Resultado dos Blocos do Carnaval de Itaúna 2026: Esplendor e Glória em 1º, Boca de Sanfona em 2º, Baballo em 3º, Margaridas do Verduro em 4º
Sérgio Tarefa é possivelmente um dos maiores conhecedores vivos do carnaval de Itaúna. Autor de livros sobre o carnaval da cidade, Mestre Tarefa foi responsável por criar o Livro de Ouro, em 1970, que viabilizou o primeiro desfile de escola de samba em nosso município. Ele, Sérgio Lacel e Valmir Falcão correram a cidade arrecadando contribuição para o Zulu. Inspiraram Marco Coqueiro a fazer algo parecido para a Unidos da Ponte. Otacílio Leite e Tuquinha também transformaram seu bloco, chamado Os Terríveis, na terceira escola. Era o momento em que os blocos carnavalescos itaunenses, surgidos em 1922, ganhavam nova forma.
Carnaval é o prazer da população em ocupar o espaço público se divertindo. Guarde isso. A razão de muitos mal-entendidos sobre os festejos é, talvez, a forma como as análises mais diversas se esquecem deste pilar principal que legitima e explica tudo: OCUPAÇÃO DO ESPAÇO PÚBLICO. Como ensinou Roberto DaMatta, o carnaval não é só festa. É um rito coletivo em que a cidade se reconhece, por alguns dias, como um corpo só, com regras próprias e uma alegria que tem função social.
Quem mostra isto com clareza é a aula da história do carnaval da cidade que o próprio mestre Tarefa oferece ao relatar entusiasmado tudo que ele estudou e viveu ao longo de sua vida de folião. Também ajuda a provar este alicerce as dedicadas visitas que o decano carnavalesco fez a absolutamente todos os blocos que desfilaram em Itaúna neste ano de 2026. O carnaval não acontece. Ele é feito. E o fazer carnaval inclui ensaio, costura, repertório, bateria, cuidado com o outro, e a decisão, sempre repetida, de ocupar a rua com alegria. E foi baseado nas experientes observações de nosso professor, junto com os critérios que o carnaval do município oferece, que fiz questão de prestar a singela e simbólica homenagem à colocação dos quatro primeiros blocos de Itaúna, num apontamento de qualidade e deferência a tudo aquilo que é necessário para que o carnaval de Itaúna “não deixe o samba morrer”.
Mas para entender a linha de raciocínio, vale a pena um breve passeio na estrada carnavalesca que criou oportunidade para famílias inteiras de foliões curtirem a festa do momo em Itaúna.
Em 1922, foi criado o Clube União Operária, nos derredores da Praça da Matriz: pelos louváveis Isaurino do Vale e José Herculano Pereira. Foi o início de um costume que fez surgir o Clube Flor do Momo, na rua Sant’Ana, em 1936 e o Clube dos Morenos e o Clube Itaunense, já no finalzinho da década de 40. Eram os lugares onde os bailes de carnaval da cidade aconteciam, a princípio, fechados. Mas, talvez por isso, celeiros de entusiasmo, cujo único objetivo era a possibilidade de se divertir com fantasias, marchinhas, samba, adereços, confete e serpentina. Foram as estufas de alegria carnavalesca que, em determinado momento, não podiam mais ser contidas em um salão. E, por isso, extravasaram para as ruas. Era a folia com sede de ocupação do espaço público e com o magnetismo que agregou mais gente, mais povo, mais conterrâneos, até então, sem acesso aos espaços dos clubes fechados. A passagem do clube para a rua é uma virada de cidade. O que era convite vira encontro. O que era senha vira pertencimento.
A porta se abriu ao público. A função democrática de acesso à folia transformou a alegria que queria se fazer enxergar por todos. Fez com que ela criasse blocos. Como o Bloco Flor do Momo, de 1944; logo depois, o Bloco Caroço Encravado, cuja banda tocava em barris velhos, urinóis adaptados. Vieram os Farrapos da Lagoinha, em 49. O Bloco dos Ferroviários e o dos Morenos já na década de 50. Mesma época em que Guarany Nogueira fundou o Automóvel Clube de Itaúna, com outro salão carnavalesco. E finalmente surgiu o Bloco dos Paes, em 1970.
O bloco é uma tecnologia simples de participação: não exige credencial, não exige abadá. Exige só vontade, fantasia improvisada e coragem de aparecer.
O principal motor da festa foi orgânico. É o organismo da iniciativa espontânea do povo itaunense interessado exclusivamente em pular carnaval. O motor-base não era ganhar dinheiro com a festa, embora legitimamente ela traga renda e empregos momentâneos, à medida que cresce. O dinheiro pode ajudar a festa a crescer. Só não pode substituir o motivo pelo qual ela existe. Orgânico, aqui, quer dizer: nasce de baixo para cima, por repetição afetiva, por redes de amizade, por continuidade de gerações, e não por decreto nem por planilha.
Em 69/70, o professor William Leão se tornou vice-prefeito e acabou assumindo como prefeito. Entusiasmado com os anseios carnavalescos da cidade, ele foi à cidade de Cláudio, conheceu a Escola de Samba Couro de Gato, e a trouxe para uma apresentação em Itaúna. Foi a inspiração para as Escolas de Samba itaunenses que vieram depois e perduraram até 2002.
Num pequeno pulo temporal, caímos no carnaval de 2026. Há quem pergunte se tudo isso voltará. E há quem reclame do barulho e dos foliões pulando em vias públicas. No meio de tudo, se discute sobre a organização, a estrutura e o financiamento da festa.
Mas, apenas comentários mais breves, se conectam estes raciocínios com a essência: a capacidade de se extravasar alegria em espaço público, protegida sobretudo pelo motor principal: a alegria de cantar samba, marchinhas, em fantasias (ainda que feitas de sacos de batata, como nos primeiros blocos). A capacidade de acomodar, de forma natural e agradável, no mesmo ambiente, velhos, crianças, homens, mulheres, famílias.
Escutando a aula do mestre Tarefa e sua curadoria atenta sobre todos os blocos da cidade neste 2026, pareceu-me justa homenagem projetar a essência do carnaval que criou a festa do momo por aqui e, seguindo a opinião do professor Sérgio Tarefa, observar onde havia a melhor combinação de entusiasmo, conforto, música carnavalesca, gente fantasiada, número de pessoas e dedicação prioritária ao espírito dos foliões. Com isso em mente, registramos o primeiro lugar para a Banda Esplendor e Glória, que desfilou em volta da Praça da Matriz. Em segundo lugar, para a Boca de Sanfona, que se reuniu no Padre Eustáquio, no entorno da pracinha. Em terceiro lugar, o já tradicional Baballo, que fez a festa em Santanense. E em quarto, o recém-criado bloco Margaridas do Verduro, que se concentrou na rua Godofredo Gonçalves.
Ainda no melhor espírito de dedicação ao bom carnaval, vale uma menção honrosa à iniciativa do carnavalesco DaLua, que conseguiu trazer a bateria da Beija-Flor para brindar os foliões na sexta-feira de carnaval. Um gesto que traz à memória a iniciativa do professor William Leão, quando a Escola vinda de Cláudio trouxe inspirações para novas páginas na cidade.
O abadá e o trio não são só estética. São uma lógica. Trocam o bloco espontâneo por circuito, padronizam o pertencimento e deslocam o centro da festa para a engrenagem. O futuro do carnaval itaunense precisa de uma reflexão. Não deixemos o samba morrer.
Por Rafael Corradi Nogueira





