É preciso contextualizar, além de só narrar os fatos

É preciso contextualizar, além de só narrar os fatos

O exercício do jornalismo não pode se resumir em narrar os fatos. Precisa ir além. É necessário que, ao informar, tenhamos a preocupação de esclarecer o contexto do ocorrido e, ainda, tentar eliminar o foco da parcialidade, o que, tenho a certeza, não é sempre possível, não é fácil, mas é necessário pelo menos tentar, sempre. A opinião, esta deve ser assinada por quem a emite, para que assim o leitor saiba que se trata de uma visão pessoal de quem assina o texto, sobre o que está sendo narrado. E é necessário ainda que, no exercício do jornalismo, possamos identificar e esclarecer as armadilhas colocadas na informação, para que o leitor não seja conduzido à formação de uma opinião que interesse apenas a grupos determinados. 

Por que abordar este tema? Ora, porque tenho encontrado uma tendência “à direita” na informação da imprensa nacional, na maioria das notícias que são repassadas ao grande público. Não quero aqui dizer que as ideologias “de direita” estão “erradas” e que os pensamentos “de esquerda” deveriam ser “os mais adequados”. Nada disso. Até porque entendo que somos um país, portanto um povo, que não consegue ainda discernir muito bem o que seja “direita” ou “esquerda”, até mesmo devido a esta prática dos meios de comunicação de alcance nacional de direcionar as notícias de forma a atender às necessidades de momento de quem realmente manda no país. Não acredito, já disse e tenho repetido isto, que nossa classe política tenha compromisso com ideologias, mas, sim, com os interesses de quem está no poder e, principalmente, de quem os ajuda a alcançar este “poder”, que, ao final, é exercido quase sempre no interesse de quem realmente manda.

Seria preciso um tratado, um artigo mais aprofundado, para abordar a questão, não apenas uma coluna assinada, resumida em espaço e palavras, como a que aqui dispomos. Mas vamos lá. A grande mídia quase sempre publica as notícias com direcionamento para atender a interesses não declarados, de formação da opinião pública. Isso está claro, por exemplo, quando se fala que “quase metade dos homicídios de mulheres envolve arma de fogo”, como divulgado pelo G1, sem contextualizar, por exemplo, as ações desenvolvidas ao longo dos últimos anos no sentido de liberar o porte de arma, que é uma bandeira política de grupos da chamada “extrema direita”. A notícia dada como o foi destaca apenas a falta de segurança e de políticas públicas capazes de conter a escalada da criminalidade. 

Se a questão fosse contextualizada, a opinião pública entenderia que nos anos em que mais se defendeu o porte de arma como proposta de governo – no recorte informado na matéria – foi exatamente quando os índices estiveram mais altos: 2020, 2021 e 2022. Foi exatamente nesse período, em que o governo central, dito “de direita”, pregava a necessidade de liberar o porte de arma como forma de “autodefesa das famílias”, que mais se matou mulheres utilizando armas de fogo. E a contextualização poderia ir um pouco além, acrescendo que 65% dos crimes de homicídio praticados no Brasil, nos últimos anos, o foram pelo chamado “cidadão de bem”. Ou seja, aquela pessoa que não tem ligação com a criminalidade, mas que teve acesso mais facilitado a uma arma de fogo. O correto seria contextualizar essa situação, para que o cidadão pudesse entender, por exemplo, que a liberação do porte de arma da maneira como se propôs aumentou o índice de homicídios e, como se vê, não ampliou a condição de segurança na sociedade.

Também seria preciso contextualizar, por exemplo, que, atualmente, a questão da corrupção no Brasil envolvendo a classe política tem muito mais políticos que se dizem do espectro “de centro” e “de direita” do que de políticos alinhados ao espectro “da esquerda”. Assim, se entenderia que não se trata de questão ideológica, como se alega pelos quatro cantos nos debates políticos, a causa principal da escalada da corrupção. O corrupto se aproveita da condição de poder alcançada para se locupletar do bem público. Não porque ele é “de direita” ou “de esquerda”, até porque já existiu momento em que a maioria dos corruptos estava filiada a partidos ditos “esquerdistas”, como já comentamos aqui mesmo neste espaço. 

São números, não opinião, que mostram isso. Basta ver quantos políticos flagrados no ilícito, atualmente, são filiados a partidos “da direita” e quantos são filiados a partidos “de esquerda”. No caso do banco Master, por exemplo, a quase totalidade dos políticos envolvidos em casos já confirmados é do espectro da “direita” e do “centro”. Isso de fatos comprovados, como doação de dinheiro, “empréstimo de avião” e custeio de despesas e outros benefícios a políticos feitos pelo banqueiro e/ou pessoas ligadas a ele. Mas a grande imprensa reforça a divulgação em cima de “suspeitas”, de ilações, de “vazamentos”. Quase não se fala sobre as doações de fortunas em dinheiro para as campanhas, já documentadas. Sobre o uso de aviões do banqueiro em campanhas eleitorais, já confirmado. Mas não, o foco são os “vazamentos” – alguns deles até já desmentidos pela Polícia Federal. 

A grande imprensa dá mais destaque às “opiniões de articulistas”, até mesmo a boatos, do que à contextualização dos fatos. E, enquanto isso, a opinião pública vai sendo formatada conforme os interesses de quem manda. E políticos corruptos vão ocupando espaços na mídia e, com isso, angariando simpatias de um público que se norteia pelas redes sociais e pelas manchetes direcionadas, por preguiça de ler, de se informar, ou até mesmo por incapacidade de entender o que está por trás destas “informações”. Enquanto isso, até guerras são forjadas para servir de cortina de fumaça para esconder a prática de crimes de abusos sexuais... Mas esse é um assunto que não cabe no “buraco de página” que me é destinado no momento.

Por Sérgio Cunha, Jornalista profissional, especialista em comunicação pública e membro da Academia Itaunense de Letras – AILE, sendo titular da cadeira 26.