Sobre linguagem, gírias e expectativas de gênero
Cada palavra e expressão é imbuída de significado e intenção. As palavras são signos constituídos de significante (forma sonora ou escrita) e significado (conceito mental), convencionados socialmente e essenciais para a comunicação e o pensamento.
Em tempos de redes sociais, isso se torna ainda mais complexo. Os signos linguísticos circulam em diferentes grupos e nichos, cada qual com suas próprias dinâmicas e sentidos.
Há poucos dias, viralizaram nas redes sociais as gírias da atual geração, a geração alfa, que compreende os nascidos entre 2010 e 2025, a primeira 100% nativa digital, criada com smartphones e inteligência artificial... “betinha”, “sigma”, “farmar aura”. O que é isso que os jovens estão dizendo e que chama tanta atenção?
Quando entendemos que as palavras são mais do que aparentam, começamos a buscar seus significados. E é preciso ampliar um pouco para que essa discussão faça sentido.
Recentemente, pesquisadores da FGV analisaram 85 grupos abertos do Telegram no Brasil, formados por comunidades com conteúdo masculinista entre 2015 e 2025 — a chamada “machosfera”. A análise aponta que essa bolha propagadora de discursos misóginos também se estrutura politicamente.
Em síntese, o estudo observou como esses grupos reagem a momentos importantes da conjuntura nacional, como políticas públicas, eleições e debates sociais. Um dos alvos recorrentes de ataques: a Lei Maria da Penha. Novidade zero.
Segundo os dados, a machosfera brasileira reúne mais de 220 mil usuários distribuídos em diferentes categorias, que vão desde desenvolvimento pessoal até misoginia explícita, somando milhões de publicações e interações.
Nesses espaços, homens compartilham ideias misóginas que já possuem, ao mesmo tempo em que constroem repertório para alimentar o ódio às mulheres. São ambientes de formação e socialização ideológica, frequentados por meninos, jovens e adultos.
Se isso ainda parece distante, basta observar como essa lógica aparece em produções recentes. A série Adolescência, da Netflix, retrata as dinâmicas ocultas das plataformas digitais. O protagonista, um adolescente com aparência inofensiva, é classificado como um “macho beta”, alguém em posição inferior numa hierarquia masculina informal que circula nesses ambientes.
Essa gramática é amplamente difundida em comunidades masculinistas online. Nelas, os homens são classificados como alfas: dominantes, desejáveis, assertivos; ou betas, vistos como rejeitados; entre outros rótulos como red pill e incel.
Em resumo, esses grupos compartilham uma visão hierárquica das relações de gênero: homens competem entre si, enquanto mulheres são posicionadas como prêmio, validação ou ameaça.
Até aqui, infelizmente, nada de novo. Mas por que isso é tão perigoso?
A misoginia nos meios digitais se amplifica de forma difícil de dimensionar. E, como propõe a pesquisadora Beatriz Accioly Lins, não existe algoritmo sem gênero.
Isso significa que a misoginia não está apenas nos discursos, mas também inscrita no funcionamento das plataformas. Corpos femininos e a violência contra as mulheres se tornam matéria-prima para monetização, enquanto meninas e mulheres são penalizadas nesse sistema, e meninos passam a ser socializados dentro dessa lógica.
Esses conteúdos misturam frustração pessoal, discursos antifeministas e críticas às mudanças sociais para sustentar explicações simplificadas e, muitas vezes, deterministas, sobre relações afetivas e sociais.
Ao observar esse cenário, é possível perceber que muitas expressões hoje usadas por crianças e pré-adolescentes, e que viralizaram recentemente, parecem dialogar, ainda que de forma ressignificada, com esse repertório. Não se trata de uma relação direta, mas de um processo de circulação e ressignificação de linguagens no ambiente digital.
Conforme apontado pelos próprios jovens, “betinha” serve para descrever alguém inferior; “sigma”, alguém independente e bem-sucedido; enquanto “farmar aura” é construir a imagem de alguém interessante e legal.
O incômodo não está na novidade das palavras, mas no fato de que elas não são vazias de sentido. A geração alfa, evidentemente, ressignifica esses termos para o seu contexto. O que surge como linguagem marcada em fóruns misóginos pode se transformar em piada, meme ou rótulo genérico. Ainda assim, é preciso olhar para o que está em jogo.
Muitas dessas expressões carregam significados que refletem comportamentos e dinâmicas dessas comunidades. A violência não começa no ato extremo — ela se constrói antes, nas expectativas de gênero, nas classificações masculinas, nas linguagens digitais e nos regimes de exposição pública. E isso tem repercussões no cenário atual em que vivemos, marcado pelo machismo estrutural e pela violência de gênero.
Diante disso, o enfrentamento passa, necessariamente, pela educação e pela desconstrução desses padrões, inclusive dentro de casa, nas conversas com crianças e adolescentes.
Esse cenário exige atenção. Compreender a linguagem é, também, uma forma de compreender o mundo que estamos ajudando a construir.
Por Brígida Gonçalves,
Jornalista pela Universidade Estadual de Minas Gerais (UEMG)





