CONFIDENCIAL - DITADURA
A FOLHA no alvo da espionagem
O historiador Charles Aquino publica nesta edição mais um capítulo da sua pesquisa nos arquivos da polícia política da ditadura, que continuou atuando mesmo após a saída dos militares do poder, em 1985. Os registros levantados por Charles Aquino datam dos anos de 1987/1988, portanto cerca de três anos após o fim da ditadura. Mas, como se vê, o esquema de espionagem, especialmente em relação à imprensa nacional, continuava. Nesta edição, o foco está com o Jornal Folha do Oeste, predecessor da FOLHA DO POVO.
Destaca ainda que foi nesse mesmo período que o Partido Socialista Brasileiro (PSB) se reorganizava em Minas Gerais e, consequentemente, em Itaúna. O jornalista Sérgio Cunha, que editava a Folha do Oeste na ocasião, assumiu a presidência do partido itaunense. E, como comentado na edição passada, tinha conhecimento de que estava sendo monitorado pela polícia política. Como personagem da história, o jornalista informa que está produzindo texto abordando os bastidores daquele período e que será encaminhado ao historiador para possível publicação. Porém esse é um tema a ser tratado em uma próxima ocasião. Vamos à pesquisa de Charles Aquino:
CAPÍTULO 4
Folha do Oeste nos arquivos do Serviço Nacional de Informações (SNI): o que ainda revelam os documentos sobre o jornal nos anos 1980?


Como já apresentado no Capítulo 1 desta série, documentos produzidos pelos órgãos de informação do Estado registraram a presença do jornal Folha do Oeste em levantamentos nacionais sobre a imprensa do interior brasileiro. Novos registros agora analisados permitem aprofundar essa investigação, revelando informações detalhadas sobre o período em que o periódico esteve sob a direção do jornalista Sérgio Fernandes da Cunha.
Os documentos consultados fazem parte de fichas classificadas como confidenciais, elaboradas por órgãos responsáveis pelo acompanhamento de veículos de comunicação social em diversas regiões do país. Diferentemente dos registros mais gerais mencionados anteriormente, essas fichas apresentam um retrato minucioso da estrutura administrativa e editorial do jornal no final da década de 1980.
Entre as informações registradas está a confirmação de que o jornal Folha do Oeste, fundado em 13 de fevereiro de 1944, permanecia em funcionamento por meio da empresa Editora Folha do Oeste Ltda., sediada em Itaúna, Minas Gerais. Os documentos indicam que, naquele período, o periódico apresentava periodicidade bissemanal e tiragem aproximada entre 4.500 e 5.000 exemplares, números expressivos para um veículo regional do interior mineiro.
As fichas do período de 1987-1988 também registram a área de circulação do jornal, que abrangia não apenas o município de Itaúna, mas também cidades vizinhas como Mateus Leme, Itatiaiuçu e Pará de Minas, indicando que o periódico possuía alcance regional e dialogava com diferentes comunidades do centro-oeste mineiro.
Outro aspecto revelado pelos documentos é a composição da equipe editorial e administrativa responsável pela produção do jornal. As fichas registram os nomes de diversos profissionais envolvidos em sua estrutura, entre eles, Sérgio Fernandes da Cunha e Renato Geraldo Soares, associados à condução administrativa da empresa editora.
Também são mencionados colaboradores ligados à produção jornalística e editorial do periódico, como Maria Helena Moraes, José Raimundo Rodrigues, Vicente Parreiras, Eblaid Silva, Janaina Moraes, Beatriz Chaves Corrêa, Danilo de Oliveira Lopes, Raimundo Araújo, Geovane Vinícius (ou Giovanni Vinícius), Geovane Vilela e Silva, Alberto Libânio Rodrigues, Fábio Souza Gonçalves, Paulo Bonfim, Heli de Souza Maia e Albino de Souza, entre outros nomes registrados na documentação.
A presença de uma relação extensa de colaboradores indica que o jornal operava por meio de uma rede diversificada de jornalistas, colunistas e articulistas, refletindo a dinâmica característica da imprensa regional, frequentemente sustentada por profissionais ligados à vida cultural, social e política da própria comunidade.
A importância do periódico no cenário regional também pode ser observada em registros públicos da época. Em pronunciamento realizado na Câmara dos Deputados e publicado no Diário do Congresso Nacional, em 9 de outubro de 1985, o deputado Dimas Perrim (PMDB–MG) mencionou a imprensa local ao afirmar que o município de Itaúna contava com “cinco importantes órgãos” de comunicação, destacando entre eles o jornal Folha do Oeste.
No mesmo discurso, o parlamentar citou a direção do periódico, então associada a Sérgio Fernandes da Cunha, Renato Geraldo Soares, Marlênio Raimundo de Souza e Alberto Libânio Rodrigues, observando que o jornal possuía “grande penetração local”, marcada pela seriedade de suas matérias e pelo interesse em defender as causas de Itaúna e dos municípios vizinhos.
Esse registro demonstra que, naquele período, o jornal era reconhecido publicamente como um dos veículos relevantes de comunicação, sendo reconhecido tanto no debate público quanto em registros administrativos do próprio município e na região.
As próprias fichas consultadas registram ainda uma observação adicional sobre o periódico. Na seção destinada às observações, consta que o jornal Folha do Oeste foi declarado de utilidade pública pela Lei Municipal nº 697, sendo também reconhecido como órgão de publicação dos atos oficiais da Comarca de Itaúna/MG. Embora o documento não apresente a data exata dessa lei, a informação aparece registrada na “Ficha Cadastral de Veículo de Comunicação Social” elaborada pelas autoridades em 27 de maio de 1987.
Ao mesmo tempo, os documentos administrativos produzidos por órgãos de informação do Estado mostram que o periódico também figurava em sistemas de cadastro e acompanhamento institucional. As fichas analisadas registram dados detalhados sobre o funcionamento do jornal, incluindo endereço da redação, estrutura da empresa editora, composição da equipe editorial, tiragem e área de circulação.
O nível de detalhamento presente nesses registros indica que os órgãos responsáveis pelo levantamento buscavam manter atualizados cadastros completos sobre veículos de comunicação em atividade no país. Esse tipo de documentação não se limitava a grandes jornais de circulação nacional, incluindo também periódicos regionais do interior.
Outro documento consultado no mesmo conjunto de arquivos acrescenta um elemento adicional a esse panorama. Trata-se de um relatório administrativo que registra a organização do Partido Socialista Brasileiro (PSB) em Minas Gerais no ano de 1988, no qual aparecem listados nomes associados à constituição de comissões diretoras municipais provisórias em diversas cidades do estado.
Na relação referente ao município de Itaúna, o documento menciona os nomes de Sérgio Fernandes da Cunha, Geovane Vilela e Silva e Valdecir Alves da Silva como integrantes da estrutura inicial de organização partidária local.
A presença desses registros sugere que alguns nomes ligados à imprensa local também participavam da vida política e institucional do município, fenômeno relativamente comum em cidades de porte médio, onde diferentes esferas da vida pública frequentemente se entrelaçam.
Nesse contexto, surge uma questão interpretativa relevante. Se, por um lado, registros públicos indicam que o jornal Folha do Oeste possuía grande presença na comunicação regional e era reconhecido como um dos principais veículos da cidade, por outro lado, documentos administrativos produzidos por órgãos de informação registravam de forma detalhada sua estrutura e seus responsáveis.
Diante desse cenário, cabe perguntar: seria justamente a relevância do jornal na formação da opinião pública local um dos fatores que motivaram a elaboração desses registros institucionais sobre o periódico e sua equipe editorial?
Embora os documentos não ofereçam resposta direta a essa questão, eles evidenciam que a imprensa regional também esteve presente nos arquivos produzidos por estruturas de informação do Estado durante o período de transição política brasileira.
Mais do que “registros administrativos”, esses documentos constituem hoje fontes importantes para compreender a história da imprensa regional e o papel desempenhado por jornais locais na circulação de ideias, debates públicos e construção da memória das cidades do interior.
A análise desses materiais contribui para ampliar o entendimento sobre a trajetória da Folha do Oeste e sobre a atuação de seus dirigentes e colaboradores na vida pública de Itaúna durante as transformações políticas e institucionais da década de 1980.
Importante ressaltar que o Serviço Nacional de Informações (SNI) foi o órgão federal de inteligência criado em 1964 para coordenar em todo o país as atividades de informação do regime militar. Já o Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) de Minas Gerais era a polícia política estadual, encarregada de investigar opositores do regime em Minas.
Embora um fosse federal e o outro estadual, ambos integravam o mesmo sistema de segurança interno (SISNI), que reunia polícias civis, militares e federais com o objetivo comum de monitorar. Na prática, SNI e DOPS-MG trabalhavam lado a lado.
No próximo capítulo desta série, novos documentos e registros históricos serão apresentados, ampliando a investigação sobre a presença da imprensa itaunense nos arquivos produzidos por órgãos de informação e sobre o papel desempenhado pelos jornais locais na história da comunicação regional. Entre os periódicos desse período destaca-se o jornal Brexó, cuja atuação nos debates públicos da cidade será examinada a partir de documentos produzidos pela polícia política e das próprias edições do periódico preservadas da época.





