A “direita”, a escala 6x1 e as omissões da “grande imprensa”
Outro dia, um amigo me disse que, “se a escala 6x1 for aprovada, o desemprego será enorme!”. Disse ainda que, “se os patrões deixarem de ‘dar emprego’, quero ver onde as pessoas vão trabalhar”. Eu, imediatamente, respondi a ele que, se os patrões demitirem por causa da mudança na escala de trabalho, que dá mais um dia de descanso a quem trabalha de segunda a sábado, oito horas por dia – mas que consome 10 a 12 dessas horas/dia por conta do trabalho –, eles vão quebrar, pois quem garante seus lucros é o trabalhador. E disse mais: que os trabalhadores precisam entender que, sem eles, não tem riquezas para os patrões. Depois do ocorrido, fiquei pensando o porquê de ele ter essa opinião, visto que, assim como eu e a maioria de seus conhecidos e amigos, ele precisa trabalhar para ganhar o pão. E trabalha muito, diga-se de passagem. Mas, como tenho lido bastante sobre a questão, descobri que ele nada mais faz do que repetir o que disseram para ele. Quem disse? Ora, os patrões, os milionários, por meio da “grande imprensa”, por meio de políticos da chamada “direita” – sempre coloco essa definição ideológica, porque entendo que, no Brasil, não há políticos “de direita” ou “de esquerda”, mas sim os que defendem seus interesses pessoais.
Tenho lido artigos na “grande imprensa” em que “especialistas” apontam os malefícios da redução da jornada de trabalho com o fim da escala 6x1. Então é preciso explicar que a proposta é para que um terço dos trabalhadores formais brasileiros (cerca de 15 milhões de pessoas, ou 33,2% do total) passe a trabalhar 40 horas semanais – de segunda a sexta-feira, por exemplo – em vez das 44 horas semanais atuais, que os obriga a trabalhar seis dias por semana. Vejam bem que é só um terço dos trabalhadores, o que significa que dois terços não são encaixados nessa mudança.
Mas eis que estes 15 milhões de brasileiros são aqueles que, além de trabalhar mais, ganham menos e são os mais explorados. Muitos deles são os trabalhadores domésticos (jardineiros, motoristas, passadeiras, arrumadeiras, lavadeiras, cozinheiras), que vão “obrigar” patrões a pagar mais um pouco para continuarem com o mesmo sistema de vida, ou ter que ir para o fogão no sábado, ou procurar um restaurante, como já fazem no domingo. Ou casos como o daquela dona de loja, que reclama da empregada que não quer trabalhar de segunda a sábado por um salário mínimo e que vai ter que pagar um pouco mais ou abrir mão do lucro do sábado... Aí, então, surgem as notícias na grande imprensa, com alegações de que “o País vai quebrar”, que “as cidades vão ficar desertas nos finais de semana” e que “as galinhas vão parar de botar ovos nos sábados e domingos, porque não vai ter empregado para recolher os ovos”.
E tem também os políticos “da direita”, como o Nikolas Ferreira, o presidente estadual do PL, Domingos Sávio, e mais um monte de políticos – daqueles que vêm a Itaúna buscar votos de quatro em quatro anos –, que apresentam a seguinte proposta, para aceitar em troca, votar o fim da escala 6x1: aumentar a carga horária para 52 horas semanais, a flexibilização dos direitos trabalhistas (como redução nos valores do FGTS, isenção do pagamento do INSS patronal e outras mordomias em favor dos endinheirados), além de um período de “transição” de 10 anos para a redução da jornada passar a valer efetivamente. Vinte deputados federais de Minas assinaram a proposta. O pessoal do PL e alguns outros de partidos “da direita”, como União Brasil, PSD, Republicanos...
E o pior é que a “grande imprensa” e esses políticos, que alegam que “país desenvolvido é onde o povo trabalha muito”, se esquece de contar que, na Europa, em países muito desenvolvidos como a Islândia e a Suécia, a escala de trabalho é 4x3 (quatro dias de trabalho por três de descanso). Ou na França, Alemanha e Reino Unido, que têm escalas de 5x2 ou 4x3; assim como para boa parcela dos brasileiros a escala também é 5x2 (casos dos servidores públicos, por exemplo, ou vocês já viram Prefeitura, Câmara, Fórum, funcionando aos sábados e domingos?). Isso sem falar nos bancos.
E omitem, também, que, no Canadá, a carga horária de trabalho é de 32 horas semanais em média; na Alemanha, 34 horas semanais; na França e Reino Unido, 35/36 horas; e nos Estados Unidos, ora, o “país-modelo” para esse povo, a carga horária média é de 38 horas semanais. E nenhum desses países está quebrado, ou perto disso. Já a Argentina, que aprovou carga horária de 10/12 horas diárias, ou na Bolívia, que tem carga horária de 48 horas semanais, a situação econômica é de fraca decadência. E, só para constar, coincidentemente, os governos são de ultradireita e centro-direita, respectivamente.
* Jornalista profissional, especialista em comunicação pública e membro da Academia Itaunense de Letras – AILE, sendo titular da cadeira 26.




