FÉ E POLÍTICA - Projeto pode inviabilizar Carnaval na Jove Soares
E, no futuro, em outros pontos da cidade, visto que não há restrição à instalação de igrejas e clínicas
Projeto do vereador Israel Lúcio, analisado na Câmara na reunião da terça-feira, 2, gerou manifestações de preocupação por parte de cidadãos que acompanham o dia a dia do Legislativo itaunense. Conforme essas pessoas, a proposta do vereador tem “endereço certo” e visaria impedir, ou mesmo dificultar, a realização do Carnaval de Itaúna no local onde aconteceu a festa neste ano. Conforme um dos cidadãos em contato com a reportagem, o projeto trata do seguinte, no caput: “Dispõe sobre a realização do Circuito Oficial do Carnaval e eventos similares em vias e logradouros públicos situados nas proximidades de hospitais, unidades de saúde, Fórum, Câmara Municipal, Prefeitura e templos religiosos no Município de Itaúna, e dá outras providências”.
Porém, como observa, já no artigo 3º, passa a ser mais específico, especialmente em relação ao Circuito Oficial na Avenida Jove Soares: “(...) poderão ser observadas medidas relacionadas à segurança, mobilidade urbana, controle sonoro, limpeza pública e acesso de veículos de emergência”. E, já no item I deste artigo, define que é necessário “plano de mitigação sonora, prevendo limites de volume e horários compatíveis com o funcionamento das unidades de saúde e templos religiosos”. Neste ponto, por exemplo, não é citado mais o Fórum, a Câmara, a Prefeitura, mas somente “unidades de saúde e templos religiosos”.
Comenta ainda o observador que “unidades de saúde” entram no texto muito mais para não citar apenas “templos religiosos”, que seriam, na sua opinião, o objeto explícito da “normatização”. E lembra que “no local onde foi realizado o Carnaval de Itaúna não tem quaisquer outras entidades abarcadas na lei que não seja templo religioso”. Afirma que a proposta do vereador tem o caráter de tirar o Carnaval da Jove Soares, porque incomoda o pessoal de uma igreja instalada naquela região. E vai além, afirmando que “não existe proibição para instalação de igrejas e, mais à frente, onde for instalada uma igreja, não se pode mais realizar quaisquer eventos, pois o encaminhamento é para permitir somente eventos que agrade aos religiosos, como se o estado não fosse laico”, argumenta.
Sugere um dos cidadãos que entrou em contato com a reportagem que, “como alguns vereadores estão preocupados com a ‘organização da cidade’, poderiam propor uma legislação parecida com o que acontecia em Brasília, por exemplo, que proibia a instalação de igrejas – de qualquer credo – nas proximidades das áreas habitacionais, reservando um espaço para a instalação das igrejas. Como o religioso não quer conviver com o barulho do Carnaval, quem não é religioso também não deve ser obrigado a conviver com o barulho das pregações”, afirma.
Reportagem alertou para necessidade de espaço para eventos
Nas duas últimas edições da FOLHA, coincidentemente em matérias de capa do jornal, o tema da realização de eventos – nos casos, eventos religiosos – na Praça da Matriz e na Avenida Jove Soares foram abordados. Primeiro, sobre a ocupação da Praça da Matriz com a festa católica do Kairós, que ocupou parte da pista próxima ao Fórum. Também foram apontados outros problemas, como a possível colocação de um contêiner de metal em cima de grama recém-plantada.
Já na edição seguinte, a abordagem foi a realização do evento evangélico da Marcha para Jesus, que interditou a Avenida Jove Soares nos dois sentidos. Com a interdição, ir do centro ao Bairro Nogueira Machado, por exemplo, se tornou um transtorno. Na ocasião, foi feita a sugestão para que as autoridades comecem a pensar em locar um espaço para a realização de grandes eventos. E aí, inclui-se os eventos tipo Carnaval, mas também as festas religiosas, pois o poder público precisa tratar todos os públicos com igualdade.



