RAMON RODRIGUES... El Mexicano
São 11 horas e, pela sua ZYZ4, Rádio Clube de Itaúna, sob o patrocínio da Loja Philips, distribuidora dos famosos produtos Liqui-Gás, tem início mais um programa do Capote Plate Club, sob o comando dos apresentadores: Jairo Gonçalves, Tomáz Augusto Pércope, Mauricio Pércope, Idervan Nogueira Júnior, Ivar Dornas, Ronaldo Pércope e Artur Primo.
Nesse horário, cujo fundo musical era Afrikan Beat, 90% dos rádios estavam sintonizados na emissora local. Era um programa de grande audiência na cidade e feito por um grupo de rapazes no final da década de sessenta. Naquele dia, o programa tinha uma notícia bombástica, pois iriam entrevistar a americana “Susie”, recém-chegada à cidade através de programa de intercâmbio do Rotary. Afirmo que era uma notícia bombástica, porque a chegada da americana na cidade tinha sido uma festa. Era a primeira intercambista do Rotary a vir para Itaúna, e a cidade inteira estava curiosa para ver, ouvir ou mesmo falar, mesmo não entendendo nada de inglês, com a estrangeira. O Dr. Guaracy, na época diretor da Escola Normal, até dispensou as aulas no educandário e colocou todos, em fila indiana, na Rua Getúlio Vargas, para recepcionar a visitante ilustre. Tava um frenesi danado em torno da recém-chegada, e a turma do Capote Plate Club iria ter o privilégio de fazer a primeira entrevista no programa do dia seguinte.
A notícia chegou como uma bomba à Rua João de Cerqueira Lima, precisamente na sede do Bloco do Clube dos Zulus.
Eu ouvi no rádio o Jairo da Artumira falando… — tentava explicar, nervosamente, o Agripina, irmão caçula do Márcio Timbuca. — O pessoal do Capote vai entrevistar a americana no programa de amanhã!
Vamos com calma, Agripina! — falava o Paquinha, um dos diretores do Bloco dos Zulus e também componente da equipe de apresentadores do Programa Zulu Arco e Festa, que ia ao ar a partir das 17 horas na mesma emissora.
Temos de arrumar uma atração também para o nosso programa, e rápido, senão eles vão fazer mais sucesso que a gente — argumentava o Julinho Fogueteiro, entrando na conversa.
Em poucos minutos, já se formava um bolo de gente na porta da sede, e a nervosia era geral.
Marque uma reunião para hoje às 14 horas, para que possamos resolver o que fazer — exclamava o Sérgio Lacel. — Cancele o treino de futebol de salão e convoque todo mundo.
No horário marcado, a sede estava apinhada de gente.
Quem nós vamos entrevistar? Indagava, preocupado, o Xico Preto para o Celinho Íngua do Alvará.
Já vasculhamos a cidade inteira e os únicos estrangeiros que encontramos foi o espanhol do Grande Hotel, o Dr. Shmit, engenheiro da Usina São João, e o Pasquale Corsine, da fábrica de tecidos da Itaunense, mas eles já são muito conhecidos e a entrevista não vai fazer sucesso. Tem de ser alguém diferente! — exclamava, preocupado, o Dinart para a roda formada pelo Imar, Xandoca, Moacir Porão, Fernando Russo, Luciano Piranha, Ricardo Pão Veio, Sérgio Tarefa e José Maria Freitas.
Ô, gente, tem um pessoal de circo na Pensão do Ivo, na Praça da Estação! Exclamava entusiasmado o Vandão. Quem sabe nós entrevistamos a mulher que engole fogo ou o anão que anda na corda bamba?
E nada de solução. Já se aproximava do horário do programa na Rádio Clube, e a reunião continuava a toda, com sugestões daqui e preocupações dali. E nada!
Pessoal, quem sabe nós não inventamos um estrangeiro para entrevistar? Exclamou o Camelo, quase que num grito de eureca.
Inventar como? — quis saber o Virgílio Cocó.
É alguém de nós passar por estrangeiro, não é, Camelo? Falou, aflito, o Roosevelt.
A ideia foi aprovada na hora, mas o problema ainda continuava. Qual o estrangeiro a ser imitado e por quem? Sugestões daqui, sugestões dali... Às 16h50, a zuluzada rumou para a Rádio Clube, que ficava na Rua Godofredo Gonçalves, onde mora hoje o Lucas Lima. Ficou decidido que a entrevista seria levada ao ar naquele dia, bem como o componente do bloco que representaria o difícil papel de estrangeiro em visita a Itaúna. Quando o relógio da Matriz cravou 17 horas, em todas as rádios da cidade, a voz possante do Paquinha anunciou:
No ar, sob o patrocínio da Farmácia Brasil, mais um programa Zulu Arco e Festa! E entra o fundo musical…
“…Apegado na bandeira
Apegado na bandeira
Da Senhora da Abadia
Ela veio pedir esmola
Ela veio pedir esmola
Para a festa do seu dia…”
Ouvintes da Rádio Clube — prosseguiu o Paquinha. Hoje, no final do programa, entrevistaremos um visitante ilustre que está de passagem por Itaúna. Trata-se do famoso Ramon Rodrigues, mexicano da cidade de Guadalajara, que falará com exclusividade com os ouvintes desta emissora.
E o telefone da Rádio disparou a tocar, com pessoas de diferentes bairros querendo saber detalhes do tal mexicano de Guadalajara.
É moço e bonito como o cantor Miguel Aceves Mejia? — quis saber um ouvinte da Vila Mozart.
Ele vai cantar alguma canção mexicana? — quis saber outra.
Um repórter, enviado às pressas pelo Piu, da Folha do Oeste, apareceu para entrevistar o ilustre visitante.
Em que hotel ele está hospedado? Perguntou uma ouvinte da Vila Padre Eustáquio.
É parente do Cantinflas? Quis saber um menino da Praça da Estação.
Ele usa sombreiro? Acho tão bonitinho aquele chapelão na cabeça! Indagou uma moradora da Rua da Ponte.
E o programa prosseguia, a expectativa aumentava, e o Ronaldo Passarinho e o Murango já não aguentavam mais atender tantos telefonemas.
Vai ser um sucesso total! — exclamava a zuluzada que lotava o auditório da emissora, enquanto o Ramon Rodrigues itaunense era exaustivamente treinado pelo Imar, Cangosto, Walmir Falcão, Camelo, Beatriz Chaves e Alvarina do que e como falar em espanhol.
Às 17h40, o locutor anuncia:
Sob o patrocínio da Farmácia Brasil, com a palavra o nosso ilustre convidado, o mexicano Ramon Rodrigues da cidade de Guadalajara!
Buenas tardes, estimados oyentes! Muchachos y muchachas, es com mucho gusto estar hablando com ustedes...
Após o programa, a zuluzada, eufórica, pois tinha entrevistado um estrangeiro antes do programa do Capote Plate Club, subia a Rua Godofredo Gonçalves rumo à sede do bloco e, entre hipes e hurras, jogavam para o alto o Ricardo Pão Veio, ou melhor, o el mexicano, Ramon Rodrigues da cidade de Guadalajara…
Por Sérgio Tarefa
Membro da Academia Itaunense de Letras





