O Domingo de Ramos e a escolha que antecede a Cruz
Às portas da Semana Santa, a liturgia nos conduz a uma cena que, à primeira vista, parece triunfal. Nosso Senhor entra em Jerusalém sob aclamações, ramos erguidos, mantos lançados ao chão. O povo o reconhece como Rei. Há entusiasmo, há esperança, há expectativa. Contudo, já nesta entrada solene se encontra, de forma silenciosa, o anúncio da Paixão que se aproxima.
O Domingo de Ramos não é apenas a celebração de uma vitória aparente. Ele é, sobretudo, o início consciente do caminho para o Calvário. Aquele que é aclamado como Rei é o mesmo que será rejeitado poucos dias depois. A mesma multidão que hoje grita “Hosana” será capaz de clamar “Crucifica-o”. E é precisamente neste contraste que se revela algo profundamente humano e, ao mesmo tempo, profundamente espiritual.
A inconstância do coração humano não é um fenômeno distante. Ela habita em cada um de nós. Também nós, muitas vezes, acolhemos Cristo com entusiasmo quando Ele corresponde às nossas expectativas, quando parece confirmar nossos projetos, quando nos consola. Contudo, quando sua presença nos conduz à renúncia, ao sacrifício e à Cruz, nossa adesão se torna hesitante, quando não silenciosamente negada.
O Domingo de Ramos nos coloca diante de uma escolha interior. Não se trata apenas de participar de um rito, de carregar um ramo ou de repetir palavras litúrgicas. Trata-se de decidir que tipo de relação queremos ter com Cristo. Se desejamos um Rei que sirva aos nossos interesses ou se estamos dispostos a seguir o Rei que nos chama a morrer para nós mesmos.
É aqui que as obras quaresmais, já refletidas anteriormente, adquirem novo sentido e profundidade. O jejum, a esmola e a oração deixam de ser práticas isoladas e passam a ser expressões concretas de uma decisão interior. São sinais de que não queremos apenas aclamar Cristo com palavras, mas segui-lo com a vida.
O jejum, ao disciplinar nossos apetites, nos ensina a não fugir da Cruz quando ela se apresenta nas pequenas renúncias diárias. A esmola, ao ordenar nossa relação com os bens, nos liberta da ilusão de que a felicidade pode ser acumulada. A oração, por sua vez, nos coloca diante de Deus na verdade de quem somos, quebrando a soberba que insiste em nos fazer autossuficientes.
Como bem transmitem as reflexões iluminadas de Santo Agostinho, no Domingo de Ramos, essas práticas do período quaresmal, em especial, encontram seu eixo. Elas deixam de ser apenas combate às desordens interiores e se tornam preparação para acompanhar Cristo em sua Paixão. Não há verdadeira participação na Semana Santa sem essa disposição de caminhar com Ele, não apenas até Jerusalém, mas até o Gólgota.
A entrada de Cristo na cidade santa também revela a natureza do seu Reino. Ele não chega em força militar, nem em imponência terrena. Vem montado em um jumento, sinal de humildade e mansidão. Seu reinado não se impõe pela força, mas se oferece pela verdade e pelo amor. É um Reino que não elimina a Cruz, mas a transforma em caminho de redenção.
Somos convidados a revisar nossas próprias expectativas. Muitas vezes desejamos um Deus que elimine nossos sofrimentos, que organize nossas circunstâncias, que resolva nossas inquietações. Contudo, o Cristo que entra em Jerusalém não promete uma vida sem dor. Ele oferece algo infinitamente maior: a possibilidade de dar sentido à dor e de transformá-la em caminho de salvação.
Os ramos que carregamos neste domingo não podem ser apenas símbolos externos. Precisam tornar-se sinal de uma decisão interior firme. A decisão de permanecer com Cristo mesmo quando o entusiasmo inicial se desfaz. A decisão de não abandonar o caminho quando ele se torna exigente. A decisão de reconhecer que a verdadeira realeza de Cristo se manifesta, paradoxalmente, na Cruz.
Ao iniciarmos esta semana decisiva, somos chamados a uma fidelidade mais profunda. Não a fidelidade dos aplausos passageiros, mas a fidelidade silenciosa daqueles que permanecem. Pois, no fim, não será o entusiasmo de Jerusalém que nos salvará, mas a comunhão com o Cristo que, por amor, caminhou até o fim.
Por Rafael Corradi Nogueira





