Nem sobre Dona Beja, nem sobre Ângela Diniz

Nem sobre Dona Beja, nem sobre Ângela Diniz

Há poucos dias, atrasada e fora do hype, assisti à nova versão de Dona Beja, produzida pela HBO Max e protagonizada por Grazi Massafera. Logo em seguida, comecei a assistir à série Ângela Diniz: Assassinada e Condenada, também da HBO Max e estrelada por Marjorie Estiano. À primeira vista, duas histórias diferentes. Mas bastaram poucos episódios para perceber que, no fundo, ambas contam a mesma história.

Separadas por quase dois séculos, Dona Beja e Ângela Diniz têm algo em comum: desafiaram os limites impostos às mulheres de suas épocas e, por isso, foram julgadas muito antes de qualquer tribunal. Dona Beja viveu no início do século XIX; Ângela Diniz, na década de 1970. As duas foram condenadas pela sociedade simplesmente por serem quem eram e, principalmente, por exercerem uma liberdade que sempre foi permitida aos homens.

Nascida em Minas Gerais, Ana Jacinta, conhecida como Dona Beja, tornou-se uma personagem lendária na região de Araxá. Relatos contam que ela teria fundado um bordel de luxo, frequentado por figuras importantes da política e da economia regional. Sua história está associada à beleza, ao enfrentamento dos padrões morais e à ascensão social em plena época do Império.

Outros relatos afirmam que Dona Beja recusou o destino esperado para uma mulher de seu tempo: o casamento arranjado, a submissão e a vida doméstica. Mas a realidade é que, após ser sequestrada e violentada por um homem poderoso, perdeu aquilo que a sociedade chamava de “pureza” e, consequentemente, qualquer possibilidade de seguir o caminho considerado honrado. Restou-lhe sobreviver à margem da moral que os próprios homens haviam criado. Tornou-se cortesã, passou a negociar com a elite masculina e transformou-se, ao mesmo tempo, em objeto de desejo e símbolo de condenação.

Se o que chocou no século XIX foi o fato de Beja desafiar o patriarcado e os códigos de conduta de sua época, o que mais me chocou ao terminar a série foi perceber que a sociedade mudou muito menos do que gostaríamos de admitir. 

É claro que mudaram as leis e os movimentos em busca de direitos, que estão mais fortalecidos. Mas ainda existe um problema quando falamos sobre poder feminino, moralidade pública e autonomia sobre o próprio corpo.

Ainda há quem enxergue a mulher como propriedade do homem. Ainda há quem marginalize mulheres que não se casam, que não têm filhos ou que simplesmente fazem escolhas diferentes das esperadas. Assim como retratado na série, ainda incomoda quando uma mulher exerce a mesma liberdade historicamente concedida aos homens.

E essa lógica não atinge apenas as mulheres. A série também retrata personagens que sofrem por não corresponderem à norma heteronormativa e outros que são discriminados por sua cor. Mudam os personagens, mudam os séculos, mas permanece a mesma estrutura social que marginaliza quem foge do padrão considerado aceitável. Em muitos aspectos, continuamos presos aos mesmos julgamentos e tudo isso parece familiar. Esses mesmos corpos continuam sendo marginalizados, violentados e silenciados nos dias de hoje.

Reconheço os elementos ficcionais presentes na série. Afinal, trata-se de um remake da novela exibida pela Manchete em 1986, adaptado para dialogar com o público contemporâneo. Ainda assim, quase quarenta anos depois da primeira versão para a televisão, Dona Beja continua parecendo uma personagem à frente do seu tempo.

Já Ângela Diniz: Assassinada e Condenada, nos transporta para outra época, mas não para outra realidade. Ângela nasceu em Belo Horizonte, em 1944, sendo conhecida por ser bonita, elegante, independente e presença constante na alta sociedade mineira e carioca. Ela construiu uma imagem que, para muitos, era considerada transgressora. Separou-se, teve três filhos, mudou-se para o Rio de Janeiro e escolheu viver a vida de acordo com as próprias vontades.

Foi assassinada com quatro tiros em sua casa de praia, em Búzios, em 1976. Havia iniciado um relacionamento com Doca Street poucos meses antes, que era conhecido por ser ciumento e controlador. Relatos contam que o crime aconteceu após uma discussão entre os dois.

Mas o aspecto mais revoltante dessa história talvez não seja apenas o feminicídio. É o julgamento. A defesa sustentou a tese da “legítima defesa da honra”, argumentando que Doca teria reagido a uma suposta ofensa à sua honra masculina. Em um primeiro julgamento, foi condenado a apenas dois anos de prisão. A indignação provocou mobilização do movimento feminista e da sociedade civil, resultando em um novo julgamento, em 1981, quando a pena foi elevada para 15 anos.

Pode parecer inacreditável, mas a tese da “legítima defesa da honra” só foi declarada inconstitucional pelo Supremo Tribunal Federal em 2023. Eu não tinha dito que pouca coisa mudou?

A fronteira entre realidade e lenda, no caso de Dona Beja, é estreita. Há poucos documentos sobre sua vida, o que abriu espaço para diferentes versões, obras literárias e adaptações para a televisão. Mas, independentemente do que aconteceu ou não, sua história continua representando a ruptura das expectativas impostas às mulheres, o questionamento da moral sexual dominante e a capacidade de enfrentar estruturas de poder.

No caso de Ângela Diniz, a história está amplamente documentada, com registros, depoimentos, áudios e processos judiciais. E o que impressiona é o fato de uma mulher assassinada ter precisado enfrentar, mesmo depois de morta, um julgamento moral diante da sociedade. 

No fim das contas, este nunca foi um texto sobre Dona Beja nem sobre Ângela Diniz. É sobre uma sociedade que ainda transforma a liberdade feminina e de diferentes existências em motivo de condenação. Histórias de épocas distintas que continuam sendo um espelho assustador do presente.

Por Brígida Gonçalves

Jornalista pela Universidade Estadual de Minas Gerais (UEMG)