Na vala comum
Na semana anterior, levantei aqui o grave problema envolvendo notícias após o advento das redes sociais e, consequentemente, das plataformas de notícias se tornarem uma realidade sem volta, e, cada vez mais, se tornarem um meio de comunicação eficaz na capacidade de operação e na rapidez de difusão. Mas, em outro viés, é preciso observar com reservas devido a quão devastadoras essas redes podem se transformar quando mal utilizadas, o que tem se tornado comum.
Chamei a atenção para a certeza dos que operam nessas redes e plataformas de que estão fazendo jornalismo, porém não sabem o que é jornalismo, como não sabem o que é construção de notícia e as etapas a serem cumpridas para que essa notícia chegue até o leitor dentro de um padrão de ética e com conteúdo fidedigno. Hoje, os operadores, que podem ser qualquer um, noticiam qualquer coisa por ouvir falar e/ou apenas porque viram de longe e acham que podem emitir os seus conceitos sobre os fatos, sem se preocuparem com ética e consequências. Apenas expõem notícias e pronto. Cada um interpreta como quiser e tira suas conclusões sem que possa ter um embasamento real dos fatos. Como afirmei na edição anterior, o tema é complicado e precisa mesmo ser debatido com constância em todas as esferas dos poderes constituídos, para que não se agrave cada vez mais com a evolução diária da tecnologia virtual.
Na nossa terrinha de Borba Gato, como também já frisei em outras oportunidades, todo mundo se acha jornalista, radialista, repórter e até editor. É uma farra, e sempre foi assim. Mas hoje é mais complicado, pois o microfone, o computador, a filmadora e, obviamente, o celular estão à disposição de todos, inclusive dos inconsequentes. E, por isso, entendo que estamos em uma vala comum. Quando digo estamos, é porque posso afirmar que, faz muito tempo, décadas e décadas, sempre tivemos bons profissionais na imprensa local em todos os cargos, e com um detalhe: todos com muita responsabilidade. E, hoje, ao ver as fontes de notícias se tornarem um emaranhado de irresponsabilidade, fico realmente chateado e sem entender onde vamos chegar.
Observei esta semana, por exemplo, que a imprensa itaunense, pela primeira vez, não foi convidada oficialmente para uma inauguração pública. Vão dizer que, pelo fato de ser pública, não havia necessidade de um convite oficial. Mas vejo isso como uma “vala comum”, pois, se os poderes constituídos já entendem que é desnecessário a presença da imprensa, é porque entendem que as redes sociais bastam. E aí pergunto: será?
Por outro lado, observei na solenidade de inauguração do prédio do Fórum da Comarca que, mesmo não oficialmente comunicada – pois imprensa não tem que ser convidada, e sim comunicada –, toda a imprensa estava no local, cumprindo a sua obrigação de levar as notícias importantes da cidade para a comunidade de forma oficial. Pois redes sociais, páginas, não são oficiais, porque não estão registradas, não seguem critérios técnicos e muito menos profissionais. Observei que toda a imprensa séria de Itaúna fez o seu dever de casa e registrou mais um fato histórico para Itaúna. Fato que ficará nos anais do município e nos arquivos, hoje digitais, dos órgãos de comunicação itaunenses devidamente registrados.
Este não é um desabafo e muito menos uma busca de valorização, mas a exposição real dos caminhos para os quais a imprensa está sendo levada pela incompreensão de um todo, que já não sabe separar o joio do trigo, ou seja, o que é notícia e o que é um registro social em uma rede virtual, com um olhar individual. O que é completamente diferente de um registro jornalístico com a finalidade de levar uma notícia, um registro histórico para a população. Entendo que a própria imprensa deveria se valorizar trabalhando na informação de que o jornalismo não pode ser feito de qualquer forma e o jornalista não pode ser confundido com influencer, operador de página e/ou editor de conteúdos em redes sociais. O jornalista está protegido constitucionalmente, e é sempre bom lembrar que, numa democracia efetiva e consolidada, a notícia não é apenas um produto: é o oxigênio do debate público. E sem uma imprensa livre e resguardada do receio de retaliações, capaz de iluminar os porões do poder, o cidadão caminha às cegas e a democracia perece (Trecho do artigo “O Escudo Constitucional da Verdade”, publicado em 28 de fevereiro, no jornal O Globo, de autoria de Ana Tereza Basílio, presidente da OABRJ).
Então que se respeite a imprensa verdadeira, seja ela qual for, desde que ela cumpra com as regras democráticas e, principalmente, com as regras do direito de ir, ouvir, ver e publicar. Porque só assim o povo terá o que precisa, as notícias dos bastidores dos poderes constituídos, todos eles... Não tentem colocá-la na vala comum.
Por Renilton Gonçalves Pacheco



