O ser jornalista, a vontade de sê-lo e as implicações em tentar...
Não é novidade que o exercício do jornalismo provoca uma aura de “importância” a quem o exerce, especialmente àqueles que não sabem exatamente o que é ser jornalista. E, devido a isso, muita gente, às vezes, por falta de oportunidades, às vezes, por preguiça de buscar os caminhos próprios, arrisca-se na arte de fazer jornalismo, mesmo que não tenha conhecimento, preparo e responsabilidade em sê-lo. E, após o surgimento da internet e, por conseguinte, as redes sociais, abundam por aí, especialmente em assessorias de imprensa de órgãos públicos, este pseudojornalistas. Isso porque quem detém empresas regulares de comunicação sabe que, para ser jornalista, além do diploma (há quem o seja sem o diploma, porém com competência), precisa de muito mais que vontade. É preciso conhecer do ofício, preparação em redações e treinamento diário. Ser jornalista não é sair por aí postando informações, sem apuração, publicando fofocas com “ares de notícia”, em redes sociais, páginas de aplicativos... Ser jornalista, antes de tudo, é ter responsabilidade com o que publica.
Mas, infelizmente, o nível da classe política, tanto intelectual quanto de responsabilidade, faz com que foquem apenas nos likes possíveis e nos votos alcançáveis. E saem por aí contratando “jornalistas” de exercício duvidoso, que não conhecem a profissão, não se preocupam com a seriedade da informação, que são useiros e vezeiros de postagens sensacionalistas, de publicações eivadas de termos bajulativos, mesmo que coloquem em risco os mandatos de seus padrinhos. E, às vezes, passam da conta, publicam vídeos com autopromoção dos políticos que, vez ou outra, se tornam garotos-propaganda de seus mandatos e se esquecem de que comunicação não é propaganda. Outras vezes, focando nos likes e pensando nos votos, apoiam ações que visam denegrir adversários, transformando a comunicação que deveria ser pública em canais de propaganda pessoal. E é mais ou menos o que estamos presenciando por aqui.
Com o pensamento na oportunidade de expansão do espaço pessoal nas redes sociais, contrataram um rapaz que é especialista em divulgação nas redes sociais, mas que parece nada saber do que se passa no fazer jornalismo. Com isso, a comunicação pública que deveria ser feita na Câmara, tornou-se propaganda direcionada às redes sociais, dando prioridade à publicação de fofocas e colocando em segundo plano a comunicação pública, apesar de se estar usando dinheiro público que deveria ser canalizado para o fim de comunicar com o público itaunense.
É por isso que estão questionando “O Itaunense”, que é uma página de redes sociais que é acusada de ser administrada por um betinense – ironia – que foi contratado para executar a comunicação do Legislativo local. E é necessário perguntar aos itaunenses, qual comunicação tem sido feita pelo Legislativo que investe em salário mensal de R$ 10 mil e, conforme acusa um vereador, gasta mais R$ 160 mil em “divulgações” com “órgãos de imprensa” e mais R$ 200 mil com a tevê da cidade. Brincando nas redes sociais, lá se vão quase meio milhão em recursos que deveriam ser investidos em comunicação, como se propõe que tenha sido gasto este recurso.
E ao presidente da Câmara, que parece encantoado por alguns acordos que podem ter sido feitos para que ele assumisse a presidência da Casa, é preciso perguntar o que ele entende como “órgão de imprensa”. Página de fofocas em redes sociais, com certeza, não é “órgão de imprensa”. É preciso que tratem a coisa pública com o zelo necessário a ela e deixem de agir com o público como se tivessem na privada, literalmente. Comunicação pública não é fazer fofoca no Instagram. Exercer o jornalismo não é postar vídeos de propaganda. Comunicação pública, paga com dinheiro público, é para informar, dar conhecimento do que está sendo feito pelo órgão público, e não para fazer propaganda de quem está no poder.
* Jornalista profissional, especialista em
comunicação pública e membro da Academia
Itaunense de Letras – AILE, sendo titular da cadeira 26.






