CONFIDENCIAL - A FOLHA e os arquivos da Ditadura
Historiador teve acesso a arquivos da Polícia Política da Ditadura Militar em que encontrou dados sobre o monitoramento da imprensa itaunense
Quais os riscos que um jornal do interior mineiro traria à estrutura de poder de um país? Essa pode ser a primeira pergunta a ser feita quando se tem acesso a arquivos da polícia política (antigo Serviço Nacional de Inteligência - SNI) do governo brasileiro no período de sobrevivência da Ditadura Militar e, ainda, alguns anos após a reinstalação do Estado Democrático no País. O historiador Charles Aquino, em parceria com a equipe de redação da FOLHA, foi buscar respostas e, principalmente, informações sobre esse período, quando o SNI monitorou o jornal e os jornalistas da “Folha do Oeste”, atual FOLHA DO POVO, nos anos 1970/1980 até início dos anos 1990.
Nomes como os de Célio Silva, José Waldemar Teixeira de Melo, Anis José leão, Juarez Heleno Campos e Sérgio Cunha aparecem nesses registros, alguns com mais ênfase, outros não, porém todos eles sendo monitorados pelo SNI, e relatórios com o título “confidencial”, por se tratar de informações sigilosas, destinadas a manter o controle sobre a situação nacional. A partir desta edição da FOLHA e em edições seguintes, vamos publicar detalhes sobre esse trabalho de Charles Aquino, com apoio da equipe de redação do jornal.
Quem é Charles Galvão de Aquino, o historiador
Nascido em Itaúna, o professor, historiador e pesquisador Charles Galvão de Aquino é mestre pelo programa de Pós-Graduação em História (PGHIS) da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ). Graduado em História pela Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG) - Divinópolis MG, com Projetos em Iniciação Científica de Pesquisa e Extensão vinculado ao PROINPE UEMG, FAPEMIG, PAPq e PAEx.
Tem experiência na área de História na conservação, tratamento, organização e divulgação do Arquivo Histórico de Pitangui nos séculos XVIII, XIX e XX. Genealogista e pesquisador em arquivos Coloniais com leitura paleográfica. Pesquisa nas seguintes áreas: História do Integralismo em Minas Gerais, História dos Ciganos em Minas Gerais, História das famílias em Pitangui descendentes dos judeus sefarditas do século XV da Península Ibérica e aspectos culturais da Diáspora Africana com foco na região do Centro-Oeste Mineiro. Mantém o blog “Itaúna Décadas”, que retrata a história e os principais fatos ligados a Itaúna. É colaborador do jornal FOLHA DO POVO.
Capítulo 1
Folha do Oeste à Folha do Povo: jornalismo e vigilância política em Itaúna
O jornal Folha do Oeste em Itaúna/MG, fundado em fevereiro de 1944 por Sebastião Nogueira Gomide, conhecido como “Piu”, ocupa um lugar de destaque na trajetória, história e memória da imprensa local e regional. Surgido em pleno contexto de transformações sociais e políticas no Brasil, ainda sob o Estado Novo, o periódico representou desde cedo a tentativa de consolidar uma imprensa mais estruturada no interior de Minas Gerais, tendo o mérito de ser considerado um jornal de Itaúna com registro profissional e circulação regular.
Sua fundação não foi apenas um marco de comunicação, mas também um instrumento de afirmação da cidade como polo em expansão econômica e cultural, dando voz às demandas de uma população que buscava maior visibilidade frente aos acontecimentos do cenário estadual e nacional.
Nos primeiros anos de circulação, ainda sob o nome Folha do Oeste, o jornal manteve forte vínculo com seu fundador, Sebastião Nogueira Gomide, que foi seu proprietário e diretor até o falecimento em 26 de novembro de 1980. Gomide, figura reconhecida no meio jornalístico e cultural de Itaúna, imprimiu ao periódico um caráter combativo, comunitário e de valorização da vida local, transformando-o em referência da imprensa interiorana mineira durante décadas. Após o falecimento de seu fundador, o jornal passou por um processo de reorganização administrativa e editorial.
Apesar das pressões e transformações, o jornal manteve-se ativo, adaptando-se às novas conjunturas políticas e sociais. Entre os nomes que marcaram sua condução ao longo dos anos estão Célio Silva, José Waldemar Teixeira de Mello, Anis José Leão, Juarez Heleno Campos e Sérgio Cunha, que imprimiram diferentes estilos e enfoques, mas sempre preservaram o caráter local e participativo da publicação.
Entre os arquivos consultados sobre a trajetória da imprensa itaunense, emergem também documentos oficiais que evidenciam o ambiente de controle e vigilância política característico do final da década de 1970. Um exemplo é o ofício n° 1427-SA/79, datado de 25 de outubro de 1979, expedido pelo Tribunal Regional Eleitoral de Minas Gerais e assinado por Anis José Leão, então diretor da Secretaria de Coordenação Eleitoral. Classificado como “confidencial”, o documento responde a uma solicitação do Departamento de Polícia Federal, remetendo dados cadastrais de um eleitor.
Embora de aparência meramente burocrática, a correspondência revela as conexões entre diferentes órgãos do Estado – Justiça Eleitoral e Polícia Federal – em uma rede de vigilância que ultrapassava o campo estritamente administrativo. Esse tipo de prática era frequente no período e tinha por finalidade monitorar cidadãos e servidores públicos, especialmente aqueles que, de alguma forma, exerciam atividades de influência social, jornalística ou política.
A presença de Anis José Leão nesses trâmites institucionais – o mesmo que mais tarde teria ligação com o contexto jornalístico da cidade, citado em registros associados à Folha do Oeste – sugere que seu trabalho também esteve sob o olhar atento das estruturas de controle da época. Esses ofícios, lacrados com o selo de confidencialidade e trocados entre repartições, são testemunhos eloquentes de um tempo em que até mesmo comunicações administrativas podiam adquirir um caráter político, refletindo o clima de desconfiança e vigilância generalizada que marcou o fim do regime autoritário no Brasil.
Em continuidade às práticas de controle e mapeamento da imprensa, um documento oficial do Serviço Nacional de Informações (SNI), datado de 23 de julho de 1981 e classificado como “Confidencial”, confirma que o jornal Folha do Oeste, de Itaúna/MG, foi incluído em um levantamento nacional de dados sobre jornais do interior. O relatório, identificado como Informação no C262/19/AC/81, integra uma série de anexos elaborados pela Agência Central do SNI, com o objetivo de compilar informações sobre veículos de comunicação em diversos estados – entre eles Minas Gerais, Ceará, Maranhão, Paraíba, Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Norte e São Paulo.
Na listagem referente ao Estado de Minas Gerais (Anexo “C”), o nome Folha do Oeste - Itaúna/MG aparece ao lado de periódicos regionais como o Agora (Divinópolis), Paraminense (Pará de Minas), Diário da Tarde (Juiz de Fora), Folha de Itabira (Itabira), entre outros, demonstrando que o jornal itaunense figurava entre os veículos monitorados pelo sistema de inteligência federal. O objetivo desse levantamento, conforme indicado no próprio documento, era manter atualizados os cadastros sobre a estrutura, a circulação e o perfil editorial dos jornais do interior, compondo um panorama de vigilância sistemática da imprensa brasileira.
A inclusão da Folha do Oeste nesse relatório de 1981 confirma que a vigilância sobre o jornal não se limitou ao período de transição democrática dos anos 1980, mas se estendeu de forma articulada aos órgãos centrais do regime. Esse material reforça a percepção de que, mesmo em pequenas cidades, a imprensa local era considerada um espaço estratégico de formação de opinião, e, portanto, alvo do olhar atento do Estado autoritário.
Em 1983, o jornalista José Waldemar Teixeira de Mello aparece documentado em relatórios da Agência Belo Horizonte do Serviço Nacional de Informações (SNI), atuando como 1° Tesoureiro da recém-criada Associação dos Jornais do Interior de Minas Gerais (ADJORI-MG). A participação de José Waldemar na fundação da associação demonstra sua relevância não apenas para a imprensa itaunense, mas também para o fortalecimento dos veículos regionais de comunicação em todo o estado. A ADJORI-MG nasceu como uma rede de cooperação entre jornais do interior, em um contexto de concentração midiática e dificuldades financeiras, buscando promover a troca de informações, recursos e estratégias de sobrevivência editorial.
O papel de José Waldemar foi essencial na estruturação financeira e institucional dessa entidade, garantindo sustentabilidade às pequenas redações e consolidando a voz do interior mineiro diante dos grandes centros. Seu envolvimento reflete um compromisso de longa data com a profissionalização do jornalismo e com a defesa da liberdade de imprensa, valores que também marcaram sua passagem pela direção da Folha do Oeste em Itaúna.
Em 1987, registros oficiais apontam uma nova direção, agora sob responsabilidade de Sérgio Fernandes da Cunha e Renato Geraldo Soares. À época, o jornal - ainda denominado Folha do Oeste possuía sede em Itaúna, e mantinha uma tiragem de 4.500 exemplares, circulando também nos municípios de Mateus Leme e Itatiaiuçu. Seu quadro societário e equipe editorial incluíam jornalistas, colunistas, colaboradores e representantes regionais. Com declaração de utilidade pública pela Lei Municipal n° 697, o jornal chegou a atuar como órgão de publicação dos atos oficiais da Comarca de Itaúna.
A relevância institucional e o alcance do jornal chamaram a atenção das autoridades da época. Documentos confidenciais da Agência de Belo Horizonte (ABH), datados de 1987-1988, provenientes do Arquivo Cronológico de Entrada (ACE) e do Serviço Nacional de Informações (SNI), revelam que o jornal Folha do Oeste foi monitorado pela polícia política, constando em um cadastro de veículos de comunicação que reunia informações detalhadas sobre sua estrutura, propriedade, circulação e equipe.
A ficha, classificada na categoria “Z7-A”, apresentava um retrato minucioso do jornal - incluindo nomes, números de identidade, dados financeiros e de tiragem - o que demonstra a preocupação estatal em manter vigilância sobre a imprensa regional.
Esse registro de monitoramento, feito em plena transição democrática brasileira, ilustra um momento de tensão entre a liberdade recém-reconquistada e os mecanismos de controle herdados do regime militar. Mesmo após a revogação formal dos Atos Institucionais e a promulgação da nova Constituição de 1988, diversos órgãos de segurança civil e militar continuavam a operar estruturas de observação e fichamento de entidades civis - entre elas, jornais, sindicatos, partidos, clubes e igrejas. O caso da Folha do Oeste insere-se nesse contexto de vigilância residual, em que o Estado, ainda temeroso do papel político da palavra impressa, mapeava e classificava periódicos locais para avaliar seu potencial de influência ou crítica.
O nível de detalhamento da ficha é revelador: ela registra, por exemplo, o endereço exato da redação, os nomes e cargos de todos os colaboradores, o número de páginas, a tiragem, a área de circulação e até a condição financeira do jornal. Isso indica que tais dados extrapolavam a função burocrática, configurando um mecanismo de vigilância política sistemática, num contexto em que o Estado brasileiro ainda preservava práticas de controle oriundas do regime autoritário.
Embora o país já estivesse sob o governo civil e o processo de redemocratização avançasse, os órgãos de informação e segurança - entre eles o antigo Serviço Nacional de Informações (SNI) e as agências estaduais de inteligência -continuavam a monitorar a atuação da imprensa, especialmente nos municípios do interior, onde a comunicação local exercia papel decisivo na formação da opinião pública.
Esse tipo de monitoramento se insere em uma estratégia mais ampla de controle da informação, muito comum nas décadas de 1970 e 1980. O Estado, temeroso da imprensa como espaço de crítica e resistência, buscava mapear os meios de comunicação, seus responsáveis e suas redes de influência. O objetivo era prevenir que jornais regionais - frequentemente mais livres e próximos da população - se tornassem veículos de oposição ou espaços de contestação política. Assim, o cadastro da Folha do Oeste não deve ser entendido apenas como um registro administrativo, mas como parte de uma estrutura de vigilância ideológica voltada para o controle do discurso público.
A existência de uma ficha tão completa indica também o reconhecimento, por parte das autoridades, da relevância e alcance do jornal. A Folha do Oeste era lida por milhares de pessoas, dialogava com comerciantes, trabalhadores, agentes políticos e religiosos, e registrava os acontecimentos que moldavam o cotidiano de Itaúna e região.
Nesse sentido, o monitoramento, paradoxalmente, reforça a importância histórica do jornal como instrumento de informação e poder simbólico no interior mineiro. Mesmo sob observação, o periódico manteve sua circulação e sua função comunitária, o que demonstra sua resiliência diante do controle estatal e o compromisso de seus dirigentes com a continuidade do projeto jornalístico iniciado por Sebastião Nogueira Gomide em 1944.
Na década de 1990, sob nova orientação editorial, o periódico consolidou o nome Folha do Povo, reafirmando sua identidade e proximidade com a comunidade itaunense. Desde 1996, a direção está sob a responsabilidade do jornalista e diretor Renilton Gonçalves Pacheco, que não apenas deu continuidade à tradição do jornal, mas também o transformou em um verdadeiro laboratório de memória e consciência cidadã.
Seu primeiro contato com a redação remonta a 1973, quando, ainda menino de 13 anos, adentrou a antiga sede da Folha do Oeste, no número 11 da Rua Antônio de Matos, esquina com a Praça da Matriz, em Itaúna. O ambiente efervescente dominado por discussões políticas, notícias policiais e temas sociais, o marcou profundamente.
Renilton relembra que foi ali entre o barulho das velhas impressoras e o cheiro de tinta, que conheceu o fundador Sebastião Nogueira Gomide (o “Piu”), “um senhor polêmico e inteligente, que cobrava e exigia dos governantes postura em relação às coisas do município”. Acompanhando de perto as críticas e os editoriais contundentes de Gomide – muitos ainda sobre temas que persistem até hoje, como a Casa de Caridade Manoel Gonçalves -, o jovem aprendiz absorveu o sentido do jornalismo como instrumento de transformação. Outro nome marcante foi Célio Silva, o primeiro chefe de redação, que conduzia a oficina gráfica e introduziu Renilton à prática diária da produção jornalística. Ao longo dos anos seguintes, Renilton formou-se na escola viva do jornalismo local, aprendendo com nomes como José Waldemar Teixeira de Mello, ex-redator do Estado de Minas, e Anis José Leão, professor de Ética na Faculdade de Jornalismo da UFMG. De ambos herdou a noção de rigor, ética e compromisso público – valores que norteariam a condução futura da Folha do Povo.
Hoje, com mais de 30 anos à frente do jornal, Renilton reafirma a crença de que o jornalismo é uma forma de agir sobre a realidade, e não apenas de noticiá-la. Em suas palavras, o papel do jornalista não se limita a “dar a notícia”, mas a construí-la com responsabilidade, checagem e clareza, combatendo a pressa e a superficialidade impostas pelas mídias digitais.
A Folha do Povo, sob sua direção, continua a exercer esse jornalismo atento à cidade e comprometido com a verdade – cobrando obras, fiscalizando o poder público e preservando a memória coletiva de Itaúna. A expansão para Itatiaiuçu, com edição semanal aos sábados, ampliou ainda mais sua influência regional.
Assim, a trajetória da Folha do Povo – desde sua origem como Folha do Oeste como Sebastião Nogueira Gomide, passando pela vigilância policial da década de 1980 e pela consolidação moderna sob Renilton Gonçalves Pacheco – espelha a própria história de Itaúna: um percurso de resistência, adaptação e continuidade. O jornal atravessou regimes políticos distintos, enfrentou períodos de censura e monitoramento, testemunhou crises e transformações urbanas, mantendo-se como símbolo de liberdade de expressão, memória e identidade local. Mais do que narrador, tornou-se protagonista da história itaunense.





