O povo vai sendo levado... não se deixe levar
Outro dia, eu perguntei a um conhecido se ele tem votado realmente nas pessoas que ele acredita que seriam bons representantes de suas ideias. A resposta, como eu esperava, foi um ligeiro “não”, com a complementação de que, “escolhi o menos pior dentro do que me foi apresentado”. E a realidade tem sido essa e, a cada dois anos, tende a piorar, porque os partidos políticos são dominados por grupos de interesse que visam primeiro as questões individuais, depois, os interesses deles mesmos e, por fim, buscam uma maneira de se manterem na mamata por conta do dinheiro público. Estou sendo muito cético? Talvez um pouco, mas basta dar uma olhada nos nomes que se elegem e como eles chegaram lá, para saber que não falo nada além da realidade em relação à maioria. São pouquíssimos os que surgem por si mesmos, por meio de um trabalho realmente de defesa do interesse coletivo, de propostas e ideias de universalização dos benefícios. Uma grande maioria representa tradições de famílias, de grupos políticos, que se perpetuam na ocupação de cargos públicos. Quando o chefe do clã perde uma eleição, com certeza, ele tem um filho, um sobrinho, um primo, a esposa, eleitos em outro mandato. E, mesmo assim, o perdedor da eleição é, quase sempre, um ganhador de uma nomeação qualquer para receber salário público. Os históricos dos candidatos, como eu já afirmei aqui sobre um político conhecido, se faz no relacionamento, não em realizações. “Eu sou amigo do Aécio, eu sou chapa do governador...”, são as credenciais que os candidatos nos apresentam quando nos pedem os votos. Raros são aqueles que têm a coragem de apresentar uma proposta real de defesa de interesses coletivos. Mais vale a carta de apresentação do amigo do que uma boa proposta a ser defendida no universo de promessas vazias das eleições. Se duvida, pergunte aos candidatos da vez em disputa de cargos eletivos para a Câmara Federal ou à Assembleia Legislativa qual é sua real proposta de trabalho caso seja eleito. O que vai escutar é “defesa da saúde, da educação...”. Aí, complete a pergunta sobre como ele vai atuar em defesa de propostas para a saúde se for leito, por exemplo, deputado federal. Quais os projetos ele pretende apresentar. O máximo que vai ouvir é que “um deputado federal tem 50 milhões de reais de verbas para destinar”. Uai, mas isso é oportunidade que se apresenta a ele, mas o interessante seria saber qual proposta ele teria, por exemplo, para transformar em lei, se for eleito. Aí a coisa complica, porque a maioria não sabe que a função de um parlamentar é criar leis que beneficiem a sociedade em geral, defender os direitos da população, fiscalizar a aplicação do dinheiro público. O que eles sabem, mesmo, é que o salário do deputado daria para manter alguns luxos que ele/ela não tem, ainda, ou que poderá nomear algumas dezenas de assessores que serão cooptados para pedir votos para eles em troca de um cargo... É, infelizmente, é assim que as coisas andam ultimamente. E, se acaso algum candidato desses que estão por aí a pedir votos falar de projeto, vai ser na área de costumes. Quem sabe, exigir a instalação de banheiros rosas e azuis em todas as cidades, para que homens usem os banheiros dos homens, azuis, porque os banheiros das mulheres devem ser na cor rosa. E falam como se isso fosse mudar para melhor a vida das pessoas, que trabalham seis dias por semana, contam com um péssimo serviço de transporte, andam em ruas que não são limpas, bebem água que não é tratada, falta comida no prato e têm de estudar à noite, porque, durante o dia, precisam trabalhar para ajudar em casa. Mas essa não é realidade que esse pessoal conhece, portanto, não se preocupam com ela. E o pior é que tenho notado que os jovens têm se interessado pela política, buscam participar, especialmente as mulheres, mas são mal-informados por uma mídia que prefere manter tudo como está, para continuar faturando alto em cima disso. E a única maneira de mudar essa situação é não concordar com ela. Avalie profundamente os candidatos que se apresentam. Veja com quem eles andam, o que eles já fizeram, o que eles propõem e, se possível, cobre deles propostas, ideias, que não sejam “ajudar na saúde”, “ajudar na educação”. Afinal, não precisamos de ajuda, mas de ações efetivas que possam melhorar as vidas das pessoas. Chega de embromação. Não se deixe ser lavado nesta onda de pessoas boazinhas, mas que apoiam as piores maldades contra as classes menos favorecidas.
Por Sérgio Cunha Jornalista profissional, especialista em comunicação pública e membro da Academia Itaunense de Letras – AILE, sendo titular da cadeira 26.



