UIT “INSATISFATÓRIA” - Curso de Medicina da Universidade de Itaúna é reprovado

Instituição itaunense recebeu nota 2 no Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica, considerada “insatisfatória”

UIT “INSATISFATÓRIA” - Curso de Medicina  da Universidade de  Itaúna é reprovado
Foto: Reprodução /UIT

Prédios grandiosos estão vazios e nota no Enamed mostra que instituição está em decadência por causa do formato

A propaganda afirma que se trata de “uma grande universidade” e, olhando as imagens aéreas, essa afirmativa pode, sim, ser constatada. Segundo informações, a área do Campus Verde da UIT, localizado em Itaúna, é de 1.580.000 metros quadrados (um milhão, quinhentos e oitenta mil – compare isso aos lotes de 200 m² dos loteamentos populares). Como estamos no “país do futebol”, isso representa nada menos do que 158 campos de futebol, tamanho oficial estabelecido pela FIFA, colocados lado a lado. O tamanho da Universidade de Itaúna, quando se trata de avaliar as extensões prediais, também pode ser dito “grande”, sem nenhum problema, ante as fachadas que se visualiza nas imagens dos vários e elegantes prédios construídos no campus.

A “grandiosidade” alardeada na propaganda, porém, começa a diminuir quando se analisa, por exemplo, a pontuação obtida junto ao Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed), divulgado na segunda-feira, dia 19. A Faculdade de Medicina da Universidade de Itaúna recebeu nota 2, considerada insatisfatória pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). A Faculdade de Medicina da Universidade de Itaúna, que tem mensalidade em torno de R$ 8 mil, está dentre as 107 mais mal avaliadas do citado exame, dentre 351 cursos avaliados.

Direção se manifesta

No site da UIT, é apresentada a propaganda, em banner, em que aparece a Universidade de Itaúna com a “Nota Máxima do MEC” (5), concedida no início de 2025, referindo-se à avaliação da escola, relativo à estrutura oferecida. Sobre a nota obtida no Enamed, a instituição se manifestou em postagem no mesmo site, datada de 21 de janeiro de 2026. Nela, a direção da UIT destaca que “tais indicadores representam um recorte específico de desempenho discente (dos alunos) em avaliação externa, não se confundindo com a análise global da qualidade do curso, nem com a estrutura acadêmica, pedagógica e institucional da Universidade”.

E ressalta que, “no ano de 2025, o curso de Medicina da Universidade de Itaúna foi submetido à avaliação presencial (visita in loco) realizada por comissão designada pelo Ministério da Educação (MEC), ocasião em que obteve Conceito 5, a nota máxima no sistema regulatório federal. Essa avaliação considerou, de forma ampla e criteriosa, aspectos como projeto pedagógico, corpo docente (professores), infraestrutura, gestão acadêmica e condições de ensino-aprendizagem, atestando de maneira inequívoca a excelência do curso”.

Para especialistas na área ouvidos pela reportagem, a afirmação pode ser entendida no seguinte contexto: “A escola oferece as melhores estruturas, mas, se o aluno não aprende, não é nossa culpa!”. Não nessas palavras, mas a manifestação postada caminha nesta direção, segundo as análises. Seria, como disse um dos ouvidos, que tem especialização em ensino universitário, a mesma coisa se o fabricante de airbag para um automóvel dissesse, para justificar a falha de seu equipamento: “Utilizamos os melhores produtos na fabricação, os melhores equipamentos e ferramentas, os melhores funcionários, portanto, se o airbag não funcionou na hora do acidente e a vítima morreu, não temos culpa”, comparou.

CFM entende que médico malformado não deve ingressar no mercado

Ou seja, para o Conselho Federal de Medicina – CFM, os 13.871 alunos das faculdades de Medicina que obtiveram as notas 1 e 2 devem ser barrados no ingresso ao mercado. Trocando em miúdos, independentemente da estrutura que as escolas oferecem, se a nota do Enamed é considerada insatisfatória, o aluno não está pronto para clinicar, representando, assim, um risco para a saúde das pessoas caso eles assumam a prática da Medicina, visto que não estariam aptos a tanto.

Essa posição do CFM foi colocada em reportagem do jornal “O Tempo”, publicada na quarta-feira, 21, repercutindo o resultado das notas do Enamed-2026. Conforme a reportagem, para o presidente do CFM, José Hiran Gallo, os números confirmam um problema estrutural grave na formação médica brasileira. “São mais de 13 mil graduados em medicina que receberão diploma e registro para atender a população sem terem competências mínimas para exercer a medicina”, alertou o presidente do CFM. 

Cabe aqui o questionamento se a alegação de que a oferta de boa estrutura, corpo docente gabaritado, bom projeto pedagógico, gestão acadêmica, têm sido o suficiente para formar médicos aptos a clinicar, mas que não são capazes de obter nota considerada satisfatória em um exame teórico. O que vale é a (aparência da) sala de aula ou o conteúdo aprendido e apreendido?

Instituições privadas, as piores

Outra questão a ser avaliada é a máxima de que “a privatização”, apregoada pelos grupos ideológicos mais à direita no espectro político como solução para as questões estruturais do País, é realmente o caminho a ser seguido. Na educação, pelo que se está apurando, a situação é outra. As instituições de ensino públicas estão bem à frente quando se trata de qualidade final alcançada.

Esse exame de alunos dos cursos de Medicina repete o que se tem encontrado em outras áreas. Alunos das faculdades públicas têm se saído muito melhor nas avaliações. E esse sinal é visto desde as avaliações do ensino médio, assim como na graduação superior. Escolas públicas têm melhor aproveitamento. 

No Enamed, por exemplo, das escolas públicas federais, 87,6% dos cursos alcançaram os conceitos mais altos, enquanto nas estaduais o índice foi de 84,7%. Em outra ponta, as piores performances ficaram reservadas às instituições de ensino privadas. 

As instituições mineiras com piores notas, além da UIT, são: 

- Faculdade de Medicina de Barbacena, Barbacena, nota 2; 

- Centro Universitário Presidente Antônio Carlos (Unipac), Juiz de Fora, nota 1;

- Universidade Vale do Rio Doce (Univale), Governador Valadares, nota 2;

- Faculdade da Saúde e Ecologia Humana (FASEH), Vespasiano, nota 1;

- Centro Universitário Faminas (Unifaminas), Muriaé, nota 2; 

- Centro Universitário Unifacig, Manhuaçu, nota 2;

- Faculdade Dinâmica do Vale do Piranga (FADIP), Ponte Nova, nota 2;

- Faculdade de Minas (FAMINAS-BH), Belo Horizonte, nota 2;

- Centro Universitário Vértice (Univértix), Matipó, nota 2;

- Faculdade Atenas Sete Lagoas, Sete Lagoas, nota 2;

- Faculdade Atenas Passos, Passos, nota 2.

Dessa forma, a fala de uma das pessoas ouvidas pela reportagem pode resumir a situação: “Uma grande universidade que não consegue formar um profissional mediano, ao menos, e coloca no mercado profissional em condições ‘insatisfatórias’ para o exercício da profissão”.