CONFIDENCIAL - DITADURA
O Jornal Brexó é o alvo da espionagem nesta semana
Mais um capítulo do trabalho de pesquisa do historiador Charles Aquino está sendo publicado nesta edição. Neste quinto capítulo, ele enfoca o jornal “Brexó”, que circulou em Itaúna entre os anos de 1978 e 2017, portanto por 39 anos.
O trabalho do historiador mostra os anos de 1984/85 e 1987/1988, quando o serviço de espionagem registrou documentos apontando a situação do referido jornal. Um documento em especial, dos anos de 1984/85, trata de artigo publicado no jornal e assinado pelo médico e político Peri Tupinambás, citando a Lei de Segurança Nacional.
O Jornal Brexó recebia vigilância mais de perto por ter na sua direção e edição pessoas ligadas ao Partido dos Trabalhadores, a agremiação política que causava “arrepios” nos militares da época. Confira abaixo mais este capítulo da pesquisa do historiador e professor Charles Aquino:
CAPÍTULO 5
Vigilância, classificação e enquadramento: O Jornal Brexó nos registros do SNI (1984-1988)



Em meio ao processo de redemocratização brasileira, marcado por mobilizações populares como a campanha das Diretas Já, amplamente difundida em 1984, e pela progressiva reconfiguração que culminaria na promulgação da Constituição de 1988, documentos classificados como confidenciais revelam que a vigilância sobre a imprensa não apenas persistia, como operava de forma estruturada, sistemática e tecnicamente organizada, alcançando inclusive a imprensa local de cidades do interior.
O caso do Jornal Brexó, sediado em Itaúna, Minas Gerais, evidencia com precisão esse mecanismo, demonstrando que a produção jornalística regional era monitorada, classificada e interpretada pelo aparato de informações do Estado.
A análise conjunta de três conjuntos documentais, um informe do Serviço Nacional de Informações (SNI), datado de 1984, e duas fichas cadastrais de 1987 e 1988, permite reconstruir, com alto grau de consistência, a evolução desse acompanhamento. Longe de constituírem registros isolados, os documentos revelam etapas sucessivas de observação, inicialmente centradas na análise de conteúdo, posteriormente ampliadas para o mapeamento institucional e, por fim, consolidadas em uma classificação política mais abrangente do veículo e de seus integrantes.
O documento de 1984, produzido pela Agência Belo Horizonte do SNI, já indica que o Jornal Brexó era objeto de atenção direta do sistema de informações. Inserido em um informe que analisava diversos órgãos da imprensa mineira considerados críticos às autoridades, o periódico itaunense aparece explicitamente identificado, tendo como diretor responsável Célio Silva e como redator Huascar Soares Gomide (B0886312).
Neste trecho, chama atenção o fato de a observação estar registrada integralmente em letras maiúsculas no documento original, o que lhe confere destaque gráfico em relação aos demais registros. Além disso, o informe também registra e interpreta uma matéria publicada no próprio Jornal Brexó, em 10 de março de 1984, intitulada “SOBRE A LEI DE SEGURANÇA NACIONAL OU EVITAREMOS AO MÁXIMO SERMOS ENQUADRADOS NELA OU O MINISTRO ENTROU NUMA FRIA”, de autoria do Dr. Peri (ou Pery) Tupinambás, identificado como militante do Partido dos Trabalhadores (PT).
Segundo o informe, o texto tecia “críticas contrárias às autoridades militares federais” e discutia a aplicação da legislação de segurança nacional, evidenciando uma postura editorial politicamente posicionada. Nesse momento, observa-se um monitoramento direto do conteúdo jornalístico, com identificação de autores e classificação de suas posições.
A escolha do tema é reveladora: a LSN (Lei de Segurança Nacional) era um dos principais instrumentos jurídicos da repressão política, e discutir seus limites ou implicações significava, em certa medida, tensionar o próprio aparato autoritário. O fato de tal debate ocorrer em um jornal local indica que Itaúna não se limitava a reproduzir discursos hegemônicos, mas participava ativamente de um circuito crítico mais amplo.
Outro aspecto fundamental reside na própria linguagem do documento. Termos recorrentes como “desacreditar” e “linha desfavorável” não são apenas descrições, mas construções discursivas que enquadram a realidade segundo a lógica do poder. Ao classificar “críticas às autoridades” como ameaça, o SNI opera uma redefinição dos limites do aceitável, na qual o dissenso passa a ser tratado como objeto de suspeita.
No documento, consta ainda uma ressalva explícita quanto ao sigilo: “TODA PESSOA QUE TOME CONHECIMENTO DESTE DOCUMENTO FICA RESPONSÁVEL PELA MANUTENÇÃO DO SEU SIGILO”.
Por fim, o caráter confidencial do informe reforça seu valor histórico. Não se trata de um discurso público, elaborado para legitimar o regime perante a sociedade, mas de um documento interno, destinado à circulação restrita dentro do aparato estatal. Isso o torna particularmente revelador: nele se expressa, com menos filtros, a mentalidade de um sistema que, mesmo em processo de abertura, ainda operava sob a lógica da vigilância, do controle e da contenção.
A análise desse documento permite situar essa dinâmica em uma escala mais ampla. Em 1984, cidades como Itaúna integravam circuitos de produção e circulação de críticas, configurando-se como espaços de disputa simbólica e política. Nesse contexto, os registros do SNI evidenciam como manifestações locais eram incorporadas a um sistema de acompanhamento que buscava identificar, classificar e compreender essas expressões.
Nos documentos posteriores, datados de 1987 e 1988, esse acompanhamento assume um caráter mais sistemático e estruturado. As chamadas “Fichas de Cadastro de Veículo de Comunicação Social”, vinculadas a processos identificados como “CAPA DE ACE”, revelam um padrão técnico rigoroso de registro e circulação interna de informações no âmbito do Serviço Nacional de Informações (SNI), por meio da Agência de Belo Horizonte, sendo classificadas como CONFIDENCIAL.
O Jornal Brexó passa a ser descrito minuciosamente: razão social Sociedade Jornalística Brexó Ltda, sede na Rua Dorinato Lima, nº 230, bairro de Lourdes, em Itaúna/MG, fundado em novembro de 1978, com periodicidade semanal, tiragem média entre 1.600 e 1.700 exemplares e circulação regional abrangendo Itaúna, Itatiaiuçu e Mateus Leme. Sua estrutura é classificada como reduzida, com apenas dois funcionários e situação financeira considerada “regular”. Também são registrados aspectos técnicos como número de páginas (entre 6 e 8), formato em caderno único, ausência de encartes e inexistência de sucursais.
Esse nível de detalhamento não é meramente descritivo. Ele indica uma tentativa de mensurar o alcance e a capacidade de influência do jornal, inserindo-o em uma lógica de avaliação estratégica. Paralelamente, as fichas revelam um mapeamento completo de seus integrantes e colaboradores, identificados nominalmente: Célio Silva (B0783936), diretor responsável; Sílvio Márcio Bernardes, repórter; Wagner Belarmino da Silva, colunista; Maria José Saldanha, colaboradora; Pery Tupinambás, colaborador; Márcio José Bernardes (B1403059), colaborador; Benfica Alves de Oliveira Júnior, colaborador; e Hely de Souza Maia (B2271801), colaborador.
A presença de códigos alfanuméricos associados a alguns desses nomes indica que determinados indivíduos estavam previamente cadastrados em sistemas mais amplos de informação, sugerindo a existência de fichas individuais e a possibilidade de cruzamento de dados.
Na ficha de 1988, o próprio periódico também passa a ser identificado por um código interno, aparecendo como Jornal Brexó (B2566126), o que reforça a hipótese de um sistema estruturado de indexação tanto de pessoas quanto de instituições. Esse dado é particularmente relevante, pois demonstra que o jornal já não era apenas observado, mas integrado a um banco de dados organizado, com capacidade de rastreamento e acompanhamento contínuo.
O elemento mais expressivo, contudo, encontra-se no campo denominado “Linha Editorial”, presente na ficha de 1988, no qual a linguagem assume caráter interpretativo. Nele, afirma-se que: “OS INTEGRANTES DO JORNAL ‘BREXO’ SÃO ELEMENTOS LIGADOS AO PARTIDO DOS TRABALHADORES (PT). SUA LINHA EDITORIAL VISA, PRINCIPALMENTE, CENSURAR AS ATUAÇÕES DAS LIDERANÇAS POLÍTICAS LOCAIS, NÃO DEIXANDO, ENTRETANTO, COMO OPOSIÇÃO, DE CRITICAR OS GOVERNOS ESTADUAL E FEDERAL”.
Esse registro sintetiza, dentro da própria documentação, uma forma de caracterização do veículo e de seus integrantes, incorporando ao cadastro uma leitura sobre sua atuação no campo político.
A articulação desses três momentos — 1984, 1987 e 1988 — permite identificar um padrão contínuo de acompanhamento. Inicialmente, o Jornal Brexó é observado a partir de conteúdos específicos, com destaque para matérias e autores. Em seguida, passa a ser objeto de registro institucional detalhado, com levantamento de sua estrutura, circulação e equipe. Por fim, é inserido em uma caracterização mais ampla, que inclui referências à sua orientação editorial e às vinculações de seus integrantes.
Esse conjunto evidencia que o acompanhamento estatal não se limitava à existência formal dos veículos de comunicação, mas abrangia diferentes dimensões de sua atuação, conteúdos publicados, organização interna, circulação e composição de pessoal. No caso de Itaúna, o Jornal Brexó aparece, assim, como um veículo regularmente registrado e acompanhado ao longo do tempo, integrando um sistema de informações que organizava dados de forma contínua e padronizada.
Dessa forma, o caso do Jornal Brexó ultrapassa a dimensão local e se insere em um quadro mais amplo de organização e funcionamento dos sistemas de informação do Estado. Ele evidência como a imprensa regional, mesmo com estrutura modesta, era incluída em procedimentos sistemáticos de registro, reunindo dados sobre sua atuação, composição e alcance.
Ao reunir essas informações, os documentos permitem observar não apenas a trajetória de um periódico, mas também as formas pelas quais o Estado produzia, organizava e classificava informações sobre a circulação de discursos na sociedade brasileira.
Diante do percurso desenvolvido ao longo de cinco capítulos, nos quais se evidenciou, de forma progressiva, a vigilância, o registro e o enquadramento da imprensa local em Itaúna, torna-se necessário avançar para uma dimensão ainda mais profunda dessa análise: a investigação do próprio sistema de informações que produziu tais registros. Se até aqui foi possível compreender como jornais como Ita Vox, Tribuna Itaunense, Folha do Centro-Oeste, Folha do Oeste e Brexó foram observados, classificados e acompanhados, o capítulo seguinte deslocará o foco do objeto vigiado para o mecanismo de vigilância.
Para isso, será realizada uma análise minuciosa dos sistemas de codificação presentes nas fichas, incluindo siglas, numerações, classificações documentais e operacionais, bem como dos códigos alfanuméricos atribuídos a indivíduos e instituições, buscando compreender seus significados, funções e implicações dentro da estrutura do Serviço Nacional de Informações.
Nesse movimento, será também incorporada a análise da Rádio Clube de Itaúna, ampliando o escopo dos meios de comunicação investigados. Ao examinar essa engrenagem interna, pretende-se revelar não apenas o conteúdo das informações produzidas, mas a lógica técnica e política que orientava sua organização, classificação e circulação, evidenciando que a vigilância não era episódica, mas sustentada por um sistema estruturado e contínuo de controle e interpretação da realidade social.





