Cultura literária - O maior desperdício é o desperdício de gente: faça valer a sua própria história

Cultura literária - O maior desperdício é o desperdício de gente: faça valer a sua própria história

Há muitos anos, quando eu ainda dava meus primeiros passos na vida acadêmica, um professor, desses que atravessam a nossa história como uma marca d’água, me disse uma frase que nunca mais saiu de mim: “O maior desperdício é o desperdício de gente.”

Na época, talvez eu não tivesse a dimensão completa da força que havia ali, mas, aos poucos, essa frase se tornou minha bússola, virou critério e forma de caminhar. E, sinceramente, continua fazendo tanto sentido hoje quanto fazia naquela sala em que a ouvi pela primeira vez.

Porque desperdício de gente não é apenas perder talentos brilhantes, é desperdiçar histórias, vozes, experiências, perspectivas únicas que poderiam transformar o mundo ao redor ou, ao menos, tocar alguém. É permitir que alguém acredite que não tem nada a oferecer, ou assistir a um potencial enorme se encolher porque ninguém o enxergou, orientou nem lhe deu espaço.

Ao longo da vida, como professora, gestora acadêmica e orientadora de projetos, aprendi que cada pessoa carrega um repertório precioso, um tipo de saber que não pode ser encontrado em livros, diplomas ou currículos. É um brilho próprio, às vezes tímido, às vezes vibrante mas sempre presente e quando esse brilho encontra direção, intenção e apoio, ele se expande.

É por isso que, em cada projeto que assumo, busco acolher aquilo que cada pessoa tem de melhor: sua sensibilidade, sua vivência, sua forma singela ou intensa de se expressar, porque ninguém precisa se encaixar no formato idealizado de “autor”, “artista” ou “profissional perfeito”. O verdadeiro trabalho está em potencializar o que já existe, em fazer valer a força que cada um já carrega, mesmo quando ainda não percebeu.

No campo literário, isso se torna ainda mais evidente. Existe quem escreva com leveza, quem escreva com dor, quem escreva com memória, quem escreva com humor e há espaço para todos. O que falta muitas vezes não é capacidade, mas alguém que ajude a organizar ideias, estruturar caminhos, fortalecer a voz, iluminar as possibilidades, para revelar o que já é potência.

E é exatamente aí que a frase volta a ecoar. Não desperdiçar gente é não desperdiçar histórias.

É cuidar para que ninguém seja silenciado pelo medo, pela insegurança ou pela falta de orientação. É acompanhar, incentivar, oferecer ferramentas e olhar atento. É pegar pela mão até que a pessoa perceba que consegue caminhar sozinha.

Ao final, o que move meu trabalho, seja na literatura ou em qualquer projeto é a convicção de que cada pessoa é um universo esperando para ser reconhecido e que não existe investimento mais bonito do que ajudar esse universo a florescer.

Porque, de todos os desperdícios possíveis, o da grandeza humana é realmente imperdoável. E, enquanto eu puder, reforço o lembrete constante: ninguém deve ser desperdiçado. Nunca.

Por Zaira Bernardes – Donina Comunicação & Editora

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