A Galeria voltou, mas a memória?
Entre o esquecimento e a retomada, Itaúna é chamada a decidir o que fará com a sua própria história. A reabertura da Galeria Ahmés de Paula Machado, no dia 19 de março, não representa apenas a reativação de um espaço físico. Ela recoloca uma questão essencial: o que a cidade faz com a sua memória cultural?
Antes de qualquer celebração, é necessário perguntar: quantos itaunenses, de fato, sabem quem foi Ahmés de Paula Machado?
Parte da resposta a essa pergunta foi registrada pelo pesquisador e professor Guaracy de Castro Nogueira, cuja biografia constitui uma das principais referências sobre o artista. Nela, Ahmés aparece como um nome que ultrapassa os limites locais: formado pela Escola Nacional de Belas Artes, premiado em salões oficiais e com formação complementar em importantes centros europeus, como Paris, Roma e Florença.
Sua trajetória o insere no circuito mais amplo da arte brasileira, o que constitui um dado fundamental, pois reduzi-lo a um “orgulho local” implica limitar sua dimensão histórica. Mais do que um artista itaunense, barranqueiro do antigo arraial de Sant’Ana do Rio São João Acima, Ahmés integra uma geração que dialogou com a consolidação da arte moderna no Brasil. Ainda assim, essa relevância não se converteu plenamente em memória pública.
Em outubro de 2023, na coluna “Na ponta da caneta”, o jornalista Renilton Pacheco denunciou o enfraquecimento das estruturas culturais da cidade, apontando, entre outros aspectos, a descaracterização da própria galeria que leva o nome do artista.
Sua crítica registrou uma percepção concreta: a perda de continuidade na preservação e no fomento das expressões culturais locais. Quando uma cidade perde seus espaços de arte, ela não perde apenas equipamentos, ela compromete sua capacidade de transmitir história.
A própria Prefeitura de Itaúna, em comunicação oficial recente (2026), reconhece que a galeria permaneceu “afastada de sua função original” por um longo período, sendo utilizada para outras finalidades antes de seu atual processo de readequação. Ao mesmo tempo, apresenta a reinauguração como parte de um movimento de revitalização e retorno ao circuito artístico da cidade.
Esse reconhecimento é relevante. Ele confirma que houve ruptura. É importante situar que esse processo de afastamento da função original da galeria não se vincula exclusivamente ao momento administrativo atual, mas resulta de uma trajetória anterior de descontinuidade no uso e na gestão do espaço. Nesse sentido, a reabertura promovida no presente indica não apenas uma ação administrativa pontual, mas o reconhecimento de uma lacuna que se acumulou ao longo do tempo.
Esse enquadramento permite compreender a iniciativa atual não como origem do problema, mas como parte de uma tentativa de reposicionamento do espaço dentro do cenário cultural da cidade.
A realização da exposição coletiva “Entre Gestos e Silêncios”, reunindo artistas locais no espaço agora reaberto, representa mais do que uma agenda cultural pontual. Indica uma tentativa de reconectar a galeria à sua finalidade original: ser um lugar de difusão das artes visuais e de encontro entre artistas e público.
Nesse sentido, a presença de artistas locais assume um papel central. Mais do que ocupar o espaço, ela contribui diretamente para a continuidade e a difusão da produção artística em Itaúna. É a partir dessa participação que se torna possível construir um vínculo real entre o legado de Ahmés de Paula Machado e a criação contemporânea, estabelecendo não apenas uma homenagem ao passado, mas uma dinâmica viva de produção cultural.
Sem a inserção contínua de artistas da própria cidade, a galeria corre o risco de se tornar apenas um espaço expositivo eventual. Com eles, ao contrário, abre-se a possibilidade de consolidar um processo permanente, no qual memória e criação caminham juntas.
É justo reconhecer que a atual administração pública promove, neste momento, aquilo que pode ser entendido como um “resgate do espaço”. Mas é justamente aqui que a análise precisa avançar. Resgatar um espaço não é, por si só, reconstruir uma política cultural.
Para que esse movimento se consolide, será necessário mais do que eventos: será preciso continuidade, formação de público, incentivo à produção artística e compromisso com a preservação da memória cultural.
Caso contrário, corre-se o risco de transformar o resgate em episódio e não em processo. E é nesse ponto que a figura de Ahmés retorna como questão central. Como transformar um nome em referência viva? Como fazer com que sua obra seja conhecida, estudada e integrada ao presente da cidade?
A reabertura da Galeria Ahmés de Paula Machado é, sem dúvida, uma boa notícia. Ainda assim, a questão permanece: Itaúna está apenas reabrindo um espaço, ou está disposta a reconstruir, de forma contínua, sua memória cultural?
* Charles Aquino, Historiador, professor e mestre em História.




