O mandato não pode ser partidário
Nos últimos dias, a vizinha Divinópolis recebeu as visitas do governador Mateus Simões e do presidente da República, Lula. O primeiro esteve naquela cidade para a execução de um projeto do seu governo que muito lembra o Governo Itinerante de Itaúna, do qual tenho o orgulho de ter sido o redator do escopo, executado nos mandatos do ex-prefeito Osmando Pereira. O segundo, para inaugurar o Hospital Regional, que já está atendendo a população da região Centro-Oeste. No caso do governador Mateus Simões, ele anunciou, na ocasião, uma série de benefícios para cidades da região, menos para Itaúna. Como tenho ido bastante a Divinópolis, por lá eu vi lideranças de cidades vizinhas que conheci dos tempos em que fui assessor de imprensa na Associação de Municípios do Vale do Itapecerica (AMVI), e algumas delas comentaram comigo a ausência de representantes de Itaúna. Sobre a visita do Lula (ainda não sei se foram anunciados mais benefícios para as cidades da região, mas, na certa, serão, pois isso sempre ocorre), questionei a alguns vereadores se eles compareceriam e recebi sempre a afirmação de: “Eu não... Lula, do PT...”, além de algumas afirmações jocosas e até de menosprezo. Nem é preciso lembrar que os benefícios que a cidade recebeu, nas últimas décadas, do Governo Federal foram todos eles de governos do PT... mas vamos lá. Sobre a presença de representantes da Prefeitura, obtive informações de que não teria ninguém, assim como não estavam na visita do governador. Aí me vieram à mente duas situações passadas por Itaúna e seus líderes políticos de antes. Houve um tempo em que governadores respondiam a pedidos de recursos para a cidade com a alegação de que “Itaúna é rica, não precisa de verbas”, devido a uma postura de rixa do ex-prefeito Ramalho com o ex-governador Newton Cardoso, inclusive, com a afirmativa seguinte nas placas de obras feitas em Itaúna: “Recurso: povo de Itaúna!”. Essa postura custou a ser derrubada, levou anos para que se fizesse entender aos governadores mineiros que Itaúna precisa, sim, de receber recursos do Estado, por “não ser rica”, mas porque está apenas exigindo um pouco de retorno ao muito que contribui com o estado e com o país. Outra situação que me vêm à lembrança é de quando o prefeito de Itaúna era o Osmando, do PSDB, e a presidente da República, a Dilma Roussef, do PT. Curiosamente, no período em que os dois partidos se indispunham, assim como bolsonaristas e lulistas de hoje em dia. Aí, chegou a Itaúna um convite para que o prefeito, Osmando Pereira, fizesse a abertura da Semana Nacional do Meio Ambiente, em Brasília, promovida pelo Governo Federal, para falar sobre a nossa coleta seletiva de lixo, que completará 24 anos no próximo dia primeiro de julho. E o Osmando foi, fez a abertura, tratou a presidente Dilma com urbanidade, assim como os demais membros do Governo Federal, e foi aplaudido por eles. Algum tempo depois, Itaúna conseguiu, com o mesmo prefeito Osmando, do PSDB, a maior verba a fundo perdido (sem necessidade de pagamento de empréstimo) que o Município já recebeu (cerca de R$ 15 milhões, à época) junto ao governo da presidente Dilma, do PT. Isso porque os dois sabiam reconhecer que o mandato não tem partido e que o cargo deve ser exercido em nome de uma população inteira, e não em nome de sigla partidária. Hoje, ao que parece, a sigla partidária a que o governante está filiado representa mais do que o mandato que ele recebe de uma população inteira. Convenhamos, pois, que a obrigação de vereadores e prefeitos é representar o todo da população e, em situações em que o governador do Estado e o presidente da República estejam tão próximos, é claro que a população espera que eles, os representantes dos municípios, compareçam, apresentem as demandas da cidade, cobrem o retorno dos impostos pagos pela população. Mesmo que seja com um protesto, com uma faixa ou uma entrevista à imprensa regional, afirmando que ali está em nome da cidade que representa, cobrando um benefício que é direito da comunidade que representa. Mas não, parece que, em Itaúna, a sigla partidária é que importa... Lamentável.
Por Sérgio CunhaJornalista profissional, especialista em comunicação pública e membro da Academia Itaunense de Letras – AILE, sendo titular da cadeira 26.



