Sobre a delicadeza do tempo e o mistério do primeiro dia
Só o primeiro dia do ano conhece um determinado tipo de silêncio. Ele não se forma a partir da ausência de som. Surge quando o sentido se suspende por um instante, como se o mundo decidisse escutar-se depois de um longo tempo apenas dizendo. Na manhã de primeiro de janeiro, o tempo ainda não tomou forma. Ele se deixa tocar com mais facilidade.
Charles Lamb dizia que amava a véspera. O último dia do ano ainda preserva o entusiasmo da promessa. Já o dia seguinte parece conter o peso do compromisso assumido sem palavras durante a noite. O corpo desperta mais lento. O vinho da ceia contribui com sua lentidão física, mas há também um repouso da alma. Ela hesita. O tempo mudou, e a alma pressente isso antes que o calendário nos diga.
Susan Sontag, ao registrar suas resoluções, enxergava algo além da disciplina. Via ali um gesto de refinamento interior. A decisão de tornar-se mais digno do próprio tempo. Resolver, nesse caso, significava escutar melhor a vida que nos atravessa. Um pacto íntimo com a lucidez.
O tempo não nos observa passando. Somos nós que nos movemos por ele, como quem atravessa um campo desconhecido. Os sinais da passagem aparecem nos detalhes. Um olhar mais demorado na despedida de alguém. Uma sensação de ausência dentro da presença. Uma fotografia recente que já não se parece tanto conosco. Em tudo isso, o tempo se manifesta.
O Ano Novo serve como superfície de reflexão. É nele que emergem lembranças acumuladas, gestos negligenciados, horas que escaparam sem registro. Também ali se abre um intervalo. Um espaço breve onde é possível respirar e escutar com mais nitidez. Esse tempo inaugural não impõe tarefas. Ele sugere escuta.
Refletir sobre o tempo exige coragem. Não para julgar o que passou, mas para reconhecer o que permanece. O homem que se permite essa escuta alcança outra forma de presença. A vida, assim habitada, oferece escolhas mais conscientes. E cada escolha desenha o contorno da permanência.
As civilizações antigas compreendiam isso. Os calendários não se limitavam à marcação de dias úteis. Eram convites à percepção mais fina da existência. Os ciclos repetiam o chamado ao essencial. Hoje, em meio a métricas e notificações, a escuta se dispersa. O tempo, em sua forma mais humana, precisa ser recolhido de novo.
A filosofia se dedicou ao tempo sem encerrá-lo. Heráclito via um fluxo irrecuperável. Agostinho intuía sua presença, mas admitia não compreendê-la. Ainda assim, tentaram. O pensamento, ao tocar o tempo, não o domina. Apenas o acompanha. E esse gesto basta para que algo de nós amadureça.
A primeira manhã do ano oferece esse momento. Entre os restos da celebração e o que ainda não começou, existe um ponto suspenso. É ali que a vida pede atenção. O tempo, nesse instante, não é calendário. É matéria sensível. É agora.
Resoluções pequenas costumam conter maior profundidade. Um telefonema sincero. Um retorno à escrita manual. Um café tomado com calma. Um olhar que permanece. Uma decisão silenciosa de proteger o tempo das distrações. Em tudo isso, a vida se concentra.
O tempo segue com sua delicadeza firme. Não se impõe. Não cobra. Convida. Janeiro chega como um sopro que pede escuta. A resposta não exige pressa. Basta que se esteja inteiro no instante.
Feliz tempo novo. Que ele seja vivido com presença.







