Um “pedaço” da nossa história na “parada do trem”

Um “pedaço” da nossa história na “parada do trem”

Ontem, pela terceira ou quarta vez desde a primeira metade da década de 90, o prédio da estação do município, construído no início do século passado, foi, digamos, reinaugurado, com a sua destinação, ao que parece, agora definitiva e do jeito que deve ser: para abrigar o Museu Municipal, que tem o nome do Cel. Francisco Manoel Franco. Desde que o historiador Dr. Guaracy de Castro Nogueira, então vice-prefeito e Secretário Municipal de Educação, resolveu destinar o prédio para a instalação do Museu, acompanho as idas e vindas que acontecem ali quando muda a administração. Cada Secretário de Cultura tem uma visão e o funcionário de confiança designado para gerente do museu também sempre tem a sua. E, assim, o nosso museu, que deveria ter o mesmo formato histórico, muda de visão histórica de eleição em eleição. Ou seja, isso nos leva a crer que não temos uma história catalogada de forma correta, pois concreta a história nunca vai ser, visto que ela sempre sofrerá acréscimos de tempos em tempos. 

O fato é que, de eleição em eleição, a visão de preservação da história muda conforme o governante e o Secretário de Cultura, e desta vez não foi diferente. Na administração passada, acharam por bem transformar o museu numa espécie de ponto de encontro e até café-bar o local abrigou. Nada contra, mas o espaço para a memória tornou-se secundário e a história não foi contada através dos documentos e objetos, como deveria. Essa é a minha opinião. Num período de oito anos, na administração do Senhor Eugênio Pinto, nossa história foi para debaixo da escadaria do Poliesportivo JK e ficou lá literalmente amontoada, alguns registros sumiram, outros deterioraram e muitos resolveram os administradores dos setores culturais que não significavam nada em nossa história já pobre. Estou falando de arado, dentre outras ferramentas em ferro fundido, de vestimentas como as do congado, uma vez que o Reinado é considerado uma das mais importantes manifestações culturais da cidade e considerado o maior patrimônio cultural do município.

Falo, por exemplo, do forno de barro, de assentos de madeira de época, cristaleiras, talheres, dentre muitos outros registros, inclusive, documentais, que são prova de épocas como o período escravocrata e pós-escravidão e em que a descendência escravocrata era parte importante no desenvolvimento da comunidade de Sant’Ana do Rio São João Acima, com seu trabalho nas fazendas e, depois, no início do período de industrialização. 

Mas ainda salvamos parte dos registros históricos culturais, que são importantes para que as gerações que aí estão e as vindouras saibam entender o passado do município, através dos documentos, do mobiliário de época e dos registros culturais, como dos livros do historiador João Dornas Filho, que teve seu “retrato” pintado pelo famoso artista plástico brasileiro Di Cavalcanti e que está exposto no museu, devidamente restaurado. Ainda temos o presépio, registro popular construído pelo imigrante italiano Humberto Salera, que, ano a ano, aumentava a configuração dele, acrescentando bonecos que trabalhavam em engenhos e “engenhocas”, em montanhas feitas com sacos de linhagem pintados de verde e misturas de capim de silos e feno, com a “gruta” onde a manjedoura com o menino Jesus repousava após o nascimento, sob os olhares dos reis magos e de José e Maria. Parte do presépio se perdeu por aí... As fotografias dos chamados “tipos populares”, do Osvaldo Fotógrafo, também foram salvas e já estão expostas. É um registro de época das décadas de 40, 50, 60, 70. As fotografias foram adquiridas do fotógrafo por um empresário que já nos deixou, o itaunense conhecido como Élcio Poita, e depois doadas ao Município. É um belo registro, mas que pode causar transtorno, inclusive jurídico. É preciso analisar a Lei atual que protege a exposição de pessoas. 

A restauração do que estão chamando de “Estação de Memórias Itaúna”, em uma nova sala de exposições – que leva o nome da Senhora Maria Ângela Amaral Moreira, uma vizinha do prédio da antiga Estação Ferroviária, que era uma itaunense admirável, que constituiu uma família respeitada e conceituada e que foi conhecida e reconhecida pela comunidade como uma das melhores confeiteiras da cidade –, segundo o release da assessoria do prefeito, é um espaço expositivo dedicado à preservação da memória ferroviária da cidade, reunindo histórias que remontam à chegada das primeiras locomotivas, em 1910, até os dias atuais. A iniciativa valoriza o protagonismo dos itaunenses, destacando o trabalho ferroviário, o desenvolvimento das indústrias têxteis e as manifestações culturais e religiosas que se consolidaram no entorno das estações.

Ou seja, o que estão chamando de espaço dentro do museu é o próprio museu, com uma adequação necessária para que a concessionária do serviço ferroviário denominada VLI pudesse bancar o projeto dentro da Lei de Incentivo à Cultura. Entenderam?

Ainda explica o release oficial, através da coordenadora técnica do programa pela AIC, a Gislaine Gonçalves, que algumas particularidades da história ferroviária local ganharam destaque por meio de objetos, documentos, equipamentos utilizados no trabalho dos ferroviários, as memórias de quem conviveu com os trens, a movimentação no entorno da estação, entre outros importantes acontecimentos.

Também merece observação no release oficial que a chegada da ferrovia, em 1910, transformou  o Curato de Sant’Ana, o povoado que viria a receber o nome de Itaúna anos mais tarde. Cabe registrar que, em 1901, Sant’Ana do Rio São João Acima se emancipou, vindo a receber o nome de Itaúna. Ita (Pedra), Una (Negra). O release prossegue afirmando que a Cia. de Tecidos Santanense, a Cia Industrial Itaunense e a Rede Mineira de Viação foram empreendimentos que impactaram a economia e a sociedade local e que, juntas, deixaram marcas na história e nos corações de quem viveu nesse torrão e ainda vive. Afirma que a expografia busca explorar conexões por meio das memórias dos itaunenses.

O prefeito Mitre disse que: “A ‘Estação de Memórias’ não é apenas uma exposição, é um reencontro com a nossa história, com as pessoas que construíram esta cidade e com os caminhos que nos trouxeram até aqui. Esse espaço nasce de forma colaborativa, com a participação da comunidade, assim, pertence aos itaunenses e é um convite para que todos conheçam, preservem e se orgulhem da nossa trajetória. Que este espaço inspire as futuras gerações a manter viva a nossa história e a continuar construindo uma Itaúna cada vez melhor”. 

E, assim, apenas reforço, afirmando que um homem sem passado é um homem órfão das memórias que o fazem viver o presente e o levam, dia a dia, a querer viver o futuro, até que ele seja apenas uma lembrança na parede e na memória dos que querem entender o passado... 

Por Renilton  Gonçalves Pacheco