Configurações perigosas

Configurações perigosas

Estamos no segundo ano do governo municipal, entrando na segunda metade do período administrativo, um período crítico para qualquer governante, pois, geralmente, é nesse momento que o cidadão começa a delinear o seu conceito em relação às propostas e ao estilo de governo e também começa a fazer a avaliação, analisando se o que foi proposto na campanha está traduzido em realizações em prol da população em vários ângulos, que vão do social à infraestrutura, à saúde, à educação, ao incentivo ao emprego e renda e ao fomento comercial e industrial. 

A administração pública é uma complexa colcha de retalhos que engloba todos os setores essenciais para uma vida saudável, e as costuras precisam se encontrar numa sustentação direta ao cidadão, que é quem paga a conta, com o pagamento de todos os tipos de impostos e contribuições obrigatórias, e quer ver o dinheiro pago transformado em melhorias urbanas, prestação de serviços e investimentos nos setores básicos.

Ao perceber que há uma deficiência na entrega dos serviços e os investimentos estão parados por falta de impulso administrativo, o cidadão começa a desconfiar de que não fez uma boa escolha, apesar de confiar e querer que o governo que escolheu dê certo. Mas, acima de tudo, valoriza a entrega dos serviços, pois precisa disso para que tenha uma vida melhor e sua família possa ter qualidade de vida em todos os sentidos. Assim, por parte do administrador público, eleito pelo voto direto e por livre escolha do cidadão, é fundamental administrar com foco nessa entrega com eficiência e qualidade, pois não adianta ter boas intenções apenas, é necessário ter precisão em atender e dirimir problemas em tempo hábil, para que o cidadão não sofra com questões aparentemente simples, mas que acabam por constituir obstáculos para um dia a dia que deveria ser permeado por qualidade dos serviços públicos para que o cidadão tenha uma vida de qualidade. 

Na prática, a qualidade dos serviços passa pela qualidade do funcionalismo, ou seja, pela qualificação de quem está executando os serviços. Não faz muitos dias, em outro editorial, citei que não adianta colocar para cuidar dos jardins quem não tem sensibilidade e não conhece as flores, pois vai machucá-las, e muito menos adianta colocar para quebrar pedras quem não sabe esculpi-las... E, assim, no serviço público, não se pode exigir que pessoas desqualificadas profissionalmente interfiram positivamente na qualidade da prestação de serviços ao cidadão. Ainda mais sendo esses serviços essenciais. 

Além desses aspectos fundamentais para uma administração eficiente e de qualidade, é preciso levar em consideração o aspecto político. Não há administração pública sem ato político, pois ela é fruto de um ato político direto, ou seja, o cidadão vai às urnas e escolhe livremente o seu administrador. Assim, o escolhido acaba por ter que, politicamente, construir o seu governo, e, assim, tudo vira, erroneamente, ato político. Entendo que seria necessário a separação da construção política de um governo e a composição administrativa, que deveria ser por capacidade profissional apenas. Mas não funciona assim e, politicamente, é necessário achar um meio termo, e aí as consequências vêm em forma de críticas, por causa da ineficiência da máquina pública, que não consegue atender às expectativas da população, que, por sua vez, busca de forma simples, o cumprimento das promessas de melhoria dos serviços públicos.

O pior é que, em meio às críticas, que são até naturais em qualquer setor produtivo, no setor público há, mais uma vez, a questão política de disputa de espaço e, assim, a oposição age para abrir ou retomar espaço junto ao eleitor. Dessa foram, além de literalmente produzir críticas, agride com exageros, cobranças excessivas e inverdades que são produzidas e reproduzidas nas redes sociais e em todos os meios possíveis de comunicação em massa. Se as “críticas” fabricadas não chegam a derrubar governos, causam desgaste e até são motivo de ações de órgãos como o PC e MP, que são usados como suporte para possíveis ações civis públicas quando estão bem embasadas. 

No nosso olhar, exercer hoje qualquer cargo público eletivo é correr riscos constantes, pois, mesmo com zelo e responsabilidade, a máquina pode falhar, pois é composta por seres humanos, que falham, até mesmo sem querer, e, muitas das vezes, sabendo que estão errando ou mesmo tentando andar “no fio da navalha”. O fato é que as configurações em tela são perigosas, demandam olhar atento, sensibilidade para designar, habilidade para atuar e, principalmente, boas intenções para administrar em prol de um todo. E o mais importante: saber que está trabalhando para o povo, que é exigente, não perdoa e quer tudo, mesmo sabendo que muita coisa não pode... 

Excelentíssimos, cuidado, então, com os exageros e, mais que isso, com um móvel que é ocupado por um tempo e pertence ao povo: a cadeira no gabinete principal. Além dela, outro objeto muito usado pelos chefes do Executivo – e que é perigosíssimo e, muitas vezes, custa caro ao homem público –, é a caneta... Então, todo cuidado é pouco. 

Por Renilton Gonçalves Pacheco