E, apesar de a maioria das pessoas não dar importância para isso, as propostas, os projetos, ou mesmo “a bandeira” que o candidato defende – como é chamado, nos bastidores de campanha, aquele arrazoado de iniciativas que definem, por exemplo, como será a atuação do parlamentar em relação a temas importantes como a violência –, que o candidato apresenta, são o principal fator a analisarmos antes de votar nos candidatos. Ele pode ser amigo do seu pai, da sua mãe, mas, se não tiver propostas exequíveis (capazes de serem executadas, porque tem gente que propõe dar lote na Lua...), projetos sérios, que visem beneficiar a população no geral e não um grupo de amigos, não vote nele. Eu não voto em candidato que não tem projeto, que não consegue apresentar proposta que seja capaz de ser levada adiante. Não voto, não trabalho para ele e nem com ele, e tenho alguns exemplos a serem informados (no privado, é claro, rsrsrsrsrs), porque não gosto de ser enganado. Faça assim também: pesquise a vida do candidato que te apresentam, o que ele já fez para a cidade. E preste muita atenção, também, nas pessoas que estão pedindo por ele, se são profissionais remunerados, se são “ovelhas” colocadas nas ruas para repetir palavras ensaiadas... Olhe, na sua cidade, os serviços públicos que lhe são oferecidos, na saúde, na educação... de qual fonte saem os recursos. Não seja dono de um voto sem sentido, pois o resultado dos próximos quatro anos vai depender muito disso.
* Jornalista profissional, especialista em comunicação pública e membro da Academia Itaunense de Letras – AILE, sendo titular da cadeira 26.





