A comunicação, a imprensa e a notícia...

A comunicação,  a imprensa e a notícia...

Tenho acompanhado a atuação de algumas “assessorias” de imprensa, sites de notícia e postagens nas redes sociais do dia a dia e fico abismado como algumas pessoas confundem os conceitos de notícia, de imprensa, de assessoria... Começando pela última categoria, assessoria de imprensa é algo que difere em muito daquilo que temos visto no dia a dia da bajulação patronal. Quando se trata de assessoria de imprensa de órgãos públicos, então, aí é que a coisa debanda para o mais alto grau do não profissionalismo. Ora, assessoria de imprensa não pode e não deve se resumir a “repassador de opinião do patrão”, ou de distribuição de release. Pior ainda quando se arvora em concorrente da imprensa constituída. Quando se assessora um órgão público é obrigação do assessor atuar em consonância com a mídia formal e informal, dando vasão às necessidades de comunicação que se fazem entre as partes. Assim, uma assessoria nunca deve apropriar de uma pauta de um órgão de comunicação e transformá-la em release de defesa do “patrão”. Isso é antiético, para se dizer o mínimo. Quando um jornalista faz a solicitação de uma informação a uma assessoria, há que se entender que aquele pedido de informação é uma necessidade gerada a partir da pauta daquele órgão de imprensa. Não se pode pegar aquele pedido de informação de um jornal, por exemplo, e produzir um release para todos os demais. Com isso, você está desconhecendo um trabalho daquele jornalista, daquele jornal, que solicitou a informação. É preciso saber que release é uma informação geral, de iniciativa do órgão, para gerar uma pauta. Resposta a um pedido de informação de um órgão não é pauta para se produzir release. Também é necessário entender que assessoria não é “órgão de imprensa”. É preciso saber entender essa diferença. Jornalismo (em jornal ou revista), radiojornalismo, telejornalismo, webjornalismo, são áreas que a assessoria de imprensa deve atender, responder, acionar. Não concorrer, disputar espaço. Até porque existe uma questão de credibilidade que um tem, por um lado, e o outro deve resguardar, por outro.

Outra questão que se mistura muito é o conceito de “imprensa”. Um programa de entretenimento não é órgão de imprensa, como muitos afirmam por aí. Página de fofoca em redes sociais não é imprensa. Imprensa, meus caros, é o coletivo que se dá aos meios de comunicação que exercem o jornalismo, é a comunicação informativa. Resumindo, imprensa é aquele espaço onde se trabalha com a notícia. E é bom saber que fofoca não é notícia. Propaganda, que é o que muitas assessorias fazem o tempo todo, não é notícia. E aí entramos na questão do que é notícia. Ora, notícia é uma informação. Não se “cria” notícia. Notícia se dá. E é preciso saber que, para que uma informação seja notícia, ela precisa passar por um crivo mínimo. Você acordar não é notícia. Beber água não é notícia. Já não acordar – e permanecer vivo – por um determinado período, considerado longo, de muitos dias, semanas, meses, aí é notícia. Não beber água, nunca, é notícia. Forçar a barra em relação a uma informação que você quer passar para as pessoas em forma de notícia, para obter vantagens por meio disso, é falta de profissionalismo, no mínimo.

Outro problema grave que se encontra por aí, especialmente nas assessorias de imprensa, é a apropriação da criação alheia sem dar crédito à fonte, ou sem pedir autorização ao autor da criação. Por exemplo: usar da imagem de um artista famoso para gerar uma publicação sem autorização do uso de imagem é antiético, antiprofissional, irregular... Não pode simplesmente pegar a imagem do Pateta, por exemplo, e sair utilizando-a sem qualquer autorização do dono daquela imagem para isso. Por mais que ela seja conhecida do público em geral.

Por outro lado, temos ainda os “veículos de imprensa” que vivem de reproduzir release feitos pelas assessorias. A obrigação de um veículo de imprensa é utilizar o release como fonte de informação. Assim, é necessário, pelo menos, reescrevê-lo. Assim não sendo, vai se tratar apenas de um painel de postagens de releases alheios. Nunca de um veículo de imprensa. E é terrível o que vemos por aí, de “notícias” dadas com o mesmo texto do release... Então que em 2026 os veículos de imprensa sejam, realmente, veículos de imprensa e não “postadores” de releases. Que as assessorias entendam a palavra “assessorar” na sua plenitude. E que o profissional tenha a consciência do que ele está fazendo. Comunicar é algo sério, e não apenas um meio de vida, de ganhar uns trocados... Temos dito. Então feliz 2026!

* Jornalista profissional, especialista em comunicação pública e membro da Academia Itaunense de Letras – AILE, sendo titular da cadeira 26.