As fakes, o jornalismo e a liberdade de expressão

As fakes,  o jornalismo  e a liberdade  de expressão

A semana no meio político itaunense foi marcada por uma enxurrada de notícias truncadas, algumas consideradas “fakes” e outras que tiveram cunho totalmente direcionado, apenas com agressões políticas, visando apenas o desgaste do adversário.  Hoje, além da disseminação fácil nas redes sociais, onde os usuários e impulsionadores acham ou têm certeza de que fazem jornalismo, as postagens têm conteúdo sempre pejorativo e, às vezes, extrapolam, inclusive, as leis vigentes. O tema é complicado e é motivo de debate em seminários específicos em nível nacional e internacional. E já tem seminário sobre o tema com foco nas próximas eleições, e o assunto é, mais uma vez, as “Fake News e Eleições”, e vai ser promovido pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), com apoio da União Europeia. No debate, especialistas em Direito e em Comunicação vão discutir a postura dos usuários nas redes sociais e suas opiniões sobre a disseminação de notícias falsas e devem apontar soluções que podem ser adotadas para amenizar seus efeitos. As opiniões dos especialistas desde o início das discussões sobre o tema, há 10 anos, são de que as chamadas fake news se apresentam como um problema central para a democracia em todo o mundo, o Brasil não é exceção.

Em um seminário realizado há cerca de 5 anos, o advogado eleitoral e ex-ministro do TSE Henrique Neves lembrou que as notícias falsas sempre existiram e não são uma novidade no mundo. Ele destacou que, na história, Heródoto, ao descrever a geografia do Egito e da Pérsia, repetia tudo aquilo que chegasse aos seus ouvidos. Do ponto de vista da legislação brasileira, ele lembrou que o Código Eleitoral de 1950 já previa punições para a conduta ao qualificar como crime a disseminação de fatos inverídicos ou injuriosos com capacidade de influenciar a opinião do eleitorado. Henrique Neves também falou sobre a necessidade de se estudar e entender o momento atual, uma vez que “a internet acabou com o monopólio da informação”. As fakes news também foram debatidas a partir do direito de liberdade de expressão, que foi definido como um dos valores mais caros à democracia. A saída, nas diversas opiniões, é agir de forma pontual em casos mais graves, ter uma atuação pedagógica e adotar cuidados para não provocar disparidades na própria disputa eleitoral, por exemplo, fiscalizando mais um partido do que o outro.

Voltando ao nosso universo, temos observado, cada vez mais, que a liberdade de expressão e a falta de conhecimento das pessoas, até mesmo por não ter conhecimento técnico de comunicação, acabam por fazer com que as notícias se tornem um emaranhado de frases desconexas, cheias de acusações, sem nenhuma apuração dos fatos com a devida técnica jornalística, e, o pior, os ditos criadores de conteúdos e os “influencers” se acham profissionais na produção e divulgação de notícias e não aceitam críticas. São os donos da verdade e tentam convencer todos disso. E o que vem sendo questionado e se busca uma solução, principalmente no meio político, é que, depois de publicada a notícia falsa, não há como frear a sua disseminação. A preocupação é com os rumos que a comunicação está tomando, sem leis que possibilitem o controle e a responsabilização dos autores das notícias, que, além de não trazer conteúdo, veracidade, contribuem para o descrédito de pessoas, na maioria, públicas. É fato que as leis avançaram e as discussões se tornaram mais consensuais, mas, por outro lado, a efetivação da fiscalização não evoluiu. Todos fazem o que querem nas redes e fica por isso mesmo.

Para ilustrar o que vem ocorrendo no momento, lembro-me que, em meados de 2008, critiquei editorial publicado em periódico local, que já não circula mais. O “editorial” era de uma singularidade atípica. Começava com um sonoro “olá” e terminava com “boa leitura”. Dois erros primários quando se trata de texto jornalístico: “olá” é uma expressão coloquial, sem peso e que é usada sem preocupação, então não cabe em um texto em que se pretende analisar ou se posicionar. E, para se ter boa leitura, é preciso estar diante de bom conteúdo editorial, com critérios, mais uma vez, jornalísticos. No jornalismo, a presunção não deve estar presente, porque ela “mata” o poder do jornalista de transmitir a notícia com isenção e impede o editor de distinguir o que é matéria jornalística de matéria que ele presume ser de interesse do leitor. Ter a presunção de estar fazendo um bom jornalismo é pior do que ter a certeza de que não se consegue fazê-lo por simples falta de conhecimento ou por incompetência mesmo.

E relembro uma máxima do jornalista Alberto Dines que encaixa em Itaúna como uma luva: “A sociedade que aceita qualquer jornalismo não merece jornalismo melhor”. Ultimamente, existe tanta porcaria no mercado editorial itaunense que eu diria ser feito em baiúcas. A presunção de que há repercussão, e que essas comprometem os interesses, é hilária, pois os interesses estão exatamente na “burra” que sustenta o “calepino”. Entenderam? E outra, credibilidade é palavra usual quando se quer mostrar que a publicação aguça o interesse do leitor sem usar artifícios de marketing. Mas essa palavra “credibilidade”, em seu contexto, é difícil, demanda tempo, seriedade, trabalho, empenho e, principalmente, postura sequencial. A palavra credibilidade chega até a soar pejorativa quando é grafada em qualquer lugar, quero dizer em qualquer rede social ou por qualquer um. Para que se tenha credibilidade, é preciso que o leitor saiba quem, qual e onde. E, na maioria dos órgãos de comunicação de Itaúna, esse não é o caso, e piora cada vez mais. Quando o foco são interpretações e se tem a coragem de citar Nietzsche, é porque não se sabe mesmo o que é jornalismo. Mas aí está mais uma “interpretação” que contraria tudo que se tentou dizer. Interpretar como se quer é diferente de interpretar profissionalmente. Então a presunção volta à baila quando se pretende estar atualizado com a política de sua cidade. O que é estar atualizado? É saber das “maracutaias” e ajudar a encobri-las? Ou é usufruir do conteúdo amontoado na “burra” em detrimento do conforto do povo? Concordo que só está bem-informado aquele que procura versões dos acontecimentos, mas afirmo que, para se estar bem-informado, é preciso, antes de tudo, ter ética. E esta, para se ter, é preciso formação de caráter. Sem essa formação, não se faz nada, muito menos jornalismo sério. 

Quanto à pretensão de alguns jornais e rádios e das ditas páginas, que “se acham”, nas redes e/ou outros veículos e plataformas, serem a única fonte da verdade, creio ser mesmo dispensável, porque a verdade só tem uma face e não depende de interpretação. Fabricar notícia não é exercer o jornalismo, é fazer mau uso de redes difusoras em prol de mentiras. Lamentável. Sempre lamentável. Mas é a realidade.

Por Renilton Gonçalves Pacheco.