A nossa Praça da Matriz
Não me lembro bem, mas, ao longo desses 30 anos em que faço os editoriais da FOLHA, devo ter feito cinco ou seis tendo a nossa Praça da Matriz como tema central. Na maioria deles, tenho a certeza, foi para reclamar dos problemas que envolvem o logradouro público mais charmoso, polêmico e debatido da cidade. Um lugar onde todos mandam democraticamente e fazem o que bem entenderem, desde que estejam dentro da lei.
Sou um apaixonado pela Praça Dr. Augusto Gonçalves desde pequenino, quando acompanhava meu saudoso pai, aos domingos pela manhã, para o bate-papo dele com os amigos, quando todos se assentavam nos banquinhos. Enquanto batiam papos e falavam sobre tudo, principalmente política, eu corria pelos jardins, olhava a fonte, já apelidada de “bacia da Estelona”, em alusão à uma moradora, digamos, um pouco avantajada. Uma brincadeira de mau gosto feita sempre entre os dentes ou à boca pequena... Sempre gostei da Praça, principalmente, nas décadas de 60, 70, 80, 90, 2000, até 2010. Dos seus jardins, das luzes, dos transeuntes e da diversidade dos frequentadores. O ambiente era mais democrático, e ninguém atrapalhava ninguém, o respeito existia e cada um ficava na sua “tribo”.
Lá na adolescência, saíamos do colégio e nos assentávamos para conversar, paquerar ou apenas “olhar o movimento” ou ainda acompanhar os festejos da igreja, ou outros, como atos políticos, protestos, movimentos artísticos, sempre concentrados na Praça. Era gostoso... Convivíamos democraticamente, sem separação de cor, raça, credo ou condição social. Tinha a turma que frequentava o carrinho de laranja do Ibirité, o carrinho de pipocas do Dico, o Fubá engraxate, que, na sua simplicidade, sabia da vida de todos, pois, enquanto fazia o seu serviço, ouvia os causos de família, de negócios de amizades e por aí vai... Sobraram a banca do saudoso Turruca, agora do Toninho, e o Irajá do churrasquinho. Ali na Praça, o juiz conversava com o condenado, o promotor questionava o administrador público ou o de fundações e o gerente de banco cobrava o débito em atraso do cliente... Tudo democraticamente, sem alarde, grosseria ou briga, era naturalmente. Os tempos eram outros. Apenas isso. E, para tudo isso acontecer, era necessário a atenção dos administradores públicos para com a Praça. Os cuidados tinham que ser diários. Limpeza, jardins sempre bem-cuidados, plantas sempre aguadas pelas manhãs, arbustos e árvores podadas e o melhor, plaquinhas nos gramados: não pise na grama. Isso porque somos mal-educados, todos. Sempre tem alguém com os pés nas gramas ou jardins...
Os anos passam, o povo muda, o mundo gira, a cidade cresce... A população já não é a mesma e a geração atual não vai mais para a Praça com a mesma intensidade e, quando quer ir, tem medo de tudo. Não pode confiar em ninguém, não pode deixar o filho brincar, pois está tudo sujo e ele pode adquirir uma infecção, os ambulantes não dão sossego, os moradores de rua são, na maioria, agressivos e os viciados fazem do lugar ponto de consumo e venda de drogas, como já assisti várias vezes, parece natural, as tribos são outras... Infelizmente.
Em meio a isso tudo, para piorar, vem o desleixo do poder público. A nossa Praça está abandonada faz tempo. Passou por uma reforma por volta de 2008, no governo do Senhor Eugênio Pinto. Uma reforma, no meu entender, malfeita e para pior. Nos governos seguintes, dos Senhores Osmando Pereira e Neider Moreira, não houve nenhuma reforma e a manutenção praticamente não existiu, a não ser uma troca de iluminação por LED. No atual governo, que chegou faz 14 meses, aconteceu a reforma da fonte luminosa, que está bonita e transformou o local nas tardinhas e à noite, e os banquinhos foram pintados de verde. Na minha opinião, erroneamente, pois a originalidade foi apagada. Se era para limpar, que trocassem todos eles, colocasse de madeira com pés de ferro, por exemplo, mais elegantes.
O prefeito acaba de lançar o Projeto Cidade jardim, anunciando que quer uma cidade mais verdade, colorida com flores e repleta de árvores, com as praças e ruas mais bonitas. Acho um show. E pergunto: vai funcionar mesmo? Estão preparados para executar o projeto de forma eficaz? Tem paisagistas, jardineiros e equipe de manutenção e, principalmente, gente para literalmente vigiar os predadores contumazes, o próprio povo? Se tem, então parabéns. Se não, tenho a lamentar, pois não vão conseguir, infelizmente.
Quanto à Praça, a nossa Praça da Matriz, tenho a dizer que não basta uma manutenção ou um reparo na alameda principal e nos corredores secundários e muito menos replantar gramas ou tentar refazer os jardins. Será preciso muito mais. A única solução para fazer com que a nossa Praça da Matriz volte a ser o mesmo local é refazê-la. Como? Será preciso um novo projeto paisagístico, moderno e adequado à geração que aí está, ao estilo de vida de todos que transitam ou usufruem dela. Será necessário, por exemplo, jardins suspensos, pois, como já dito, somos mal-educados e não respeitamos os jardins e os gramados. Será necessário a troca dos banquinhos e, paralelamente, resolver os problemas rotineiros como o da população de rua e dos usuários de drogas, esse é fácil, basta uma base da PM funcionando 24 Horas. É só acabar com as bases nos postos de combustíveis e as rondas nas portas das padarias da cidade e fazê-las no nosso principal logradouro. É necessário também que seja construído urgentemente um terminal para o transporte coletivo. E tem que ser na Praça. Já chega de gente em pé no passeio e em frente à agência de banco, o que é proibido pela lei de segurança. É outra coisa que está fácil de resolver. Basta querer.
Conheço o senhor prefeito, e acho que posso chamá-lo de meu amigo Mitre. Meu amigo, você é muito bem-intencionado e tenho a certeza disso. Tem um olhar amplo da cidade, principalmente em se tratando de qualidade de vida. Então, meu caro amigo, faça acontecer, está com a “faca e o queijo nas mãos”. Basta querer, ultrapasse as barreiras burocráticas e refaça o Largo da Matriz de Sant’Ana, a Praça Dr. Augusto Gonçalves, a nossa centenária Praça da Matriz. Aí, você vai ver o brilho nos olhos e o sorriso largo dos itaunenses, que gostam de um bom papo entre amigos, de ver os filhos e netos correrem entre os jardins ou apenas olharem a fonte luminosa jorrando água colorida. Faça a feirinha de artesanato crescer, coloque mais artistas locais pra cantar aos sábados num lugar cheiroso, vigiado 24 horas, e com flores crescendo e o sino batendo na torre da igreja anunciando que é hora de rezar... Itaúna é isso, apenas isso, gente convivendo com gente, mas pra isso é preciso lugar bonito e bem-cuidado. Abraço.
Por Renilton Gonçalves Pacheco





