Dionas Barbeiro.... O capa preta
A farra estava começando a toda, naquele início de noite de sábado, no bar do “Tapa na Paca”, lá na Rua João de Cerqueira Lima, em frente à antiga agência dos Correios.
- “Ô, Tapa, traz mais uma cerveja” – exclamava o Zé do Dezy, batendo o copo vazio sobre o velho balcão de madeira.
- “Vê se passa um pano na mesa” – emendava o Ronaldo Noguerinha, acompanhado do Zé de Paula, Moacir Mariano e o Zé da Telefônica, pois hoje tem baile no Clube União, e daqui nós vamos diretos pro baile e depois pra zona boêmia, visitar as casas de rapariga, né, Zé?
Já passava das nove e meia da noite, o bar estava lotado, o vira, vira... sendo cantarolado a plenos pulmões, as garrafas de cerveja se esvaziando sobre as mesas, quando ele chegou.
Em pé na porta do bar chamava a atenção de todos pela bonita figura. Bem apessoado, fronte espaçosa, a vasta e negra cabeleira puxada para trás sobre as orelhas reluzia, mostrando o excesso de brilhantina. Elegante, trajava um terno preto risca de giz de casimira inglesa e uma gravata listrada de branco e amarelo com um nó tipo cabeça de touro sobressaindo sobre a camisa de seda branca.
Deu um passo em direção ao balcão e, ao solicitar um “rabo de galo” no capricho, abriu aquele sorriso generoso onde os alvos dentes se destacavam sob o bigode fino e bem aparado.
Um figurão!
- “Boa noite, rapaziada” – falou o Dionas para o pessoal do bar.
Barbeiro dos mais conceituados na cidade, com uma vasta e seleta clientela, sempre se sobressaia pelo modo elegante de se vestir. Ainda solteirão, apesar dos 49 anos, tinha um físico de atleta, sem barriga, rugas e papadas. O Dionas sabia se cuidar e era do conhecimento de todos esta sua grande vaidade.
- “Olha só a elegância do Dionas, gente! – exclamou o Zé da telefônica.
- “Taí o maior atleta de Itaúna” – interferiu o Zé do Dezy – “Deve fazer ginástica todos os dias. Vai viver uns 100 anos” – Voltou a exclamar, ao mesmo tempo que caminhava a passos largos na direção ao recém-chegado. – “Que isso, Zé?! Bondade sua. Vocês é que são jovens, estão na flor da idade e sabem aproveitar bem a vida” – exclamou o recém-chegado com um largo sorriso de satisfação.
- “É ou não é um atleta, pessoal? Confessa, Dionas! Diz pro pessoal qual é o segredo deste tipo físico de toureiro espanhol e esta aparência de menino? É ou não é ginástica todos os dias?”
- “Bem, meu jovem Zé do Dezy” – exclamou o vaidoso Dionas, já estufando o peito e demonstrando um ar de segurança e orgulho, mas se recusando a se sentar para não amarrotar o vinco do terno novo que ia estrear logo mais no baile do Clube União Operária.
- “A gente se cuida um pouco, faz uma ginástica para não perder a forma, mas você está exagerando!”
- “Mostra pró pessoal, Dionas” – falou o sacana do Zé do Dezy, já se preparando para aprontar mais uma das suas – “Faz uma demonstração dos tipos de ginástica que você faz diariamente que o pessoal quer aprender.”
Inicialmente, meio ressabiado, e trajando aquele belíssimo terno, o “Capa Preta”, apelido pelo qual era mais conhecido pelos boêmios da cidade, tirou o paletó, colocando-o cuidadosamente sobre uma cadeira e iniciou uma série de exercícios para delírio do pessoal, que esta hora lotava o bar do Tapa na Paca.
Já passava das 10h30 da noite e, no apinhado bar, os olhares de todos se convergiam para aquele senhor de 49 anos, já sem camisa, meio suado, fazendo corrida simulada, sob o comando da voz estridente do Zé do Dezy.
- “É um recorde, doze mil e oitocentas passadas em cinco minutos e vinte e oito segundos.”
Quando o relógio da Matriz bateu meia-noite, o Dionas estava só de cueca samba-canção, de bruços sob o chão forrado com papel de pão, suadinho, suadinho, descabelado e pálido, fazendo flexões e o bar inteiro num som uníssono, contando - “Setenta e uma, setenta e duas, setenta e três, setenta e quatro, setenta e cinco...”
Dizem que, naquela noite, a sua ausência foi muito sentida no Clube União Operária, onde era um destacado pé de valsa, bem como no Bar do Sissi na zona boêmia, onde era um assíduo frequentador das casas de rapariga e que a sua barbearia só reabriu na quarta-feira à tarde, quando foi visto descendo com certa dificuldade do táxi do Júlio Magalhães...
*Membro da Academia Itaunense de Letras




