A Turma da Bengala

A Turma da Bengala

Sempre aos domingos, no horário entre 9h30 e 11h30, um grupo de “jovens senhores” se reúne em um dos banquinhos da Praça da Matriz, bem em frente à Loja Malucão, para um saboroso bate-papo, e são conhecidos pela alcunha de “A Turma da Bengala”, pelo simples fato de todos terem acima de 60 anos, que, aliás, é uma das condições para participar desse grupo, e muitos já estão acima dos oitenta e lá vai pedrada. A única exceção é o Rafael, neto do Julinho Fugueteiro, que, com seus 13 anos, frequentemente, está presente acompanhando o avô e é carinhosamente chamado de Bengalinha. 

Faça sol ou faça chuva, lá estão para prosear ou jogar conversa fora os amigos: Zidico, Maurício Moreira, Zé do Dezi, Medeirinhos, José Raimundo, o popular JR, Frederico, Sérgio Tarefa, Lutero, Paulista, Renilton Pacheco, Ronaldo Nogueirinha, Julinho Fugueteiro, Sérgio Elias, Ernani, Maurício Santiago, Gerson, João do Fico, bem como outros que já partiram, como os saudosos Marcinho Dentista, Vandão e Camelo. Conversam sobre tudo, sem discussões acaloradas ou tomando partido disto ou daquilo, que, aliás, é um dos motivos da sua longevidade, desde 2008. Muitos dos “causos” publicados no jornal Folha do Povo surgiram nestes gostosos encontros de domingo, relatados principalmente pelo Luizinho Guimarães, o popular Zidico, ou pelo saudoso Marcinho Dentista. 

Outra característica é quanto ao número de participantes de cada encontro. Ao invés de comentarmos: “Este domingo foi ótimo, né? Compareceram 11 pessoas”. Comentamos: “Este domingo foi ótimo, né? Compareceram 875 anos”, que nada mais é que o somatório da idade de todos os presentes naquele encontro. 

Num domingo desses, um dos assuntos abordados foram histórias de crianças, e não faltou assunto, pois a maioria dos presentes possui uma penca de netos. Entre os muitos causos relatados, gostaria de destacar três deles. Um dos presentes, pai de vários marmanjos e avô de uma penca de netos, relatou um caso ocorrido com um dos seus: a sua linda neta Claudinha, de 2 anos, nunca tinha cortado o cabelo. Era amarelo-ouro cacheado. Parecia um anjinho. Um dia, a mãe pega uma tesoura e resolve dar um trato na cabeça da criança, pois os cabelos já estavam passando dos ombros. Chama a filha, que chega ressabiada, olhando a enorme e cintilante tesoura. 

– Mamãe vai cortar o cabelinho da Claudinha, só dois dedinhos, viu. A criança olha para a enorme tesoura e se apavora. 

– Não quero, não quero, não quero!!! 

– Não dói nada! - exclama a mãe. 

– Não quero, não quero! - E sai correndo. 

A mãe sai atrás com a enorme tesoura na mão. Com muito custo, consegue tirar a criança debaixo da cama, chorando, temendo o pior. Consola a filha. Sentam-se na cama. Dá um tempo. A menina continua a chorar baixinho e não tira os olhos da enorme tesoura. 

– Olha, meu amor, a mamãe promete cortar só dois dedinhos, não vai doer nada. 

A Claudinha, já submissa, mas num choro desatado, abre as duas mãos e pergunta à mãe, de olho na enorme tesoura: 

– Quais dos dedinhos, mamãe?                                                                                                                                   

E o pai daquele garotinho de cinco anos chamado Antônio? Um belo dia, não sei por que cargas d’agua, deu uma bronca danada no filho, que o xingou de volta: 

–  Você é uma anta!!!

Surpreso com a resposta do filho, mas sem perder a calma, perguntou ao zangado garoto postado à sua frente:

– Ah, é? E quem é filho de uma anta, o que é?

O garoto pensou por alguns segundos e retrucou: 

– Filho de anta é... é... Antônio, uai!

Um outro contou que uma amiga da família, muito religiosa, um dia, sem querer, pegou o filho e um amiguinho dentro do banheiro fazendo um troca-troca! Só que, quando ela entrou, o filho queridinho e santo levava uma nítida desvantagem no ato. Mas o pequeno pecador não se abalou e exclamou, com os olhos bem arregalados: 

– Mas, mamãe, eu comi primeiro, viu!!! 

Por Sérgio Tarefa

*Membro da Academia Itaunense de Letras