MARÇO - Violência contra a mulher é real
Poder público e comunidade colocam o tema em debate no Centro-Oeste de Minas. Poder público é ausente na promoção do debate em Itaúna
O mês de março chega ao final e os números da violência contra a mulher, em todo o País, mostram que o público feminino continua sofrendo agressões, todos os dias, a todo instante. E os agressores são homens. A cada dia, a manchete de pelo menos um crime cometido contra a mulher pelo fato de ela ser mulher estampa as manchetes da imprensa nacional. O Brasil ocupa o 5º lugar no mundo em número de mortes violentas de mulheres.
Conforme dados divulgados na mídia nacional, em 2025, foram registrados 1.568 feminicídios no Brasil, sendo esse o maior índice dos últimos 10 anos para esse tipo de crime. E a maioria dos assassinos são pessoas próximas das vítimas, como companheiros e ex-companheiros. E Minas Gerais não fica à parte neste crescimento da violência contra as mulheres. Em 2025, foram 125 mil registros de violência contra as mulheres em todo o estado. O número de feminicídios registrados até outubro de 2025 chegou a 139 mulheres mortas. E o ano de 2026 não apresenta boas expectativas: 32 vítimas de feminicídio foram registradas apenas nos meses de janeiro e fevereiro deste ano.
Itaúna segue nomesmo compasso da violência
Segundo dados de levantamento consultado pela reportagem na Secretaria de Justiça e Segurança Pública de Minas Gerais (Sejusp-MG), em 2025, foram registrados 863 casos de violência contra a mulher, em Itaúna. E, nos meses de janeiro e fevereiro deste ano, a situação parece não melhorar: 127 registros. Para se ter uma noção do que representam esses números, a vizinha Pará de Minas, com população idêntica à nossa, registrou bem menos casos em 2025: 541. E, nos dois primeiros meses de 2026, menos de cem ocorrências (99) de violência contra a mulher.
E quando a questão se trata de registro de feminicídios – assassinato da mulher pelo fato de ela ser mulher – a situação é ainda pior: em 2025, foram registrados dois casos em Itaúna. E, nos meses de janeiro e fevereiro deste ano, já foram registrados outros dois casos. Em comparação, Pará de Minas não tem registros de feminicídios nos meses de janeiro e fevereiro de 2026, nem tampouco no ano de 2025.
Poder público precisa assumir dianteira no debate
A reportagem da FOLHA apurou que, neste ano, no dia 10 de março, aconteceu uma manifestação em alusão à violência contra a mulher: a 13ª Caminhada “Seu silêncio pode ser fatal”. A manifestação partiu, como nas vezes anteriores, da cidadã Beth Souza, criadora do evento, além de segmentos da sociedade, como a comunidade escolar do Bairro São Geraldo e lideranças do bairro, e contou com apoio de instituições diversas da sociedade civil, como escolas, OAB, Rotary (Casa da Amizade) e Polícia Militar, além de autoridades. Setores da Prefeitura também apoiaram o evento.
Diferente do que ocorre em Itaúna, em que a sociedade civil toma a dianteira, em cidades da região, o poder público assume a frente, principalmente as câmaras de vereadores, visto que o Legislativo deveria ser o espaço de debate. Em Divinópolis, por exemplo, a Câmara promoveu uma audiência pública, no dia 11, colocando o problema em debate. Em Pará de Minas, nesta semana, mais precisamente na quarta-feira, 25, a Câmara Municipal e a sociedade civil promoveram o II Fórum de Enfrentamento à Violência Contra Meninas e Mulheres.
Em Formiga, por sua vez, o campus local do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Minas Gerais (IFMG) encabeçou o movimento para levar a questão ao debate popular. Em Itaúna, envolta em “CPIs”, a Câmara Municipal não levantou a questão, a não ser em uma publicação no site da entidade, com abordagem do assunto. A Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher, que tem as duas vereadoras desta legislatura, Márcia e Carol, e mais o edil Da Lua, em sua constituição, ao que parece, nem se reuniu neste mês de março.
A religião e a falta de iniciativas
Uma outra questão apontada pelos analistas é que, mesmo com o aumento das manifestações de religiosidade – tanto por parte de evangélicos como de católicos, principalmente –, o tema não tem sido levantado pelas lideranças religiosas. Por parte do público evangélico, a pregação tem sido muito no sentido de que “a mulher deve obediência” e, pelo lado católico, a própria constituição de poder da igreja aponta para a colocação da mulher em um estágio abaixo do homem. “Não há mulher celebrando missas, não há bispas...”, ironizam os críticos.
Com a força que o debate religioso tem ganhado nos tempos atuais, esperava-se que o tema de combate à violência contra a mulher fosse mais presente nas igrejas, pelo menos no mês de março, o “Mês da Mulher”. Mais um mês março se vai sem que o tema tenha ganhado destaque...





