CONFIDENCIAL - DITADURA

CONFIDENCIAL - DITADURA

O trabalho do historiador Charles Aquino apresentando os arquivos da ditadura monitorando a imprensa em Itaúna demonstra que os arapongas da ditadura acompanhavam o dia a dia da imprensa local mesmo que a publicação não focasse o noticiário político. Os jornais apontados no capítulo de hoje, “Tribuna Itaunense” e “Folha do Centro-Oeste”, são exemplos disso. O primeiro, mais antigo e com raízes mais locais, pouco destaque entregava ao noticiário político, destacando mais o colunismo social e artigos abordando temas como finanças e variedades. Já o segundo jornal tinha caráter mais comercial. O distanciamento dessas publicações com o dia a dia da política é tão marcante que, em suas fichas, não são encontrados registros de observações dos espiões encarregados de fazer o monitoramento.  

Outro fato é que os nomes citados, alguns deles ainda atuando em Itaúna em diversas áreas que não a do jornalismo, talvez nem sabiam que estavam sendo monitorados – e podem ficar sabendo só agora, com a circulação desta edição da FOLHA. Talvez a totalidade dos nomes citados atue atualmente em outros segmentos que não o jornalístico. Mas nem essa ausência de atuação no chamado “jornalismo raiz”, de análises e denúncias de situações envolvendo a política, ou até mesmo no cotidiano político, fez com que a polícia política, os arapongas da ditadura, deixassem de fazer o monitoramento de seus passos. 

Mas nem sempre esse monitoramento foi assim, “tão monótono” para os arapongas. Em determinadas situações, agentes a serviço da polícia política chegaram a se aproximar de redações, a atuar como “colaboradores”, para buscar proximidade. Isso sem saber, porém, que estavam descobertos e que, da mesma maneira como eram usados pelos “chefões da ditadura”, serviam a propósitos de jornalistas. Continue acompanhando o resultado das pesquisas de Charles Aquino sobre “os porões da ditadura em Itaúna”

Capítulo 3

Os Jornais Tribuna Itaunense e Folha do Centro-Oeste nos registros das autoridades: o que revelam as Fichas dos Cadastros de veículos de Comunicação?

Esta série analisa documentos históricos produzidos por órgãos de informação que registraram dados sobre jornais da cidade de Itaúna nas décadas de 1970 e 1980, revelando aspectos da estrutura e da circulação da imprensa local naquele período.

      

      

A análise de documentos produzidos por órgãos responsáveis pelo levantamento de veículos de comunicação social revela que outros periódicos de Itaúna também aparecem registrados nos arquivos administrativos do período. Além dos jornais já mencionados nos capítulos anteriores desta série, as fichas consultadas indicam a presença de informações detalhadas sobre publicações como o Jornal Tribuna Itaunense e o Jornal Folha do Centro-Oeste.

Esses registros fazem parte de fichas de cadastro elaboradas em 1987 por órgãos responsáveis pelo levantamento de veículos de comunicação social em diferentes cidades. Os formulários reuniam informações sobre denominação do jornal, data de fundação, razão social da empresa editora, endereço da redação, tiragem, periodicidade, área de circulação e nomes de integrantes das equipes editoriais. Esse modelo padronizado de registro indica que o levantamento buscava reunir dados sistemáticos sobre os veículos de comunicação em funcionamento naquele momento.

Entre os periódicos documentados encontra-se o Jornal Tribuna Itaunense, fundado em 16 de junho de 1975 e vinculado à empresa Editora Gazeta de Minas Ltda. O endereço da redação aparece registrado na Rua Santana, nº 436, bairro Graças, no município de Itaúna.

Segundo a ficha consultada, o periódico tinha como diretor responsável Antônio de Freitas. A equipe editorial incluía colaboradores ligados à produção jornalística, entre eles Adolfo Osório Mendes Penido e José Raimundo Rodrigues, identificados como colunistas, além de José Maria de Aquino, Hely de Souza Maia e José dos Santos Pereira, mencionados como colaboradores.

Os dados administrativos indicam que o jornal possuía periodicidade semanal, com oito páginas por edição e tiragem aproximada de 1.500 exemplares. A área de circulação registrada inclui os municípios de Itaúna, Itatiaiuçu e Mateus Leme, indicando que o periódico possuía presença informativa concentrada na própria cidade e em localidades vizinhas.

A documentação registra ainda que a empresa editora contava com dois empregados e apresentava situação financeira classificada como “boa” no momento da atualização do cadastro.

Outro periódico registrado nas fichas é o Jornal Folha do Centro-Oeste, fundado em 28 de junho de 1986 e vinculado à empresa SICOM – Sistemas de Comunicação do Oeste de Minas Ltda.

O jornal estava sediado na Rua Silva Jardim, nº 367, no centro de Itaúna, e apresentava uma estrutura editorial composta por diversos profissionais. O quadro societário registra Alberto Libânio Rodrigues, Geovane Vilela e Silva e Lindair Vicente de Rezende, que também desempenhavam funções na organização do periódico: o primeiro como editor, o segundo como diretor comercial e repórter, e o terceiro como diretor financeiro.

A ficha menciona ainda outros integrantes da equipe editorial, entre eles Paulo Roberto Alves Nogueira, identificado como jornalista responsável; Luciene Luzia da Silva Ferreira, redatora; José Raimundo de Miranda Alves, responsável pela diagramação; além de Maria Eugênia Teixeira Vargas, colunista social, e Adilson Rodrigues, colunista de música.

Os dados administrativos indicam que o periódico possuía periodicidade quinzenal, com doze páginas distribuídas em dois cadernos e tiragem aproximada de 5.000 exemplares.

A área de circulação registrada para o jornal é significativamente mais ampla que a de outros periódicos locais, incluindo cidades como Divinópolis, Belo Horizonte, Formiga, Pará de Minas, Mateus Leme e Itatiaiuçu, além do próprio município de Itaúna.

Os documentos registram ainda a existência de representantes regionais em diferentes cidades, indicando a formação de uma rede de distribuição e representação comercial em localidades como Belo Horizonte, Divinópolis, Formiga e Pará de Minas, além de um representante responsável pela divulgação do jornal em âmbito nacional. A documentação indica também que a impressão do periódico era realizada pela gráfica do Diário do Comércio, em Belo Horizonte.

Fundados em momentos distintos, os dois periódicos refletem fases diferentes da imprensa local. O Jornal Tribuna Itaunense, criado em 1975, aparece com tiragem aproximada de 1.500 exemplares e circulação concentrada em Itaúna e municípios próximos. Já o Jornal Folha do Centro-Oeste, fundado mais de uma década depois, em 1986, apresenta tiragem registrada de 5.000 exemplares e circulação mais ampla, alcançando cidades importantes da região centro-oeste mineira.

A comparação entre os dados registrados nas fichas sugere que, ao longo desse período, alguns veículos da imprensa local passaram a buscar maior alcance regional e estruturas de circulação mais amplas.

Observados em conjunto, os registros documentais revelam diferentes momentos da imprensa itaunense. Enquanto a Folha do Oeste, fundada em 1944, representa uma fase mais antiga da comunicação local, periódicos surgidos nas décadas seguintes — como Tribuna Itaunense e Ita Vox, ambos fundados em 1975, e a Folha do Centro-Oeste, criada em 1986 — indicam a formação de um ambiente jornalístico diversificado, com veículos que buscavam ampliar sua circulação e atuação na região.

Ao reunir informações sobre esses jornais — incluindo endereço das redações, tiragem, periodicidade e nomes de integrantes das equipes editoriais — os documentos analisados acabam revelando não apenas dados administrativos, mas também fragmentos importantes da história da comunicação em Itaúna.

Entre esses periódicos, um dos que aparece com maior destaque nos registros consultados é o jornal Folha do Oeste. Como já mencionado no primeiro capítulo desta série, o periódico também figura em levantamentos realizados por órgãos de informação do Estado. No próximo capítulo, novos documentos serão apresentados, permitindo examinar com maior detalhe a trajetória e a atuação editorial do jornal naquele período.