Tiradentes e a distância entre o herói oficial e o mineiro real
Todo ano Minas se lembra de Tiradentes. As autoridades se reúnem, os discursos reaparecem, a liturgia cívica se recompõe e, por algumas horas, o país parece reconhecer em Joaquim José da Silva Xavier um de seus nomes fundamentais. Ainda assim, a pergunta importante não é apenas por que o Estado o celebra. A pergunta mais funda é outra: por que Minas continua precisando dele.
O herói oficial é conhecido. Está nos quadros, nos bustos, na pedagogia patriótica, na iconografia da República, na solenidade em Ouro Preto. É o Tiradentes do bronze, já convertido em símbolo, domesticado pela cerimônia, envolto naquela aura quase religiosa que a posteridade costuma oferecer aos mortos úteis. Esse Tiradentes existe, claro. Tem sua função. Povos também precisam de imagens tutelares.
Mas há outro Tiradentes, menos imóvel e talvez mais verdadeiro. Não o mártir já pronto para o altar cívico, e sim o mineiro real. O homem formado numa terra que aprendeu cedo a desconfiar da força sem medida, do mando sem freio e da ostentação do poder. Um homem nascido numa Minas em que a dignidade nunca foi barulhenta, mas quase sempre foi teimosa. É esse segundo Tiradentes que ainda interessa.
Minas não o conserva vivo por culto arqueológico. Conserva porque ele encarna uma disposição moral que permanece reconhecível no espírito mineiro. A prudência diante dos poderosos. O senso de limite. A intuição de que a autoridade precisa de freios. A convicção, tão mineira, de que a honra vale mais quando não precisa se anunciar a todo instante. Tiradentes sobrevive menos como personagem acabado do que como pergunta moral dirigida a cada geração.
Talvez por isso sua memória diga tanto a cidades como Itaúna.
Também aqui a história não foi feita apenas por gestos retumbantes. Foi feita por linhagens, arraiais, capelas, caminhos, rios, comércio, trabalho e formação paciente de uma comunidade. O material histórico reunido por Guaracy de Castro Nogueira, ao rastrear as origens familiares, religiosas e territoriais da região, mostra justamente uma terra formada por continuidades discretas, por vínculos duradouros e por uma civilização local que não nasceu de improviso. Em capítulos sobre a antiga formação de Itaúna, aparecem nomes de troncos familiares, referências à ocupação inicial, às capelas, aos oratórios, ao Rio São João e à lenta passagem de um núcleo disperso para uma comunidade reconhecível
Essa observação ajuda a compreender o contraste. O Tiradentes oficial cabe na cerimônia. O Tiradentes real só pode ser entendido dentro de uma tradição mineira mais profunda, que também deixou marcas em Itaúna. Uma tradição em que a vida pública, para ser respeitável, precisa conservar alguma relação com o caráter. Uma tradição em que o homem não vale apenas pelo posto que ocupa, mas pela retidão com que suporta o peso das circunstâncias. Uma tradição em que a liberdade nunca foi simples licença, e sim dignidade.
Itaúna, com sua memória religiosa, familiar e cívica, oferece um ponto de apoio provocativo para esse raciocínio. Não somos uma cidade fundada sobre monumentos grandiosos, e sim sobre permanências. Antes da retórica, houve presença. Antes da pose, houve enraizamento. Antes da política vistosa, houve comunidade. A própria lembrança das origens ligadas ao antigo território do Rio São João, à vida devocional e aos primeiros núcleos familiares sugere que a identidade local nasceu menos da exibição e mais da consistência. É precisamente nesse terreno moral que Tiradentes deixa de ser peça de museu e volta a ser contemporâneo.
Porque o que sua figura expõe, no fundo, é a distância entre duas formas de vida pública. De um lado, a política transformada em encenação, cheia de títulos, ritos e homenagens, mas às vezes vazia de fibra. De outro, a política entendida como responsabilidade perante algo maior que o próprio interesse. Quando Minas presta homenagem a Tiradentes, deveria recordar sobretudo isso.
Não se trata de negar o herói. Trata-se de libertá-lo do excesso de oficialidade que, muitas vezes, o empobrece. Um mártir inteiramente absorvido pelo protocolo corre o risco de deixar de incomodar. E Tiradentes precisa incomodar. Precisa lembrar que a legitimidade não nasce do cargo por si só. Precisa recordar que o poder, quando perde a noção de limite, deixa de ser autoridade e se converte em abuso. Precisa ensinar que a consciência de um povo vale mais do que a coreografia de seus governantes.
Talvez seja essa a razão mais mineira de todas para ainda precisarmos dele. Não para repeti-lo como efígie, mas para reencontrar, por meio dele, uma certa ideia de decência pública. Não para adorá-lo à distância, mas para medir, à sua luz, o quanto ainda resta entre nós de altivez serena, de prudência moral e de coragem sem espalhafato.
O Tiradentes do bronze pertence ao calendário. O Tiradentes real pertence à consciência. E enquanto Minas ainda reconhecer essa diferença, ele não terá morrido de todo.
Por Rafael Corradi Nogueira





