As poderosas madrinhas
Não temos muitas escritoras no universo dos livros que falem da máfia. Surpreendentemente, a Autora Camille Aubray nos brinda com seu romance, contando-nos a história de quatro mulheres com passados próprios num encontro, minimamente, improvável.
A autora não é uma desconhecida, seu romance de estreia foi Cozinhando para Picasso, tendo, nesse momento, chamado a atenção do grande público leitor e da crítica em geral, figurou na lista de melhores lançamentos da People e ainda, de quebra, caiu nas graças de Margareth Atwood, a renomada autora canadense de o Conto da Aia.
O livro é um retrato da máfia sob o olhar feminino, um mundo masculino por excelência, onde as mulheres, especificamente as quatro jovens esposas, são inseridas no glamour do ambiente com casas e negócios próprios, tendo que conviver com o desconforto da truculência e ambição dos chefes mafiosos e seus comparsas, pagando tributo mensal pela proteção (exploração) dada por eles para o exercício de suas atividades lícitas, enfim, muitos temores e uma fachada a ser sustentada.
O livro é em parte um romance ficcional e histórico, temos um prólogo que é a porta de entrada para o drama.
Estamos em Nova York, abril de 1980, que é o tempo presente e que é o mote para uma volta ao passado distante. Ali, nos é apresentada Nicole, uma das afilhadas das madrinhas, que agora, casada e o marido em ascensão no meio político, terá uma oportunidade para figurar nos bastidores da política norte-americana em Washington D.C. Porém, nesses casos, há todo um protocolo, cuja investigação recai sobre todos os membros da família, e assim surgem os temores comuns se não há nada no passado que desabone e impeça o curso natural das coisas na vida cotidiana de agora.
Sua mãe sempre foi muito reticente quanto ao passado da família e Nicole não quer prejudicar nem ser surpreendida com fatos que desconhece.
Então o jeito é procurar a madrinha, que, no caso dela, é Filomena. Além de ser sua madrinha, é confiável, franca e direta, ninguém melhor para dar esclarecimentos.
O passado retorna à medida que a madrinha expõe os fatos que dizem respeito a ela mesma, como veio da Itália, os acontecimentos que a fizeram conhecida primeiramente pelo nome da prima Rosamaria.
Estamos em Santa Marinella, Itália, ano de 1934.
Plataforma da Estação de Trem, sua mãe a repreende para parar de pular, se não vai acabar caindo e se machucando.
Filomena estava feliz, gostava de passear e a mãe a estava levando para um passeio. No entanto não conseguia entender a noite anterior, quando seu pai e sua mãe tiveram uma discussão vigorosa a seu respeito e ficou muito claro que discordavam de alguma coisa. Ao amanhecer, sua mãe disse a ela para arrumar as coisas, pois iriam dar um passeio, o que a deixou entusiasmada. Reparou, porém, que a discussão chegara aos extremos, porque sua mãe estava com um olho roxo, por certo, seu pai havia chegado às vias de fato.
O silêncio entre elas persistia e a viagem perdurava, Filomena adormeceu e só acordou com o solavanco do trem estacionando na nova estação perto do anoitecer. Sua mãe, enfim, falou: Estamos em Nápoles, cidade grande e muito importante. Daí, no burburinho da estação, Filomena disse que as pessoas daquele lugar falavam igual ao seu pai.
Dali dirigiram-se ao destino final, uma casa enorme, e sua mãe, em frente à porta, puxou uma corda conectada a um sino. Uma criada abriu a porta e as guiou para um hall pequeno e escuro que levava para uma sala grande e ampla, cujo acesso se dava pelos degraus de uma escada. Filomena acreditava até então que haviam sidos convidadas para um chá.
Nisso entrou a “signora, num farfalhar imperioso e agressivo de saias de tafetá.” Era de pequena estatura, que, para compensar o ar régio, empinara a cabeça o nariz bem alto.
Disse logo à sua mãe que a menina, no caso Filomena, era muito magrinha. Ao que respondeu sua mãe, na defensiva, “mas é saudável e inteligente”.
A signora deu de ombros e gritou: “Rosamaria”.
Sua mãe explicou que, quando seu pai deixou a cidade, deixara uma dívida com o signor que mora aqui e foi ele que pagou a passagem para seu pai sair deste lugar, que o papai, ela e seus irmãos sempre trabalharam duro para pagar a dívida, que este ano especificamente fora muito difícil e chegara a hora de Filomena fazer a sua parte e se despediu com: “Seja Boazinha, Filomena. Faça tudo que te mandarem aqui”. Encerrando, disse-lhe para não desgraçar o pai, senão eles estariam encrencados.
Enquanto sua mãe se afastava, ela corria de um lado para o outro gritando pela mãe: “Mamãe, me espera, Mamãe”.
Saibam que essa é apenas a ponta do iceberg, há muito mais, vale a leitura e a reflexão e vislumbrar o esforço que algumas pessoas fazem para se livrar de um passado asqueroso. Eis a máfia e seus contornos sob o olhar feminino de Camille Aubray.





