SAÚDE EM CRISE - Conselho do Hospital autoriza novo empréstimo para quitar dívidas
“Cano” do mandato anterior e atrasos em repasses ocasionaram mais problemas financeiros e a necessidade de nova tomada de dinheiro a bancos
Em reunião realizada na noite da terça-feira, dia 9, o Conselho Comunitário da Casa de Caridade “Manoel Gonçalves” autorizou a tomada de novo empréstimo bancário para a quitação de dívidas da entidade. Conforme as explicações da provedoria, com o empréstimo a ser tomado, no valor de R$ 5 milhões, serão quitadas dívidas no valor de cerca de R$ 2 milhões de financiamento anterior e efetuados pagamentos de débitos presentes, inclusive, com a equipe médica e fornecedores de insumos. As últimas informações são de que o empréstimo anunciado pela Caixa Econômica Federal, foi impossibilitado, por problemas no limite de empréstimos para Santas Casas e novas instituições financeiras estão sendo tentadas. Caso se consiga o empréstimo a parcela atual de R$ 300 mil mensais para pagamento de financiamento será crescida para algo em torno de R$ 410 mil.
A necessidade de mais esse empréstimo é explicada com as seguintes situações: no mandato anterior, do ex-prefeito, Neider Moreira, não foi pago o “incentivo” mensal de R$ 800 mil que existia em acordo com a Prefeitura, para cumprimento de metas, nos meses de abril a setembro. Esse rompimento de repasse por parte da Prefeitura gerou um débito não quitado de R$ 4 milhões, referentes aos meses de maio a setembro, além de mais R$ 100 mil, atrasados do mês de abril.
Conforme apurou a reportagem, existia um repasse a termo de “incentivo” ao Hospital “Manoel Gonçalves”, para o cumprimento de metas de atendimento à população. Conforme apurado, essas metas foram todas cumpridas, inclusive, com o aumento de 230 cirurgias mensais para uma média de 500, conforme dados repassados pela direção da entidade. À época, o provedor do Hospital, Antônio Guerra, explicou que, após as eleições de outubro de 2024, o então secretário de Saúde da Prefeitura, Fernando Meira, informou à direção do Casa de Caridade que não mais seria feito o repasse, que constava de uma chamada “lei de incentivo”. Com isso, o Hospital não poderia mais contar com o repasse mensal de R$ 800 mil.
“Cano” de R$ 6,5 milhões da administração passada
À época, o tema foi bastante comentado, com a negação dos repasses sendo denominada como “cano” que o Hospital estava levando. Nem os serviços que haviam sido prestados, conforme a proposta do cumprimento de metas, seriam pagos, e estava sendo cortado o repasse nos três meses seguintes. Como o Hospital não teve como diminuir o atendimento à população, o total do prejuízo acumulado ficou em R$ 6,5 milhões, referentes ao mandato passado.
Esse problema foi repassado à atual administração e, apesar do diálogo aberto com o atual prefeito, não foi encontrada, ainda, uma maneira de o Hospital ser ressarcido pelo menos pelo serviço prestado à população, com valores de R$ 4,1 milhões. Os serviços prestados nos meses de outubro, novembro e dezembro, que totalizam mais R$ 2,4 milhões, ainda são mais difíceis de serem pagos, visto que a Prefeitura, à época, notificou a posição de não mais pagar o chamado “incentivo pelo cumprimento de metas”. O Hospital teria que assumir o prejuízo ou reduzir o atendimento à população, e a opção foi a primeira alternativa.
Novo contrato e os problemas continuam
Outra informação repassada aos conselheiros na reunião é que, ao assinar o novo contrato com o Município, anunciado em valores de R$ 2.550.000,00 mensais, na verdade, caiu para R$ 2,3 milhões. Em dezembro de 2025, o mesmo Conselho Comunitário se reuniu e aprovou uma proposta feita pela Prefeitura nos seguintes termos: repasse fixo de R$ 250 mil, para ser aplicado conforme as necessidades da direção do Hospital; e R$ 2,3 milhões dentro do “contrato de gestão”. Neste contrato de gestão, o valor não utilizado seria devolvido à Prefeitura, que o repassaria, posteriormente, ao Hospital em forma de subvenção.
Porém, conforme explicou o provedor, no dia 10 de março, na assinatura do contrato, o valor firmado foi apenas o do “contrato de gestão”, sem que os R$ 250 mil fixos fossem acrescidos. Com isso, neste ano, já são seis meses sem este repasse, o que ocasiona mais um prejuízo de um milhão e meio para o Hospital. Some-se a isso a demora na assinatura do contrato, que só aconteceu em março, gerando aí mais um déficit nos três primeiros meses do ano, já que o contrato só passou a ser pago nos valores novos a partir de abril.
Somados todos esses problemas, o prejuízo acumulado pelo Hospital, no atraso de assinatura do contrato, mais o “cano” que teria sido dado na entidade pela administração passada, ocasiona déficit superior a R$ 10 milhões no período. Se acrescidos aí os juros de dívidas não quitadas, devido a esses problemas, o Hospital de Itaúna teve algo em torno de doze, treze milhões de reais acrescidos à sua dívida histórica, que já não era pequena.
Há diálogo com o prefeito, mas entraves “no caminho”
A reportagem da FOLHA apurou ainda que o diálogo da direção do Hospital com o prefeito existe, sem problemas. O que ocorre é que existem “entraves no caminho”. Foi apurado, inclusive, que existiria uma questão que pode ser pessoal, por parte do secretário de Saúde, Alan Rodrigo, em relação à direção do Hospital, mais precisamente com o provedor. Até mesmo um contato via Fundação Dom Cabral, intermediando esse diálogo entre a direção do Hospital e o secretário de Saúde de Itaúna, já existiu, sem resultados, ao que parece.
E com esse entrave existindo, a troca de comando na pasta de Saúde do Município tem sido a direção apontada. Inclusive, na reunião do Conselho, muito se falou nisso, já que o problema parece ser mais pessoal, por parte do secretário, do que realmente de relação entre as entidades. Inclusive, na reunião, foi afirmado que “o secretário mente para o prefeito sobre as questões do Hospital”.



