Mestre semeador

Há encontros que acontecem por acaso. Outros, porém, parecem estar aguardando o momento exato para acontecer. O meu encontro com o professor Marco Elísio foi um desses.
Era o início da década de 2010. Eu caminhava pelas ruas do centro de Itaúna, observando aquilo que sempre me fascinou: os vestígios do passado. Procurava casas antigas, sobrados, construções que resistiam silenciosamente ao tempo. Não era historiador. Não pesquisava arquivos. Não imaginava o caminho que ainda seria aberto diante de mim. Era apenas um admirador da história da cidade onde nasci.
Na Rua Professor Francisco Santiago, tendo diante dos olhos a imponência da antiga Escola Normal — hoje Escola Estadual de Itaúna —, um sobrado chamou minha atenção. Não era apenas uma construção antiga. Havia algo naquele lugar que parecia guardar histórias ainda não contadas. Tentei fotografá-lo. Procurei o melhor ângulo. Nenhuma me satisfazia. Então apertei a campainha. Uma voz respondeu:
— Pois não?
Apresentei-me:
— Meu nome é Charles Aquino. Gostaria, se possível, de tirar uma fotografia desta casa.
Uma resposta ao item:
— Claro que não!
Por um instante, pensei que a conversa terminaria ali. Mas a voz continuou:
— Você poderá fazer muito mais do que um registro fotográfico. Entrar. Conversar.
O portão se abriu. Ali era um senhor alto, magro, de cabelos brancos, segurando um lenço branco nas mãos. Antes mesmo de qualquer apresentação formal, ele me entregou o lenço e disse:
— Garanta isso. Você vai precisar. O que começaremos agora provavelmente deixará o queixo caído. E deixou.
Naquele dia, atravessei um portão. Mas, olhando para trás, percebo que atravessei muito mais do que isso. Atravessei uma fronteira entre a simples curiosidade e a paixão pela história. Depois daquela porta, nunca mais fui o mesmo.
Muitos conheceram Marco Elísio Chaves Coutinho como escritor, ambientalista, defensor da cultura, homem de fé e servidor público, ou simplesmente professor Marco Elísio. Sua trajetória é extremamente reconhecida em Itaúna. Lecionou em diversas instituições, participou da vida cultural da cidade, dedicando-se à preservação do patrimônio, à educação e à valorização das tradições locais.
Mas quem teve o privilégio de conviver com ele de perto conheceu algo ainda maior — conheceu um semeador. Em um texto escrito após sua partida, em 2018, Marco Elísio foi comparado ao personagem Tistu, “o menino do dedo verde”, aquele que fazia florescer tudo o que tocava. Uma metáfora não poderia ser mais adequada.
Porque Marco não cultivava apenas jardins. Cultivava pessoas. Cultivava ideias. Cultivava sonhos. E, sobretudo, cultivava perguntas. Cada encontro era uma aula. Cada conversa se transforma em uma investigação. Cada dúvida tornava-se o ponto de partida para uma nova descoberta. Não havia respostas prontas. Havia pacotes.
Houve um episódio que ilustra bem o espírito generoso e a grandeza intelectual de Marco Elísio. Em determinado momento de minhas pesquisas, passei a me aprofundar na trajetória de seu pai, o Dr. Antônio Augusto de Lima Coutinho — O Doutor Coutinho.
Sua biografia, aliás, é indispensável para qualquer leitor que deseje compreender uma parte significativa da história de Itaúna e o legado de um homem que escolheu esta terra como sua, dedicando-lhe seus talentos, sua fé, sua atuação pública e seu amor até os últimos dias de vida.
À medida que avançava na investigação de documentos, relatos e registros sobre sua trajetória, crescia também minha admiração por aquela figura extraordinária. Em uma de nossas conversas, de maneira franca e bem-humorada, confessei ao Professor Marco Elísio:
— Marco, quanto mais pesquiso sobre seu pai, mais gosto dele. Acho que estou gostando mais dele do que de você. A resposta veio imediata, acompanhada de um sorriso sereno que lhe era característico:
— Então você está no caminho certo.
Naquele instante, compreendi algo que ia além da resposta simples. Marco Elísio não demonstrou qualquer vaidade ou ciúme da memória paterna. Pelo contrário. Como verdadeiro educador, alegre-se ao ver alguém descobrir, por meio da pesquisa, a dimensão humana e histórica daqueles que ajudaram a construir Itaúna.
Sua resposta revelou exatamente quem ele era: um homem que compreende que a história não pertence aos indivíduos, mas à coletividade; que o pesquisador deve seguir as evidências, as fontes e as trajetórias que encontra pelo caminho, ainda que essas o conduzam para além das figuras que inicialmente admirava.
Foi mais uma lição. Talvez uma das maiores. Marco ensinou que pesquisar não é procurar confirmações para nossas preferências, mas permitir que os documentos, as memórias e os fatos nos conduzam. E, naquele dia, ao dizer que eu estava “no caminho certo”, ele reafirmou aquilo que sempre encontrou cultivar em seus alunos e amigos: a liberdade de pensar, investigar e descobrir.
Por Charles Aquino



