O poder muda: a técnica governamental deve acompanhar
Recebi com enorme satisfação o último material desenvolvido pelo meu amigo, professor Carlos Parente, executivo respeitado de Relações Governamentais, com décadas de experiência em empresas nacionais e multinacionais como Unibanco, ABN AMRO REAL, Avon, Alpargatas e Braskem. Parente, que é autor de livros indispensáveis para quem precisa entender rapidamente o trabalho de executivos que fazem relações governamentais, mais uma vez, foi cirúrgico em sua análise. Compartilho a seguir, as reflexões indispensáveis de Carlos Parente, ao universo político atual.
Costumo brincar que grande parte de quem não conhece as engrenagens do poder acredita que relações governamentais sejam feitas nas sombras, para se resolver interesses tomando whisky com políticos. Alguns, menos ingênuos, até sabem que isso não procede, mas ainda acreditam que relações institucionais e governamentais sejam uma mera agenda de contatos. Como se o poder fosse fixo. Como se a influência estivesse apenas nos cargos. Como se conhecer quem decide bastasse para compreender como a decisão se forma.
O professor Parente faz uma provocação pertinente: o ambiente mudou. Portanto, a técnica também precisa mudar.
O Brasil vive uma conjuntura política de fricção permanente. De um lado, há uma polarização social que organiza a opinião pública em campos cada vez mais rígidos. De outro, há uma governabilidade tensionada por disputas constantes entre Executivo e Legislativo, com o Judiciário ocupando papel cada vez mais decisivo em temas de repercussão nacional. A política deixou de operar apenas no rito formal das instituições. Ela se deslocou para as redes, para as narrativas, para as crises instantâneas e para os conflitos de reputação.
Diferente do que visões incautas tendem a replicar: o profissional de relações governamentais não conseguirá alcançar objetivos importante atuando como despachante de interesses. Precisa atuar como intérprete do poder.
O despachante tenta levar uma demanda até a autoridade. O intérprete compreende o ambiente, traduz o interesse em linguagem pública, identifica resistências, constrói legitimidade e escolhe a arena correta para cada disputa. Em tempos de polarização, essa escolha define o sucesso ou o fracasso de uma agenda.
O dado técnico, quando bem construído, é o antídoto mais forte contra a manipulação narrativa. Se a agenda é econômica, tributária, ambiental, social ou de saúde, o caminho não é aumentar o volume da retórica. É melhorar a qualidade da demonstração.
Em ambiente radicalizado, o bom profissional de relações governamentais precisa tirar a pauta da trincheira e colocá-la no terreno da consequência. A consequência desarma o discurso abstrato. Obriga o agente público a sair da posição simbólica e entrar na posição decisória. Quem vota contra ou a favor de uma medida precisa compreender o efeito real daquela decisão.
Mas isso exige outro instrumento frequentemente subestimado: o mapa de stakeholders. Muitas empresas ainda tratam esse mapa como um organograma elegante, uma lista de contatos atualizada uma vez por ano, um anexo burocrático de apresentação institucional. Parente relembra que este é um equívoco grave.
Um ator neutro hoje pode se tornar um opositor ativo amanhã. Um parlamentar distante pode ser pressionado por sua base digital. Um técnico de ministério pode ter mais influência concreta sobre o desenho de uma política pública do que uma liderança partidária exposta nas redes. Uma agência reguladora pode ser o espaço real da decisão enquanto o debate público se perde no espetáculo. É preciso identificar incentivos, para além da lista de nomes.
A política real não se move apenas por ideologia. Move-se por incentivos, custos, oportunidades e sobrevivência. Em muitos casos, a melhor coalizão não é a mais óbvia. É a transversal. Aquela capaz de reunir atores de campos distintos em torno de um mesmo efeito econômico ou social. Quando adversários ideológicos reconhecem a mesma consequência prática, a pauta ganha legitimidade e perde vulnerabilidade ao ataque extremado.
A legitimidade nasce da composição da mesa. Quem está junto importa tanto quanto o argumento técnico apresentado.
Em um ambiente de polarização, judicialização, redes sociais, rearranjo de poder entre Executivo e Legislativo, ativismo regulatório e disputa geopolítica, a organização que não antecipa riscos será governada por eles. A que não organiza dados será capturada por narrativas. A que não atualiza seu mapa de stakeholders será surpreendida por atores que já mudaram de posição. A que não compreende incentivos tentará convencer pessoas pelas razões erradas.
O poder não desapareceu. Ele se deslocou. Saiu parcialmente dos gabinetes formais e passou a circular em redes, bases eleitorais, agências, consultorias técnicas, tribunais, plataformas digitais, fóruns regulatórios e cadeias internacionais de influência. Quem continuar olhando apenas para o cargo verá tarde demais onde a decisão realmente foi construída.
A contribuição do professor Carlos Parente está em organizar essa mudança de época em termos práticos. Não como abstração acadêmica, mas como método de atuação. Advocacy, hoje, exige ética, governança, inteligência, prudência pública, leitura institucional e capacidade de traduzir interesses privados em consequências públicas verificáveis. No velho modelo, bastava acessar o decisor. No novo, é preciso entender o ecossistema que decide antes dele.
Por Rafael Corradi Nogueira



