Memórias - Comentário Cláudio Lysias

Memórias - Comentário Cláudio Lysias
Foto: Reprodução Google Imagens

Esta obra de Humberto de Campos li num volume de capa dura pertencente a uma coleção cujo volume 17 é o de memórias, no entanto, encontrei esta imagem acerca dos livros memórias e memórias inacabadas que retrata melhor o autor e personagem de suas lembranças. Acredito que não sou o leitor mais aconselhável para comentar o livro em questão, neste caso, talvez o responsável pela obra haver chegado em minhas mãos, um presente com o qual fui agraciado pelo professor Arnaldo, seja ele mesmo mais abalizado para fazê-lo. 

Fico, mesmo assim, feliz de ter lido as memórias deste que foi em seu tempo um dos maiores escritores de língua portuguesa no Brasil. O livro foi publicado pela primeira vez em 1933 e de forma autobiográfica narra as recordações do autor desde sua infância até a juventude no Estado do Maranhão. 

O romance é escrito em tom crítico e avaliativo sobre sua própria história, mostra de maneira franca a formação do escritor, de como os percalços e peripécias levaram de modo até ingênuo e inconsequente a experiências próprias do menino do interior do Maranhão ao homem significativo de nossas letras, revela-nos seu amadurecimento forçado e como as circunstâncias da vida e da morte podem afetar os rumos de uma pessoa. 

O prefácio do livro da alcunha do autor é por si só um vislumbre do que virá a ser a obra. É pungente. Está a refletir conclusivamente o que o leitor enfrentará no virar das páginas, principalmente nos dizeres contundentes desta abordagem: “Os objetivos da obra iniciada com este volume...” se construirão em: “a confissão pública de faltas particulares, numa penitência de possíveis pecados de egoísmo e de orgulho; e a demonstração de como pode um homem, pela simples força da sua vontade, desajudado de todos os atributos físicos e morais para a vitória, libertar-se da ignorância absoluta e de defeitos aparentemente incorrigíveis, desviando-se dos caminhos que o levariam ao crime e à prisão para outros que o poderão conduzir a uma poltrona de Academia e a uma cadeira de Parlamento”. 

Assim, após esta apresentação, inicia-se a jornada por ele empreendida inaugurando seu relato por MEUS ANTEPASSADOS. Neste primeiro capítulo, em uma sinceridade absoluta, declara que no Brasil nada é mais difícil do que se estabelecer as origens de uma família, e aí ele nos surpreende quando diz que prefere confessar a ignorância a recorrer à fantasia. 

Está dado então o tom que permeará todas suas memórias, mas nem por isso deixa ele de se esforçar para dar pelo menos algum rumo em sua genealogia, faz menção primeiramente que descende de um tal de Bruzaca, irmão de sua avó, nascido no Brasil que emigrou para a África, onde fez fortuna e filhos naturais. Diz ainda, que por parte de seu avô materno pertencia ao ramo dos Oliveira Campos, lusitanos. Sua avó Malvina teve treze filhos e morreu no nascimento do último filho que por causa disso chamou-se Benjamim. Viúvo o avô Manuel, assumiu o comando e depois de um mal estar estomacal mandou vir do maranhão um purgativo que o levou a óbito cerca de vinte horas após a ingestão. O pai, por sua vez, descende dos Veras, portugueses que se estabeleceram em Recife, dispersando-se pelo país “como filhos de Noé depois da confusão em Babel”. 

Aqui fica claro o argumento mordaz que prenderá o leitor até o final. Os capítulos do livro são curtos e não há grandes saltos de tempo entre um e outro, bem como a passagem se faz sentir suavemente sem traumas.

Aborda suas reminiscências com clareza, sem encheção de linguiça, fazendo com que você se sinta parte da história contada. Segue falando de Dindinha, do pai, da mãe, de Miritiba, dele mesmo e de outras pessoas, tanto de Miritiba quanto de outros locais, narra também suas travessuras, desilusões e infortúnios, enfim vê-se a transição da infância para a vida adulta, além dos perigos que cercam as escolhas, e, por fim, o encontro com as letras, o amor pela escrita e a literatura. 

Sinta-se convidado a participar da aventura de viver na leitura de Memórias do escritor Maranhense Humberto de Campos, porque a vivência dele motivará também a sua.