SEM PALAVRAS
Memória
No mundo digital em que definitivamente estamos metidos, seja para o bem ou para o mal, muitas das coisas que até pouco tempo atrás nos pareciam indispensáveis viraram, na falta de uma definição melhor, obsoletas. Os dicionários são uma delas. Para quê ocupar tempo e espaço com um Aurélio em casa, se a inteligência artificial resolve minhas dúvidas em milésimos de segundos?
Pois, na contramão dos novos tempos, ainda tenho na estante alguns dessas jurássicas ferramentas. Ao lado de uma gramática e de um manual de estilo jornalístico, guardo com carinho meus dicionários. Alguns falam inglês, francês, alemão. Tem até de arabismos e nordestinês ! Destes aí até que abriria mão, em situação extrema, mas tem dois que não dispenso de jeito nenhum. Não dou, não troco, não empresto e não vendo.
O primeiro, magro para os padrões do gênero, tem 208 páginas e se chama O Pai dos Burros – dicionário de lugares-comuns e frases feitas . Segundo Humberto Werneck, escritor nascido em Belo Horizonte e vivendo em São Paulo, sua intenção ao escrever este, digamos, manual foi a obsessão com a funcionalidade da linguagem. “Se escrever vale a pena, deve ser para enunciar algo que se pretende novo.” Mas esclarece que não se trata de index prohibitorum . “Nada de polícia”, segundo ele.
O segundo, mais robusto, com 768 páginas, é o Dicionário Analógico da Língua Portuguesa – ideias afins/thesaurus , de Francisco Ferreira dos Santos Azevedo (1875–1942), lexicógrafo e estudioso da língua portuguesa. A mais recente edição desse precioso livro vem com um comentário de ninguém menos que Francisco Buarque de Holanda, artista que dispensa apresentações quando o assunto é o manejo das palavras. Esta obra distingue-se dos dicionários tradicionais por organizar o vocabulário a partir de ideias e campos semânticos, e não apenas pela ordem alfabética das palavras, permitindo ao leitor encontrar termos relacionados por afinidade de sentido, sendo especialmente útil para escritores, jornalistas, juristas, professores e estudiosos da linguagem.
Mas por que estou escrevendo sobre dicionários no dia em que minha mãe, Dona Marta, completaria 100 anos de nascimento? Explico: foi justamente pelo receio de me faltar palavras para homenagear essa senhora que, mal começado esse 26 de março de 2026, pedi ajuda aos meus queridos dicionários. Para evitar cair em clichês, me lembrei logo do “ pai dos burros ” e fui direto ao verbete “Mãe”. Lá está escrito o que se deve evitar nos momentos de louvor à nossa progenitora:
Amor de mãe.
Mãe desvelada.
Mãe é mãe.
Mãe extremosa.
Mãe só tem uma.
Ser mãe é padecer no Paraíso.
Ser uma segunda mãe para alguém.
Após fugir das armadilhas das frases feitas, fui atrás das melhores palavras para expressar meu afeto por essa mulher, mãe de quatro mulheres e cinco homens, que se desdobraram em netos, bisnetos e, em breve, trinetos... e assim caminha a humanidade. Pois essa foi a tarefa mais complicada, porque a língua portuguesa é uma das mais vastas. Mas, como bem disse Chico Buarque e a agora recém-octogenária Maria Lúcia, minha querida irmã, “palavra puxa palavra”, selecionei entre tantas algumas que se relacionam, de uma forma ou de outra, com a palavra MÃE, nas páginas do meu Dicionário Analógico. Aqui estão; façam bom uso:
Causa, efeito, motivo, origem, procedência, nascença, processão, proveniência, vida, princípio, nascimento, elemento, objeto, fator, razão, semente, sementeira, fundamento, mola real, título, agente, força motriz, alicerce, base, fonte, primórdio, matriz, manancial, cabeceira, gênese, embriogenia, embrião, teta, geração, genitura, pivô, eixo, chave, alavanca, razão por quê, pé, princípio, influência, rudimento, ovo, germe, plúmula, rebento, rebentão, renovo, grelo, botão, gema, vergôntea, broto, raiz, radical, étimo, núcleo, tronco, estirpe, linhagem, raça, raiz mestra, ascendência, viveiro, cuna, incunábulo, berço, pátria, nascedouro, minadouro, ventre, ninho, terra natal, foco, genitora, genetriz, autora... mamãe.
Tem muito mais. É como coração de mãe: cabe tudo. Mas vou ficando por aqui e deixar de conversa mole.
Parabéns pelos seus 100 anos, Dona Marta!
Um beijo do seu filho.
Ricardo





