Itaúna não é quintal: o republicanismo que a cidade merece

Itaúna não é quintal: o republicanismo  que a cidade merece

Alguns políticos envelhecem com a cidade. Outros, com o tempo, passam a falar como se a cidade fosse um prolongamento do próprio gabinete. Antônio de Miranda Silva, o Toinzinho, é um personagem do primeiro tipo há décadas. Eleito vereador pela primeira vez em 1996, reeleito sucessivamente, presidente da Câmara em mais de um ciclo, vice-prefeito, pré-candidato, figura central do noticiário político local. Essa longevidade, em si, não é um problema. Ela poderia ser virtude. A questão é o que se faz com ela. 

O problema não é pessoal. É institucional. Itaúna não precisa de santos, nem de vilões. Precisa de regras que valham quando convêm e também quando atrapalham. Precisa de procedimento que não seja figurino, usado ora como escudo, ora como faca. Precisa de republicanismo, aquele verbo simples que costuma faltar quando o poder se acostuma com a própria voz: decidir às claras, justificar por escrito, submeter ao colegiado quando o colegiado é a regra, tratar a Câmara como instituição e não como trincheira.

O que os episódios recentes sugerem é um padrão preocupante de condução. Em janeiro de 2026, por exemplo, o presidente da Câmara declarou a vacância do cargo de vice-prefeito em um movimento descrito como decisão tomada de ofício, após reunião interna no gabinete. Como é sabido, aquele processo foi uma verdadeira confusão. Cheia de idas e vindas.  Outro episódio recente, descreve uma reunião realizada sem transmissão ao vivo, no plenário. 

Não é preciso entrar no mérito do caso da Comissão Processante, nem nos méritos das CPIs que se tornaram a principal marca desta gestão de Toinzinho, para enxergar o que importa aqui. 

Quando um chefe do Legislativo escolhe a forma, ele escolhe também o recado. Se o recado é “eu resolvo”, a Câmara diminui. 

Se o recado é “a Câmara resolve”, a instituição cresce. 

A forma é substância. E em política municipal, onde tudo é perto, a forma é ainda mais substância, porque a vizinhança enxerga de perto.

Os jornais da cidade também registraram amplamente, no contexto da CPI que investiga Toinzinho, uma controvérsia construída em torno de minutos, protocolos e ausência de decisão formal em tempo útil, com uma cronologia detalhada que coloca a Presidência sob questionamento e aponta uma tentativa de deslocar o centro do debate do ponto essencial.  QUANDO O CONFLITO VIRA SEMPRE UM LABIRINTO PROCEDIMENTAL, O CIDADÃO COMUM SENTE QUE O JOGO FOI DESENHADO PARA ELE NÃO ENTENDER, LOGO, PARA ELE NÃO COBRAR.

E é aqui que o “modus operandi” aparece com nitidez: a política feita como administração do nevoeiro. A pauta vira fumaça. O rito vira pretexto. O plenário vira cenário. A transmissão vira detalhe. O documento vira tecnicalidade. O essencial, que é a responsabilidade pública, passa a ser empurrado para “depois”, “na próxima”, “vamos ver”.

A defesa mais comum a esse tipo de crítica é sempre a mesma: “estão perseguindo”, “é implicância”, “é política”. É verdade: é política. Só que política, num ambiente republicano, não é licença para governar por atalhos. Política é o lugar onde o poder aprende a se explicar.

Toinzinho construiu capital eleitoral real. Os dados públicos mostram presença contínua na disputa.  A pergunta que Itaúna precisa fazer, com serenidade e firmeza, é outra: esse capital está sendo usado para fortalecer a Câmara como instituição ou para concentrar a Câmara como instrumento?

Uma cidade não amadurece quando troca de lado. Ela amadurece quando troca de padrão. O padrão republicano é simples: publicidade como regra, plenário como instância, decisão motivada, coerência entre discurso e procedimento. O resto é costume. E costume, quando vira método de poder, costuma virar vício.

Itaúna merece uma Câmara que pareça menos uma presidência de sobrevivência e mais uma casa de regras. E isso começa quando o presidente da Câmara, qualquer que seja ele, entende que não preside para vencer disputas. Preside para proteger os procedimentos. Preside para honrar a instituição. Preside para que ninguém, nem aliado, nem adversário, consiga dizer que a lei foi dobrada no escuro.

Se a política local quer recuperar respeito, ela precisa de luz. E luz, em democracia municipal, tem um nome antigo: republicanismo.