CONFIDENCIAL - DITADURA
Polícia Política agindo em Itaúna
O historiador Charles Aquino apresenta mais um capítulo da série que está apresentando a atuação da polícia política do governo, pós-ditadura, junto à imprensa de Itaúna. Neste artigo, os anos demonstrados são os de 1987 e 1988. Esses foram os dois primeiros anos pós-ditadura, quando assumiu o governo brasileiro o político maranhense José Sarney, eleito vice na chapa encabeçada pelo mineiro Tancredo Neves. Já não estávamos mais sob os mandos do governo militar, porém a polícia política continuava a agir nos bastidores, monitorando a imprensa em todo o País, e Itaúna não estava fora deste monitoramento.
No capítulo de hoje, o jornal enfocado é o “Ita Vox”, órgão fundado e mantido pelo jornalista Juarez Heleno Campos, durante vários anos circulando na região. Conforme demonstra o registro da polícia política, o diretor do jornal era ligado ao PDS (antiga Arena), órgão partidário ligado à direita e, consequentemente, ao antigo regime militar. Nos registros, como destaca o historiador, a polícia política afirma que “em seu editorial (o jornal Ita Vox) sempre se posiciona contrário à conjuntura atual do País, tecendo críticas às atuações dos atuais governantes, tanto no âmbito federal quanto no estadual”.
Se no governo federal o comando era de José Sarney, em Minas Gerais o governador era Newton Cardoso. Ambos eram filiados ao PMDB, partido mais à esquerda na época, abrigando os quadros políticos mais expressivos do Brasil na luta contra o regime ditatorial. Vamos ao texto de Charles Aquino:
capítulo 2
Arquivos da polícia política (1987/1988): documentos revelam registros sobre jornal de Itaúna que contou com o intelectual Austregésilo de Athayde entre seus articulistas






Documentos classificados como confidenciais, preservados nos arquivos produzidos pelos órgãos de informação do período, revelam que jornais do interior de Minas Gerais foram incluídos em registros detalhados mantidos pelo Estado. Esses documentos integram o chamado Cadastro de Veículos de Comunicação Social, no qual eram reunidas informações sobre direção, circulação, estrutura editorial e colaboradores de diversos periódicos.
A reportagem publicada na última edição deste jornal iniciou uma série dedicada à análise desse material histórico, mostrando que veículos ligados à cidade de Itaúna/MG também aparecem nesses registros oficiais. A continuidade da investigação revela que entre os periódicos registrados nesses arquivos está o jornal Ita Vox, publicação fundada em 11 de maio de 1975 e dirigida pelo jornalista Juarez Heleno Campos.
As fichas consultadas indicam que o periódico possuía circulação semanal, com cerca de oito páginas por edição e tiragem aproximada de 7.500 exemplares, número expressivo para um veículo do interior naquele período. A distribuição alcançava não apenas Itaúna, mas também cidades da região como Divinópolis, Pará de Minas, Itaguara, Itatiaiuçu e Mateus Leme, além de Belo Horizonte. Esses dados aparecem registrados nas fichas elaboradas pelos órgãos responsáveis pelo levantamento dos veículos de comunicação que circulavam em Minas Gerais.
Outro aspecto presente no documento é a relação de integrantes e colaboradores vinculados ao jornal. Entre os nomes registrados aparece o do jornalista Austregésilo de Athayde, intelectual de projeção nacional e uma das figuras mais influentes da imprensa brasileira no século XX.
Athayde teve longa trajetória no jornalismo nacional, esteve ligado aos Diários Associados e presidiu a Academia Brasileira de Letras por mais de três décadas, consolidando-se como uma das referências da vida intelectual brasileira. A presença de um nome desse porte entre os articulistas do periódico revela que o Ita Vox mantinha conexões que ultrapassavam o âmbito estritamente local da imprensa regional.
Além dessas informações, a ficha elaborada pelos órgãos responsáveis pelo levantamento dos veículos de comunicação apresenta um nível de detalhamento bastante amplo sobre o funcionamento do periódico. O documento registra minuciosamente dados administrativos e editoriais do jornal, incluindo o quadro societário, a composição da equipe editorial, a relação de colaboradores, além do número de telefone e do endereço da redação.
Entre os nomes já mencionados, além do diretor responsável Juarez Heleno Campos e do jornalista Austregésilo de Athayde, a ficha também registra Jacqueline Almeida Simões Campos, integrante do quadro societário. Como membros do conselho editorial aparecem o jornalista José Leandro Junqueira Meireles e o colunista social Cosme Caetano Silva. O documento menciona ainda articulistas como Jarbas Passarinho, Rangel Coelho e Luiz Gonzaga da Fonseca.
A ficha também registra informações adicionais sobre a estrutura de representação do periódico, indicando a existência de representantes ou sucursais em importantes centros urbanos do país, como São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Brasília.
Nas observações do documento aparece ainda o registro de que o jornal Ita Vox foi declarado de utilidade pública pela Lei Municipal nº 1.951, de 1º de setembro de 1986. Esses elementos indicam que o levantamento buscava reunir um panorama bastante completo sobre a organização, a equipe editorial e a rede de atuação do periódico.
Dentre os trechos mais reveladores do documento está uma observação registrada na ficha referente ao diretor responsável pelo jornal. No registro produzido pelos órgãos responsáveis pelo acompanhamento de informações e atividades consideradas relevantes no período consta a seguinte anotação:
“Em seu editorial sempre se posiciona contrário à conjuntura atual do país, tecendo críticas às atuações dos atuais governantes, tanto no âmbito federal quanto no estadual. É ligado a políticos do Partido Democrático Social (PDS)”.
Esse trecho é particularmente significativo, porque revela aspectos que vão além de um simples registro administrativo sobre o veículo de comunicação.
Primeiro, o documento não registra apenas dados técnicos do jornal, como tiragem, endereço ou periodicidade. Ele também apresenta observações sobre o conteúdo editorial publicado no periódico.
Segundo, o registro identifica o posicionamento político do responsável pelo jornal, ao destacar que seus editoriais expressavam críticas à atuação de governantes.
Terceiro, a presença desse tipo de observação indica que as fichas não se limitavam a um cadastro burocrático dos veículos de comunicação. Em determinados casos, os registros incluíam também anotações interpretativas sobre a atuação pública e editorial dos jornais.
A presença de observações sobre o posicionamento editorial de jornais vinculados a Itaúna mostra que os registros produzidos pelos órgãos de informação iam além de um simples cadastro administrativo. Esses documentos hoje ajudam a compreender como veículos da imprensa regional eram descritos e analisados nos arquivos oficiais do período.
A série de reportagens prossegue nas próximas edições com a análise de outros jornais e personagens da imprensa de Itaúna que também aparecem nesses registros históricos, ampliando o entendimento sobre a presença da comunicação regional nos arquivos produzidos pelos órgãos de informação daquela época.



