Descartam a tradição por ignorância

Descartam a tradição por ignorância


A maioria das pessoas retornaria aos antigos costumes na fé e na moral se conseguisse alargar suas mentes o bastante para isso – nos ensina G.K. Chesterton. É a estreiteza de vista que as mantém no sulco da negação. Mas esse alargamento é facilmente mal compreendido, pois a mente precisa alargar-se para ver as coisas simples ou as mais evidentes. 

Este homem de visão alargada enxergará um grão de poeira ou uma mancha na história de sua tradição ou credo. Não a explicará de forma engenhosa; com certeza não fingirá que não existe. Ao contrário, irá enxergá-la com muita simplicidade; mas também com visão muito ampla, e contra um pano de fundo de coisas maiores. Fará o que seus críticos nunca fazem em hipótese alguma: verá o que é óbvio e fará a pergunta óbvia.

Quanto mais leio as críticas modernas à religião, especialmente à minha – a religião católica –, mais me impressiono por essa concentração estreita e essa incapacidade imaginativa de contemplar o problema em sua totalidade. Normalmente, num método retórico conhecido, os canais de TV, os movimentos progressistas e os protestantes fazem uma chuva de perguntas sem esperar, ou querer, ouvirem a resposta da anterior. Estou sempre disposto a responder a cada uma. Só que estou vivamente consciente das grandes perguntas que não são feitas, mais do que das pequenas perguntas que o são.

E percebo, acima de tudo, este fato simples e esquecido: que sejam ou não verdadeiras algumas acusações contra os católicos, elas são inquestionavelmente verdadeiras sobre todas as outras pessoas. Nunca ocorre ao crítico fazer algo tão simples como comparar o que é católico com o não católico. A única coisa que nunca passa por sua cabeça, ao que parece, quando discute sobre a Igreja Católica é a simples questão de como seria o mundo sem ela.

É isto o que quero dizer com ter uma visão estreita demais para enxergar a casa chamada Igreja contra o pano de fundo chamado cosmo. Por exemplo, os críticos a que me refiro permitem-se atacar repetidamente a nossa suposta repetição mecânica. Dizem que repetimos orações e outras formulas verbais sem pensar nelas. E sem dúvida há muitos simpatizantes que repetirão sua denúncia, sem pensar nela. Porém, antes de explicarmos o verdadeiro ensinamento da lgreja sobre essas coisas, há uma verdade ampla, simples e luminosa sobre toda essa situação que qualquer um pode enxergar se andar por aí de olhos abertos. É o fato óbvio de que todas as formas humanas de fala tendem a fossilizar-se em formalismo; e que a Igreja é única na história não por falar uma língua morta no meio de linguagens eternas, mas, pelo contrário, por ter preservado uma linguagem viva num mundo de línguas moribundas. Quando o grande grito grego invade o latim da Missa, tão velho quanto o próprio cristianismo, pode surpreender a algumas pessoas descobrir que há muita gente na igreja que realmente diz Kyrie eleison e quer dizer exatamente o que está dizendo. De qualquer modo, querem dizer o que dizem bem mais do que um homem que começa uma carta com “Prezado Senhor” quer dizer o que diz. “Prezado” é definitivamente uma palavra morta; naquela posição, deixou de ter qualquer significado. Ora, a vida, a vida humana ordinária, alegre e paga, está repleta de palavras mortas e cerimônias sem sentido. Você não escapa delas ao escapar da Igreja para o mundo. Quando o crítico em questão diz que só se espera de nós uma presença material ou mecânica na Missa, diz algo que não é verdade sobre o católico comum no que concerne a seus sentimentos para com os sacramentos católicos. Mas diz algo que é verdade sobre o alto funcionário que participa de eventos oficiais e sobre os aniversários de alguns de seus parentes. Essa retina de ações sociais repetidas pode ser algo inofensivo; pode ser algo triste; pode ser uma marca do pecado original, pode ser o que o crítico quiser pensar. Mas aqueles que concentram ataques contra a Igreja são homens cegos ao conjunto do mundo humano em que vivem, e incapazes de enxergar qualquer coisa exceto aquilo que difamam.

Em resumo, aquilo de que sinto falta em todas essas coisas é o que é óbvio: a questão de como a Igreja se compara com o mundo externo a ela, ou oposto a ela, ou proposto como um substituto a ela. E o fato óbvio é que o mundo faz tudo o que sempre acusou a Igreja de fazer, e muito pior, e em muito maior escala, e ainda por sem nenhuma referência para o retorno à sanidade. 

O perigo hoje é que as pessoas não ampliem suas mentes o bastante para compreender as coisas óbvias; e esta é uma delas. Os homens acusam a tradição romana de ser semipagã, e depois refugiam-se dela num paganismo completo. Não há uma única dessas faltas alegadas contra a instituição católica que não seja ainda mais flagrante e até mesmo mais extravagante em todas as outras instituições. E é para essas outras instituições – o Estado, a escola, o partido político, a idiossincrasia do pastor protestante, a máquina moderna de taxação e polícia – que os olhares dessas pessoas se voltam para salvar-se. Essa é a contradição; essa é a destruidora colisão; esse é o inevitável desastre intelectual em que elas já se envolveram; e só temos de esperar o mais pacientemente que pudermos para vermos quanto tempo levará para que percebam o que aconteceu.

Por Rafael Corradi Nogueira