Seria uma venda de diploma?

Seria uma venda de diploma?

Antes de qualquer coisa ou de qualquer interpretação antecipada, gostaria de deixar claro que não tenho nada contra as instituições de ensino superior mineiras que não foram bem avaliadas no Enamed, cujo resultado foi divulgado na quarta-feira, dia 21. E muito menos, e principalmente, nada contra a fundação privada Universidade de Itaúna, que é uma instituição itaunense, fundada como privada, mas que recebeu recursos públicos do Município, dentre verbas e terrenos doados, e que hoje é comandada por uma família que sequer é itaunense. Infelizmente, porque, como dizia um amigo que já não está entre nós, “Itaúna não deu um pinto pra galo e nem um leitão pra cachaço”. Essa, também, antes de qualquer coisa, é a minha opinião. 

Então vamos lá. Em meu entendimento, a questão do ensino superior no Brasil é complexa e lastimável devido aos posicionamentos e a gestão do MEC nas últimas cinco décadas. O ensino superior na segunda metade do século passado passou por uma evolução sistêmica em prol da expansão do ensino, que antes estava ao alcance somente das famílias de classes média e alta, um salto importante para a formação de milhões de pessoas que antes não tinham acesso ao ensino superior. Essa expansão, obviamente necessária, dentro das exigências educacionais e do crescimento da população apta na época, deveria ter sido feita de forma a não tornar o ensino médio e superior no Brasil um terreno fértil para o mercantilismo, pois os colégios particulares, os cursinhos pré-vestibulares e as universidades privadas acabaram transformando o ensino em comércio. E hoje isso mostra que o caminho percorrido para popularizar o ensino, principalmente o superior, virou um comércio de diploma. Não uma venda direta, mas camuflada por um sistema de ensino que permite todo tipo de manobras, como a de contratar doutores para “lecionar” à distância e se responsabilizar pelo ensino e pelo currículo escolar exigido pelos órgãos competentes em nível federal, mas que fiscalizam o ensino à distância, exigindo das instituições estrutura dos campi, dos laboratórios educacionais, bibliotecas, dentre outros, mas esquecem de fiscalizar in loco o ensino diário nas salas de aula e nos laboratórios. Na maioria das universidades, os professores doutores responsáveis pelo ensino nas faculdades, sejam elas nas áreas de humanas ou exatas, não dão aulas in loco e apenas acompanham ou até mesmo assinam a responsabilidade à distância, sem nenhum comprometimento com o ensino. Recebem, simplesmente.

No caso em Itaúna, já publicamos situações em que cursos de pós-graduação não foram concluídos e em que o professor responsável não comparecia para lecionar, e quem apresentava-se para dar aulas era a professora substituta. Temos documentos de ex-professor e ex-funcionário da Universidade de Itaúna que era responsável por curso de pós-graduação na faculdade de Engenharia sem saber. Lamentável, uma situação que se repete nas instituições particulares e, principalmente, nas universidades que oferecem ensino à distância. Os cursos de graduação hoje são verdadeiros “balcões de venda de diploma”. Essa é a verdade.

Na quarta-feira, ouvindo a Rádio Itatiaia, a maior e mais ouvida rádio do Brasil, escutei o debate entre os jornalistas Eduardo Costa e Bete Macaron sobre as avaliações do Enamed, quando algumas universidades mineiras se posicionaram, declarando que cumprem as determinações do MEC e têm avaliações com conceitos acima da média, mas esquecem que o mais importante é o ensino, e não a estrutura de prédios e laboratórios. No debate dos jornalistas citados, o que me chamou a atenção e avaliei como critério principal, e os jornalistas têm razão, é que as instituições de ensino não assumem a responsabilidade do fracasso dos seus alunos ao afirmarem que os alunos não saíram bem na avaliação do Enamed. Ora, se não saíram bem é porque não aprenderam como deveriam, e isso mostra que há falhas no sistema de ensino. E isso torna-se muito sério quando a faculdade avaliada é de Medicina. Mostra que as universidades estão formando médicos com deficiência de aprendizado e sem o preparo devido para clinicar e realizar diagnósticos. Estes profissionais lidarão com a saúde humana, trabalhando com gente. É seríssimo. É muito grave.

E mais sério ainda é as instituições de ensino, como a Universidade de Itaúna, por exemplo, vir a público para manifestar que cumpre as determinações do MEC e que teve avaliação com nota 5 em 2025. O que mostra que ela cumpre os requisitos exigidos pelo Ministério da Educação no que tange à estrutura de ensino. Ou seja, instalações completas e aptas ao ensino. É fato, mas o mais importante não é a estrutura, mas, sim, a qualidade do ensino, com a qualificação dos profissionais colocados à disposição dos graduandos em todas as áreas, mas principalmente no curso de Medicina. Não há como discutir se o aluno não obteve atuação satisfatória na avaliação do Enamed e a Universidade não tem nada com isso, pois fez sua parte, cumprindo as exigências do MEC. Ora, se o aluno não obteve uma nota satisfatória é porque não aprendeu, e não aprendeu porque não teve qualidade na aprendizagem, e se não teve é porque o ensino não foi à altura das exigências do curso. E assim é obvio que a Universidade não ofereceu qualidade. É fato, é simples a conclusão.

E a minha conclusão em relação à Universidade de Itaúna também é simples: Não estava e não está preparada para oferecer um curso de Medicina. E não está mais preparada sequer para manter outros cursos tradicionais, pois está legada a sobreviver de um nome construído no passado. Não acompanhou a evolução do ensino e já não tem o respeito no estado, já não tem mais o prestígio de uma “Grande Universidade”. E como bem frisamos na reportagem na página 05, é uma grande universidade quando se avalia seus prédios, a sua grandiosidade em extensão do campus universitário. Mas não se pode afirmar que a UIT é uma grande instituição de ensino, pois não oferece qualidade de ensino e isso ficou provado na avaliação do Enamed divulgado na quarta-feira, dia 21. Não há o que discutir e não há justificativa plausível. É querer justificar o injustificável. 

O resumo da situação é muito simples: hoje o ensino superior é um “balcão de negócio”, que tem que dar lucro, e o ensino é apenas uma consequência desta mercantilização. Para os graduandos, o que interessa é o diploma, e só. Eu resumo a fala de uma grande jornalista que ouvi na quarta-feira: Os pais, que sonham em ter um filho médico, pagam a faculdade cara para realizar o sonho, se esforçam, mudam o ritmo de vida da família e julgam estar oferecendo ao filho um futuro melhor. É uma verdade, mas que pode estar em risco, pois, agora, se discute se os formandos de Medicina das universidades mal avaliadas podem atuar e já tramita no Congresso Nacional a criação do ProfiMed, exame obrigatório para os recém-formados – A chamada “OAB da Medicina”. E se o aluno que não teve como aprender o suficiente para obter êxito no ProfiMed ficar “a ver navios” após a conclusão do curso, as universidades vão “lavar as mãos”? Afirmando que fizeram a parte delas, com excelente infraestrutura de prédios e laboratórios? E o sonho do pai que bancou o curso do filho e sonhou? Terá que cair na realidade e descobrir que, no fundo, no fundo, se esforçou foi para pagar um diploma e não uma formação adequada? A verdade é que o ensino superior no Brasil, principalmente o privado, precisa ser repensado, reavaliado, antes que tenhamos uma enxurrada de profissionais sem condições de exercer a profissão. E não é somente na Medicina... Quanto à UIT, todos sabem minha opinião. E essa opinião é a de que está fadada a fechar. Quanto ao campus grandioso e a estrutura nota 5, que equivale a 10, já temos um bom exemplo: o prédio abandonado do Mercado Municipal. Posso estar enganado. Tomara.