A Semana Política de Itaúna em Quatro Atos
À primeira vista, a semana política pareceu uma coleção de episódios avulsos. Um áudio de Flávio Bolsonaro em Brasília. Um Código Tributário anunciado com pompa por Gustavo Mitre. Uma fala dura da vereadora Carol. Cobranças sobre água, SAAE, saúde, transporte e segurança na Câmara. A leitura é correta na superfície, mas enganosa no fundo. O período pré-eleitoral aproxima os atos que expuseram a distância entre a narrativa que o ator tentou controlar e o custo político que a própria narrativa passou a produzir.
O pré-candidato a presidente, Flávio Bolsonaro negou em frente às câmeras que dinheiro polêmico tivesse financiado a cinebiografia de seu pai. Foi desmentido horas depois pela divulgação de um áudio. Enquanto o maior problema parece ser o financiamento do filme em si, pouco tem se observado sobre o custo da contradição da fala de Flávio. Eleitores perdoam explicações difíceis com mais facilidade do que absolvem contradições flagradas. Este tipo de problema destacou riscos políticos da semana em Itaúna.
O prefeito Gustavo Mitre fez um movimento ambicioso. Reuniu empresários, entidades classistas, vereadores e auxiliares para apresentar o Desenvolve Itaúna e o novo Código Tributário. A cena comunicava empreendedorismo, desburocratização, ambiente de negócios, atração de empresas e modernização econômica. A leitura superficial favorece o prefeito: um governo reunindo o setor produtivo em torno de uma agenda de desenvolvimento. A leitura de fundo exige mais cautela: o texto assinado não carrega apenas estímulo econômico. Carrega forte densidade fiscalizatória.
O Código trata de multas, obrigações acessórias, taxa de fiscalização, poder de polícia, controle cadastral, deveres de informação, sanções por omissão, ISS, ITBI, notas fiscais, declarações, cartórios, registros, imobiliárias, prestadores de serviço e contribuintes. Há pontos defensáveis, como licenças por prazo indeterminado e adequação à Redesim. O problema político está na proporção entre a promessa pública e o centro normativo. O que foi apresentado como cordeiro do empreendedorismo traz músculos de lobo fiscal.
O empresariado costuma ouvir a solenidade e depois ler o interesse. Itaúna precisa modernizar seu Código Tributário. Regras claras, ambiente previsível e administração fiscal eficiente favorecem quem empreende. O alerta está em transformar reforço de fiscalização municipal em peça de marketing pró-negócios sem explicitar, com a mesma ênfase, quem será mais fiscalizado, quais multas ganharão força, quais obrigações serão criadas, quais taxas permanecerão mesmo com dispensa de licenciamento e quais setores suportarão maior carga de controle.
Mitre tentou construir maioria social antes da maioria legislativa. A fotografia com empresários e vereadores buscou revestir o projeto de legitimidade econômica antes do debate na Câmara. A estratégia é inteligente. O risco também. A mesma fotografia que hoje protege a narrativa poderá virar pergunta incômoda: o setor produtivo foi chamado para discutir o texto ou para servir de fiador simbólico da sua aprovação?
O terceiro ato apareceu no plenário. A fala da vereadora Carol tem peso justamente por seu perfil discreto. Ao tratar da causa animal, ela rompeu a zona confortável da comunicação oficial. Sua crítica atingiu menos a ausência de uma política pública e mais a apropriação da pauta pela vitrine da Prefeitura. Causa construída por protetores, ONGs e voluntários não aceita presença oficial apenas na fotografia final. Foi mais do que a denúncia de uma captura de pauta. Foi a ilustração de mais uma distância entre a prefeitura e a relação com aquilo que foi construído pelos vereadores.
A Secretaria de Segurança entrou em lógica semelhante. O governo tentou ocupar espaço de comando com a Guarda Municipal e com a agenda de segurança. A iniciativa tem valor. A condução gerou ruído. Pedido de urgência, pouco alinhamento prévio e sensação de matéria empurrada em ambiente de homenagens deram ao plenário espaço para resistência. A leitura superficial indica governo ativo. A leitura de fundo mostra Executivo abrindo flanco na área em que pretendia demonstrar comando. Ao acelerar a pauta sem costura política suficiente, o prefeito acelerou também a cobrança.
O quarto ato veio do básico. Wenderson da Usina traduziu: saúde, limpeza, rua, remédio e água. Alexandre Campos levou mobilidade e aplicativos ao plenário. O eleitor não pergunta quem é base, oposição ou independente. Vereadores já deixaram claro que entendem isso. A articulação do prefeito com eles ainda não percebeu.
Flávio mostrou a crise da palavra. O Código Tributário mostrou a crise da moldura. Carol mostrou a reação da pauta capturada. Segurança, água e SAAE mostraram o choque entre programa anunciado e vida concreta. A leitura de superfície vê eventos separados. A leitura de fundo vê a mesma engrenagem: narrativas que buscavam reduzir custo passaram a criar novos custos para o grupo que Mitre herdou de Osmando, abraçou o presidente da Câmara Toinzinho, que por sua vez estendeu a vereador Kaio.
O período eleitoral de 2026 aumenta o custo político de grupos, em razão dos atos de seus políticos. Apoios de redes empresariais, presença em entidades, moções, emendas, imprensa, igrejas, lideranças comunitárias e articulações de bairro já avaliam suas posições. Erros como o de Flávio Bolsonaro, podem custar mais caro num ano eleitoral. A disputa deste ano vai além de alianças de momento. Ela define acesso a recursos, ocupação de narrativa e cobrança por alianças. A eleição da Mesa Diretora em novembro navegará pela expansão ou diminuição da força desses grupos durante o ciclo eleitoral. A Mesa controlará pauta, rito e visibilidade. A segunda metade do mandato será a antessala de 2028.
A relação entre Osmando, Mitre, Toinzinho e Kaio ganha relevância, já que hoje ela detém a cadeira de prefeito e de presidente da Câmara. Toinzinho construiu longa liderança na Câmara testando limites da própria base e negociando no momento de risco, sempre que o caldo entornava. Este estilo exige controle do tempo da tensão. A aliança com Kaio alterou a equação. Kaio opera com enfrentamento frontal, produz fatos, ressentimentos e riscos que não ficam apenas em sua conta. Como aliado central do presidente, transfere parte desse custo para Toinzinho.
A crise da Comunicação, a CPI, os conflitos de rito e a disputa em torno da Mesa não atingem apenas o presidente da Câmara. Podem transbordar para o grupo político que o sustenta historicamente e para o campo de Mitre, ligado à tradição organizada por Osmando. Liderança não é posse do comando. É conversão de dependência em direção. Um aliado capaz de produzir mais custo do que coordenação faz a liderança revelar dependência onde antes exibia controle.
Ocupar a agenda já não basta. A semana mostrou o risco de ser capturado por ela.
Por Rafael Corradi Nogueira



