Depois do 8 de março
Passou o 8 de março e, mais uma vez, o debate sobre os direitos das mulheres perde espaço. Por um dia, empresas publicam homenagens, flores são distribuídas e discursos são feitos. No dia seguinte, tudo volta ao normal.
O 8 de março passou. A luta diária, não. As flores já murcharam.
Neste ano, inúmeros casos de violência contra a mulher e feminicídio já foram registrados. A cada novo caso, mais uma vida interrompida. Mais uma família marcada pela dor. Mais um silêncio que se instala.
Poderia escrever sobre outro assunto. Mas como falar de qualquer outra coisa enquanto seguimos enfrentando uma realidade em que mulheres ainda são agredidas, humilhadas e assassinadas por serem mulheres? E ainda uma realidade de desigualdades em diferentes espaços, como profissional, acadêmico e político.
A pauta não se encerra no 8 de março. E insistir nesses temas, ainda que pareçam repetitivos, é necessário. As manchetes podem parecer as mesmas. Mas as histórias nunca são. São vidas, sonhos, planos e afetos interrompidos.
E é preciso falar ainda mais quando, nos últimos dias, vimos cenas de violência circulando na internet como se fossem entretenimento. Com jovens rindo, compartilhando e celebrando atos repugnantes.
Sob a legenda “treinando caso ela diga não”, esse tipo de conteúdo incentiva e normaliza a violência. Violência contra a mulher não é tendência de internet. Não é “trend” nem vídeo viral.
Pode parecer inofensivo tratar o tema com ironia ou deboche, mas é assim que começa a normalização do desrespeito. É assim que se fortalece o pacto do silêncio que sustenta a impunidade.
Neste mês das mulheres — e em todos os outros —, o convite, e também a responsabilidade, é dirigido aos homens. É preciso que os homens se sintam responsáveis por enfrentar o comportamento de outros homens. Porque, enquanto homens se calam diante da violência de outros homens, meninos continuam aprendendo que ser homem também significa dominar, humilhar e ferir.
Observam e aprendem. Aprendem o que é permitido. Aprendem o que é tolerado. Aprendem que a violência pode não ter consequência. E assim ela continua.
E, enquanto isso continuar, o 8 de março seguirá sendo apenas um dia de homenagens, esvaziado de compromisso real. Apenas uma data no calendário, enquanto a violência e desigualdade permanece presente na vida cotidiana de milhões de mulheres.
* Jornalista pela Universidade Estadual de Minas Gerais (UEMG)



